Notícia

Revista PIB - Presença Internacional do Brasil

De brinquedo, só o carrinho

Publicado em 01 junho 2008

A Braskem aposta no plástico verde, produzido a partir do etanol, como alternativa aos fabricados com derivados de petróleo

Um plástico produzido a partir do etanol da cana-de-açúcar é o resultado mais vistoso, até agora, dos investimentos em pesquisa e inovação da Braskem, empresa petroquímica controlada pelo grupo Odebrecht. Plásticos utilizam geralmente em sua fabricação derivados de petróleo, matéria-prima não-renovável e cada vez mais cara – o preço do barril tem batido recorde atrás de recorde. Um polietileno cujas moléculas davam corpo a um pé de cana plantado na terra, e não a um lençol de óleo subterrâneo de origem fóssil, representa uma reviravolta na identidade da indústria – ela passa a ser alcoolquímica, além de petroquímica. Por que embarcar nessa mudança?

Porque o mundo está mudando, responde o presidente da Braskem, José Carlos Grubisich. “Há a necessidade de mais produtos feitos a partir de matérias-primas renováveis”, diz. “O consumidor faz pressão, principal mente nos mercados mais desenvolvidos.” A Braskem desenvolveu o novo plástico em seu Centro de Tecnologia e Inovação de Triunfo, no Rio Grande do Sul. A empresa mantém 200 pesquisadores próprios e assinou em fevereiro um convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para investigar outros biopolímeros — produtos e materiais intermediários desenvolvidos a partir de fontes renováveis. Cada uma das partes investirá US$ 15 milhões em cinco anos, com a participação de institutos e universidades paulistas (a Braskem investe cerca de 0,7% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento, nos mesmos patamares da indústria petroquímica mundial).

A empresa já tinha experimenta do antes produzir o eteno — produto intermediário que dá origem ao polietileno — a partir do álcool da cana. Mas, desta vez, o alvo é a produção em escala industrial, não apenas o experimento tecnológico. Neste momento, é um bom negócio, acredita Grubisich. De acordo com ele, os clientes de setores como o automobilístico e o eletroeletrônico, interessados no carimbo de um material ambientalmente amigável, aceitam pagar pelo plástico verde entre 20% e 30% a mais do que custa o produto-padrão (o material é 100% reciclável, e a planta que lhe deu origem contribuiu para retirar da atmosfera o carbono que acelera o aquecimento global). Com esse apelo, Grubi conseguiu um garoto-propaganda de primeira linha para o novo produto: nada menos que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que levou a tiracolo um carrinho de brinquedo feito de plástico verde em sua viagem à Europa, em junho.

Além disso, o plástico verde é diferente na origem, mas igual ao polietileno comum nas propriedades, e não exige novas máquinas nem mu danças no processo de produção dos clientes. A Braskem está fechando os estudos para a construção de uma fábrica do polietileno da cana capaz de produzir 200 mil toneladas por ano, a partir de 2010 lá mesmo em Triunfo, onde foi desenvolvida a tecnologia. A linha de produção do plástico verde absorverá pelo menos 50% dos US$ 588 milhões que serão investidos na ampliação total da unidade.

A meta inicial da Braskem era produzir 100 mil toneladas anuais, mas a resposta dos clientes à apresentação do produto numa feira internacional de plásticos na Alemanha, no ano passado, levou a empresa a dobrar a capacidade da fábrica. Da produção inicial, a expectativa é que a metade seja exportada. Grubisich estima um mercado potencial de 600 mil toneladas. “Vamos crescer à medida que nossos clientes crescerem”, diz ele. "O que vimos até agora mostra que o mercado existe, e com o petróleo a US$ 130, todas as barreiras e paradigmas foram quebrados?"