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A Tribuna (Santos, SP) online

De boca na babosa

Publicado em 19 abril 2005

Panacéia. Segundo o Dicionário Aurélio, o termo panacéia significa "remédio para todos os males".
Algumas plantas bem que se encaixam nesse perfil. Primeiro graças ao conhecimento popular, oriundo, muitas vezes, do uso milenar de certos vegetais. Em segundo lugar, em decorrência de estudos científicos que corroboram algumas dessas aplicações.
Quando esse dueto 'sabedoria popular e ciência' acontece, o que se verifica é uma explosão no consumo dessas plantas. É o caso, por exemplo, da babosa verdadeira (Aloe vera) - uma de suas 300 espécies.
Em 1994, o FDA, órgão do governo norte-americano que fiscaliza alimentos e medicamentos, e que, na prática, acaba servindo de referência para diversas outras nações, aprovou o uso da babosa para testes em pacientes com Aids e câncer.

Riscos
Jamais foi dito que a babosa 'curava' a Aids ou algum tipo de câncer. Mas nem foi preciso. No mercado, ao alcance de todos, já havia uma série de produtos que advogava esses e outros benefícios. Eram loções, poções, elixires e unguentos que graças ao anúncio do FDA ganharam, repentina e erroneamente, uma aura de produtos milagrosos.
Ocorre que toda planta, como todo remédio produzido pela indústria farmacêutica, pode ter tanto um lado bom como ruim, que se traduz, invariavelmente, pelo seu uso incorreto, sem orientação e acompanhamento médico.
Com a babosa não é diferente. Essa planta, originária do norte da África, tem como principais componentes substâncias como a aloína, aloeferon, aloetina e barbalodina, que são os responsáveis por algumas das propriedades reconhecidamente medicinais.
São elas que dotam o vegetal de comprovada capacidade cicatrizante - entre outras aplicações. Porém, esses mesmos componentes possuem propriedades emenagogas, ou seja, aumentam o fluxo sanguíneo. Resultado: ela é contra-indicada, por exemplo, na gravidez.
Além disso, em altas doses, a planta pode se transformar num purgativo drástico, sendo seu uso desaconselhável em crianças.

Na boca 
Agora, graças a um estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland (EUA), a babosa ganha uma nova aplicação: problemas bucais, como herpes ou inflamações na gengiva.
A afirmação é do professor de farmacologia Richard L. Wynn. Mas ele mesmo é cauteloso, afirmando que existem "evidências" que apóiam o uso da babosa no tratamento de problemas na saúde bucal.
Wynn descreve o caso de um paciente com líquen plano bucal (LPC), uma doença que afeta a pele e as membranas da mucosa bucal e que segundo Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma condição que pode induzir ao câncer.
Após ingerir cerca de 60 mililitros de suco de babosa por dia e aplicar uma pomada à base da planta, as lesões diminuíram até desaparecerem por completo em apenas quatro semanas.
O estudo do professor Wynn prossegue "A babosa pode ser utilizada tanto na forma de suco como a sua seiva, que são as duas formas reconhecidas pelo FDA", disse Wynn, em comunicado reproduzido pela Agência Fapesp.