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Datação de conchas permite mapear as variações do litoral durante os ciclos glaciais-interglaciais

Publicado em 11 agosto 2020

Por José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

O mapeamento das variações da costa brasileira em função dos recuos e avanços do oceano durante os ciclos glaciais-interglaciais tem, na planície costeira do Rio Grande do Sul, um local privilegiado de observação, devido aos depósitos de sedimentos produzidos pelas sucessivas transgressões marinhas, que também criaram na região um vasto sistema de lagoas.

Uma investigação conduzida pelo pesquisador Renato Pereira Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), trouxe novos aportes para o refinamento do modelo vigente, graças à datação de um conjunto de 35 conchas marinhas da espécie Amiantis purpurata, obtidas em perfurações de 20 metros de profundidade para a instalação de torres eólicas, e de outras sete conchas, recolhidas em um canal de irrigação.

A datação dos objetos foi feita na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), pelo físico Oswaldo Baffa Filho e colaboradores, e contou com apoio da FAPESP .

O artigo Geological and taphonomic significance of electron spin resonance (ESR) ages of Middle-Late Pleistocene marine shells from barrier-lagoon systems of Southern Brazil foi publicado no Journal of South American Earth Sciences.

“As datações obtidas correspondem às idades dos depósitos fossilíferos estabelecidas pelo modelo vigente, de aproximadamente 220 e 120 mil anos atrás. Esta, mais recente, marca a última vez em que, devido à deglaciação, o mar esteve mais alto, entre cinco e sete metros acima do nível atual. Como a declividade do terreno é muito baixa, cada metro de elevação correspondeu a uma intrusão de aproximadamente um quilômetro continente adentro”, diz Lopes à Agência FAPESP.

“A presença de conchas muito mais antigas que os sistemas deposicionais indica que depósitos marinhos mais velhos já existiam na planície costeira do Rio Grande do Sul e foram totalmente erodidos e revolvidos por transgressões subsequentes. Por outro lado, idades mais jovens, próximas a 100 mil anos, indicam que elevações posteriores do mar, de menor amplitude, antes não reconhecidas, também deixaram registros geológicos e fósseis na área de estudo”, complementa o pesquisador da UFRGS.

A datação por ressonância de spin eletrônico não é, propriamente, uma novidade. Porém constitui um método menos utilizado em pesquisas geológicas realizadas no Brasil. “A datação pelo decaimento do carbono 14 é a técnica mais conhecida. Mas funciona bem apenas para amostras com idade até 60 mil anos. O que empregamos foi uma técnica alternativa, baseada no efeito da radiação ionizante sobre diferentes materiais”, afirma Baffa.

E explica: “A radiação produz íons, como o CO2–, o SO2– e o CO33-, com um ou mais elétrons desemparelhados. Cada elétron desemparelhado apresenta um spin diferente de zero. E, construindo uma curva de crescimento da quantidade de spins, é possível determinar a quantidade de radiação recebida, e, portanto, o tempo de exposição do material à radiação”.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND . Leia o original aqui .