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Darwin na taxonomia

Publicado em 12 agosto 2020

Por Marcos Pivetta | Revista Pesquisa FAPESP

Darwin na taxonomia: Nova forma de classificar os seres vivos privilegia a história evolutiva e abandona as divisões da classificação de Lineu.

Darwin na taxonomia

12/8/2020 :: Marcos Pivetta/Pesquisa FAPESP. CC BY-ND 4.0

Dois livros lançados em junho sistematizam uma proposta alternativa de classificar os seres vivos a partir de sua história evolutiva, de suas relações de ascendência e descendência, independentemente de suas características anatômicas e sem o emprego das tradicionais categorias taxonômicas hierárquicas, como domínios, reinos, filos, classes, ordens, famílias e gêneros.

Os defensores do PhyloCode, nome formal da iniciativa recém-proposta, consideram as categorias de matriz lineana, ainda hoje um dos pilares da taxonomia, como abstrações descoladas da realidade biológica que não fazem mais sentido diante do avanço da filogenia .

Obra em que Lineu delineou a classificação das espécies.

Também criticam as dificuldades de incorporar a descoberta de novas espécies e revisões de suas relações de parentesco em um sistema baseado em divisões taxonômicas estanques.

“A contribuição de Lineu para a biologia foi revolucionária e notavelmente duradoura, mas ela era pré-evolucionista e antecede em um século a publicação de A origem das espécies , de Charles Darwin”, diz, em entrevista por e-mail, a Pesquisa FAPESP o biólogo norte-americano Philip Cantino, da Universidade de Ohio, um dos idealizadores do PhyloCode, ao lado do colega Kevin de Queiroz, do Museu Nacional de História Natural, de Washington, Estados Unidos.

Uma dose de Darwin na taxonomia

A dupla assina o livro International Code of Phylogenetic Nomenclature (PhyloCode), que contém as normas e diretrizes fundamentais da proposta. “Apesar de a aceitação quase universal da premissa de que a classificação deveria se basear em relações filogenéticas, os biólogos continuam a nomear clados [grupos de organismos que descendem de um ancestral comum] usando um sistema pré-evolutivo.”

A teoria da evolução de Darwin propôs a ideia, hoje amplamente aceita, de que as espécies contemporâneas descendem de formas de vida do passado.

O volume Phylonyms: A companion to the PhyloCode, organizado por de Queiroz, Cantino e o paleontólogo norte-americano Jacques Gauthier, da Universidade Yale, inclui as definições, nos moldes do PhyloCode, de cerca de 300 linhagens de seres vivos, os chamados clados, desde microrganismos até plantas e animais. Entre as centenas de colaboradores do Phylonyms, figuram três pesquisadores de instituições brasileiras como autores principais da definição de certos grupos de organismo.

O paleontólogo Max Langer, da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, coordenou a elaboração do texto sobre dinossauros e também assina aqueles sobre os clados Saurischia e Sauropodomorpha. Em dupla com Richard Olmstead, da Universidade de Washington, a botânica Lúcia Lohmann, também da USP, produziu o verbete sobre as Bignoniaceae, grupo de plantas que inclui árvores, arbustos e lianas. O zoólogo Martin Lindsey Christoffersen, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), redigiu, sozinho, a definição de dois clados de crustáceos decápodes, Polycarpidea e Prochelata.

PhyloCode

Parte dos pesquisadores de algumas áreas, como a paleontologia de vertebrados e a botânica, adota há muito tempo o PhyloCode em seus trabalhos científicos. Mas a proposta não é reconhecida pelos códigos internacionais de nomenclatura e ainda está longe de ser um consenso no meio acadêmico. Nesse novo sistema de classificação, existem apenas duas categorias, as espécies e os clados.

Os formuladores do PhyloCode chegaram a pensar em alterar a forma de dar nome às espécies, mas desistiram da ideia. “Isso iria causar muitos problemas”, reconhece de Queiroz. Desde a edição de Systema Naturae, de 1758, as espécies passaram a ser batizadas de acordo com os preceitos da chamada nomenclatura binomial.

Cladística

Cada forma única de vida é designada por dois termos, geralmente de origem latina (ou grega), escritos em itálico. O primeiro, de caráter menos particular, define o gênero e sua primeira letra é grafada em maiúsculo. O segundo, que pode ser derivado de uma característica marcante do ser em questão, de sua distribuição geográfica ou simplesmente uma referência (em forma de homenagem) a uma pessoa, determina a espécie em si.

Ele é todo escrito em caracteres minúsculos. Seguindo essa norma, Lineu batizou a espécie do homem moderno de Homo sapiens. Em latim, homo quer dizer ser humano e sapiens, sábio ou inteligente.

Clado e a árvore da vida

O conceito de clado, pilar do PhyloCode, está associado à ideia evolutiva de que as formas de vida descendem de seus antecessores, dos quais herdam certas características. A metáfora comumente usada é a da árvore da vida. Na base de seu tronco, figura o aparecimento da vida na Terra, por volta de 4 bilhões de anos atrás, de uma hipotética população de microrganismos da qual, em última instância, todos os seres, atuais e do passado, derivam. Com o passar do tempo, a árvore da vida gera galhos, que se subdividem em outros ramos e assim por diante.

Lêmure

A partir de um certo momento, alguns desses nós se desenvolvem em paralelo, de forma independente. Outros permanecem conectados. Outros ainda são mesmo cortados (quando uma espécie se extingue). De raiz grega, o vocábulo clado significa ramo. Na biologia, em termos evolutivos, um clado (também denominado grupo monofilético) é formado pelo conjunto de todos os organismos que descendem de um determinado ancestral comum.

Complicado? Exemplos ajudam a entender o conceito. Na classificação tradicional, os primatas formam uma ordem, nível taxonômico que pode englobar inúmeras subdivisões, como subordem, superfamília, família, subfamília, tribo, gênero e espécie. Dessa ordem, fazem parte, grosso modo, lêmures, lórises, társios, macacos e o homem moderno. No PhyloCode, os primatas formam um clado, assim definido: o mais recente ancestral comum das espécies Lemur catta (Lêmure-de-cauda-anelada), Loris tardigradus (lóris-delgado-vermelho), Tarsius tarsier (társio) e Homo sapiens (homem moderno) e todos os seus descendentes.

Na prática, as formas de vida que pertencem à ordem dos primatas, no contexto da taxonomia tradicional, e ao clado dos primatas, sob a ótica do PhyloCode, são essencialmente as mesmas. Isso ocorre porque o clado dos primatas foi definido a partir das relações de ancestralidade de representantes dos quatro principais grupos tradicionalmente abrigados na ordem dos primatas (um lêmure, um lóris, um társio e o homem moderno).