Notícia

Terra

Da praia às estrelas: a história de uma astrônoma

Publicado em 12 outubro 2009

Por Tissiane Vicentin

Elysandra Figueredo foi atrás do sonho e, do litoral paulista, alcançou o universo. É cientista, física e astrônoma e teve um projeto contemplado pelo Prêmio L"Oréal/Unesco para mulheres na ciência. Exemplo que não viu na infância simples um obstáculo. E foi lá mesmo, quando criança assistia a programas científicos e já gostava de literatura sobre o assunto, que percebeu que o céu não era o limite. Literalmente.

Lys teve que ralar muito. Estudava bastante e ainda arrumava um tempinho para ajudar no orçamento. "Estudei a minha vida inteira em escolas públicas e pelo fato de minha família ser bastante humilde, tive que trabalhar desde muito cedo para ajudar nas despesas da casa. Trabalhei em várias coisas, desde balconista de lojas até animadora de festas infantis, nos finais de semana. Meu último emprego foi o de patinadora do Carrefour, em São Vicente, cidade onde minha família vive até hoje", conta. Dos patins ela foi direto para a faculdade de Física da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

No último ano de faculdade, Lys decidiu fazer sua primeira viagem ao exterior. E sozinha. Surgiu a oportunidade de participar de uma espécie de estágio, durante quatro meses, no Instituto de Astrofísica de Canárias, Tenerife, nas Ilhas Canárias, arquipélago espanhol no Oceano Atlântico, a oeste do Marrocos. Foi longe de casa que Lys se tornou uma astrônoma observacional. "Lá tive meu primeiro contato com a astronomia de verdade e me apaixonei", relembra. "Voltei do estágio decidida a seguir a carreira de astrônoma".

Mesmo sem ajuda da família, a cientista não desistiu. "Eu fui a primeira da família a entrar na universidade. Não tive apoio moral ou financeiro. Mesmo porque minha família não tinha como me bancar. Logo que entrei na universidade, recebi auxílio para estudantes carentes e moradia estudantil. Se não fosse esse apoio recebido pela Unesp, eu jamais conseguiria completar a minha faculdade. Minha situação só melhorou no segundo ano, quando fui contemplada com uma bolsa de iniciação científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)", diz.

A estudiosa ainda emendou o mestrado e o doutorado na USP, aproveitando todas as portas que se abriam pelo caminho. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) foi a responsável por financiar seus estudos nessa época. Depois de defender o doutorado, Lys ainda ganhou outra bolsa, para um estágio de pós-doutorado na "The Open University", na Inglaterra. Haja fôlego. E ela só voltou para o Brasil porque o coração estava aqui. "Voltei no final do ano passado porque meu marido passou em um concurso para professor doutor no departamento de astronomia do IAG - USP, e optamos pela estabilidade na família". Hoje Lyz trabalha no mesmo departamento que o marido.

A jovem cientista sabe que seu trabalho é bastante extenso, mas gratificante. E sabe que todo o esforço foi recompensado. "É muito gostoso saber que o tempo dedicado aos estudos, todas as noites sem dormir nos observatórios, longe de minha família e amigos, valeram super a pena", anima-se.

E valeram tanto que, nesse ano, Elysandra participou do programa L"Oréal/Unesco e foi escolhida, depois de concorrer com outras 504 candidatas. Ela foi a única da categoria "ciências físicas" a ser contemplada.

Seu projeto

Um catálogo de estrelas de alta massa, raras de serem encontradas em nossa galáxia - foi feito pensado especialmente nas mulheres, já que muitas das cientistas conhecidas desenvolveram catálogos que, mais tarde, foram uma parte essencial para grandes descobertas. Todos os anos, o prêmio L"Oréal/Unesco escolhe cinco cientistas - uma em cada continente - para contemplá-las com uma bolsa que ajuda com pesquisas e contínuo estudo. Elysandra foi a 5ª brasileira a ser premiada e não esconde a felicidade ao falar sobre o assunto.

"O prêmio é um dos mais prestigiosos da minha área. Ser julgada e contemplada por uma banca de peso incontestável, com membros da ABC (Academia Brasileira de Ciências), foi realmente algo emocionante. Esse foi um reconhecimento da qualidade de minha pesquisa e com isso pude entender que estou de fato seguindo o caminho correto em minha carreira", orgulha-se. Com o dinheiro recebido - U$ 20 mil - Elysandra fixará seus pés no Brasil, fazendo carreira por aqui, e ainda terá a possibilidade de continuar com suas colaborações em projetos da Inglaterra e do Japão.

Ela acredita que tem um compromisso com a sociedade e o dever de retribuir ao governo, que bancou todos os seus estudos. "Agora, um pouco mais madura como profissional na área de astronomia, sinto-me capaz de desenvolver e liderar projetos que gerem um retorno para a sociedade, por isso faço questão de trabalhar também com ensino. Dedico atualmente 20% de meu tempo na coordenação de um curso para a formação de professores da rede pública, que deverá ser oferecido a distância para todo o território nacional. O projeto piloto, em formato experimental, deve ser oferecido em 2011", comenta.

Por Vila Sucesso