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Jornal O Noroeste online

Da necessidade premente de se ler as gafes políticas com menos ingenuidade

Publicado em 12 dezembro 2018

Em 4 de abril de 2013, o então presidente do Uruguai, José Alberto Mujica, conhecido como Pepe Mujica, conversava com o governador de um distrito daquele país sobre as dificuldades de se relacionar com a presidenta argentina à época, Cristina Kirchner. Sem saber que os microfones dos jornalistas estavam abertos, Mujica disse entre tantas outras coisas: “Esta vieja es peor que el tuerto”.

Imediatamente, esta pequena frase foi destacada de seu cotexto original e divulgada pela imprensa uruguaia, ganhando ampla circulação em outros contextos. Depois desse episódio, Mujica, até então muito respeitado não só no continente americano, mas no mundo inteiro, por suas ações à frente do executivo uruguaio, ficou conhecido também como um grande gafista, talvez o maior gaffeur sul-americano. O comentário de Pepe Mujica e a sua intensa circulação na web foi o mote para se pensar num trabalho acadêmico sobre a gafe política, que circula nas mídias.

Em novembro último, o professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), prof. dr. Roberto Leiser Baronas, e a pós-doutoranda também do Departamento de Letras e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), dra. Julia Lourenço Costa, publicaram pela Editora Grácio Editor de Coimbra, Portugal, o livro Quatro ensaios sobre a gafe na comunicação política: uma abordagem discursiva. A obra conta com o prefácio de Ida Lúcia Machado da UFMG, uma das maiores discursivistas brasileiras, e com o posfácio de Rui Grácio, um dos maiores estudiosos de Retórica.

Como indica o título, organizado em quatro ensaios, além dos organizadores, a obra conta com participação dos pesquisadores franceses Christian Le Bart, pesquisador em ciência política, no Institut d’études politiques de Rennes, e Phillipe Teillet, pesquisador em ciência política, no Institut d’études politiques de Grenoble, e da jovem pesquisadora brasileira Mayara Victor Gomes, graduada em Linguística pela UFSCar.

Trata-se de um livro inédito no âmbito das ciências da linguagem de língua portuguesa, uma vez que pela primeira vez a gafe política é tomada como objeto discursivo de estudo. A proposta inovadora do livro reside, especificamente, em refletir sobre a gafe política a partir de um ponto de vista discursivo, mostrando que as gafes estão inoculadas de historicidade, isto é, por mais risíveis que possam (a)parecer são o produto de determinado posicionamento ideológico.

A escrita do livro Quatro ensaios sobre a gafe na comunicação política: uma abordagem discursiva irrompeu da necessidade de se produzir conhecimento discursivo sobre a gafe política, procurando debater o papel da comunicação política no engendramento e circulação das gafes, a partir de uma visada discursiva, extrapolando a mera descrição do fenômeno gafe. E, mais especificamente, na possibilidade do diálogo entre a dimensão mais política da gafe de um lado; e, de outro, a dimensão especificamente discursiva.

A gafe escancara a relação entre a língua e os valores sociais vigentes em determinada sociedade e em determinado período, uma vez que esse fenômeno discursivo é elevado a esse status a partir da concretização de uma ruptura com os valores políticos, sociais e ideológicos vigentes no interior do grupo no qual foi produzido e/ou compreendido. Em outros termos, a gafe, em política, provoca um desajustamento nos discursos entendidos como virtuosos no interior de uma determinada sociedade. Nesse sentido, a gafe resulta de uma apreciação errônea do que é politicamente factível ou dizível em determinado momento. A gafe, então se volta contra seu autor de maneira a confrontar as reações que não tinham sido previstas. Há gafe porque um ator político produz um comportamento que, sem que ele saiba, ataca diretamente as maneiras de dizer, as crenças e os valores em vigor no campo político.

Quatro ensaios sobre a gafe na comunicação política: uma abordagem discursiva procura demonstrar que não existem gafes políticas em si, mas que estas são pinçadas e elevadas ao estatuto de gafe por meio de um trabalho específico dos profissionais da mídia. Os exemplos que os ensaios fornecem demonstram que as mídias, ao destacar gafes de certos políticos, mostram-se dotadas de certa habilidade – de cunho também linguístico-discursivo – para atender finalidades ideológicas específicas.

O livro destaca a importância em pensar como a mídia apropria-se de frases dos discursos dos políticos, destacam-nas do restante do discurso e as apresentam em outro espaço: manchetes de jornais, subtítulos e mesmo novas matérias midiáticas, destinadas a destacar as “pérolas” ditas por políticos. Assim tais fragmentos ganham nova vida, nova roupagem e aí está, acreditamos, o perigo desse deslocamento: se prestam a divulgar novos sentidos. São os famosos “enunciados destacados” que vão trabalhar contra, ou em certos casos, pender a favor daqueles que cometeram alguma gafe em seus pronunciamentos.

Em tempos de fake news, pensar o funcionamento da gafe política, a partir do mirante discursivo, contribui para melhor compreender como a linguagem encarna ideologias e como estas são manipuladas no seio da vida política e social por meio recursos linguístico-discursivos, que contribuem para a concretização e permanência de determinada visão de mundo. Enfim, o livro aponta para a importância em se pensar a gafe nos discursos políticos atuais, podendo assim aguçar as percepções sobre a relação bastante imbricada entre a própria política e as mídias – que efetuam os destacamentos das gafes atendendo também a interesses específicos.

A publicação do referido livro se deu tanto no formato E-book quanto no formato impresso. Mais informações podem ser obtidas em www.ruigracio.com ou pelo endereço eletrônico dos autores: baronas@ufscar.br e julialourenco@usp.br.

*Roberto Leiser Baronas, professor associado no Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

*Julia Lourenço Costa, pós-doutoranda da Universidade Federal de São Carlos e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo