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Da Mooca ao Itaim Paulista, a cidade de todos os contrastes

Publicado em 10 outubro 2007

Em pequenas casas espremidas em lugares e favelas distantes e em apartamentos mínimos nos bairros-dormitório, agita-se uma cidade que em números nada deve a qualquer grande metrópole do País: mais de quatro milhões de habitantes em 1,06 milhão de domicílios, 326,8 quilômetros quadrados de área, 809 escolas de ensino fundamental (320 mil matrículas em 2006), 291 supermercados e hipermercados, 655 estabelecimentos de pequeno e médio varejo, 346 feiras-livres. Quando se nota a condição de vida dessas pessoas com seus grandes números é que a coisa pega: trata-se de uma cidade com muitos problemas, embora com muitas esperanças. É a Zona Leste de São Paulo.

Esta metrópole é composta por núcleos menores, mas nem tanto. São onze subprefeituras - da Mooca tão pertinho e tão tradicional à distante Itaim Paulista, que contém o ponto mais a leste da cidade, já colado nos municípios de Itaquaquecetuba, Poá e Ferraz de Vasconcelos. Em cada uma dessas cidades menores, as pessoas convivem com problemas de habitação em condições às vezes subumanas, atendimento nem sempre eficiente de saúde, transporte público em geral lotado, ruas de terra, esgoto a céu aberto, pouco lazer e muita violência.

Segundo constata uma pesquisa da Fapesp, este lado da cidade foi fruto do primeiro surto industrial, baseado principalmente na indústria têxtil e alimentícia. Ao ocupar as várzeas por onde passavam as ferrovias, constituiu a grande região operária de São Paulo: sua Zona Leste-Sudeste. "Conforme a cidade cresceu e fez aumentar a concorrência pelo solo urbano, instalou-se também a segregação no espaço, e nesse ponto inicia-se a história da ocupação das terras de várzea", diz o trabalho. As várzeas industriais serviram como espaço de trabalho e moradia em ocupação de alta densidade, contígua aos trilhos: galpões de tijolo, vilas e cortiços, vendas e oficinas se misturavam no espaço de vida e trabalho dos milhares de recém-chegados que durante décadas foram povoando a cidade de maneira intensa e rápida.


Falta qualidade

Foi intenso também, ao longo dos anos, o descaso público. Especialistas em urbanismo concordam que as mazelas de hoje são frutos disso. Quanto mais a cidade avançava naquela direção, menos o poder público tinha olhos e verbas para atender aos cidadãos. Parte da população que não pôde acompanhar a melhoria dos espaços mais qualificados da região foi expulsa para a periferia. E lá ficou.

Em um primeiro cinturão está hoje a área mais nobre, em bairros como Tatuapé, Anália Franco, Parque da Vila Formosa e Vila Prudente. Depois, numa faixa intermediária, ficam Penha, Vila Matilde, Itaquera e São Miguel. E, afinal, no que se chama verdadeira periferia, estão Ermelino Matarazzo, São Miguel, Itaim Paulista, Guaianases, Cidade Tiradentes e São Mateus. Alguns desses bairros - ou cidades - ficam a mais de 30 quilômetros da praça da Sé e do viaduto do Chá (onde está a Prefeitura da cidade).

Na periferia, explica o arquiteto Renato Cymbalista, coordenador da área de urbanismo do Instituto Pólis, que promove estudos e presta consultoria em políticas sociais, quando uma região melhora - por qualquer motivo - em geral os pobres vendem suas propriedades e se retiram para locais ainda mais distantes. A indústria imobiliária faz o que está acostumada a fazer: compra, investe, vende. E procura um novo lugar. Quem foi para algum bairro mais distante acaba levando consigo a falta de qualidade, fruto da falta de recursos e de atenção.

"Aquele pedaço da cidade nunca teve qualidade urbanística por conta da autoconstrução e da falta de investimentos públicos. Só agora a infra-estrutura começa a chegar", diz Cymbalista.

Por mais que melhore, porém, nota o arquiteto, dificilmente conseguirá a mesma qualidade de bairros mais antigos e mais ricos da Zona Sul ou do centro. Uns e outros resolveram seus problemas urbanísticos há muito tempo. Em questões de urbanismo, a Zona Leste precisa de tudo: vias de acesso, praças e espaços, conserto do traçado das ruas. E habitações de interesse social, para evitar os riscos também sociais que as pessoas já correm.

Nesse ponto o arquiteto é radical: ele diz que a cidade não deveria gastar seu dinheiro em obras visíveis demais e nas partes mais ricas da cidade - e ele cita a ponte de estais sobre o rio Pinheiros, com custo total estimado pela própria Prefeitura em R$ 233 milhões. Para melhorar bairros mais pobres como os da Zona Leste, diz Cymbalista, será preciso inverter completamente as prioridades do poder público.


Obras

A Prefeitura se defende e garante que trabalha para melhorar a estrutura da região. Um dos exemplos é a construção do viaduto sobre a avenida Águia de Haia, na Zona Leste, que fará a interligação da Nova Radial Leste com a avenida Calim Eid, sentido Marginal Tietê. O viaduto terá 230 metros de extensão e suportará uma circulação prevista de mais de três mil veículos por hora. Valor das obras: R$ 15,3 milhões.

Também na Zona Leste está em obras o prolongamento da avenida Jacu-Pêssego, com a construção do entroncamento com a avenida Assis Ribeiro, obra prevista para este segundo semestre. A construção do viaduto sobre os trilhos da CPTM e das alças de acesso à rodovia Ayrton Senna deve ficar pronta em 2008. O valor da obra é de R$ 230 milhões, com aporte financeiro dos governos federal e estadual.

Em abril, o prefeito Gilberto Kassab inaugurou mais 2,8 km de vias do prolongamento da Nova Radial Leste. Com a inauguração do trecho, o tráfego de veículos no sentido da Marginal Tietê ganhou mais velocidade e fluidez. "É uma importante obra de infra-estrutura que aproxima Itaquera e a Zona Leste do restante de São Paulo, diminuindo as distâncias e o tempo de circulação dos veículos, portanto facilitando a vida dos que aqui moram", disse o prefeito durante a inauguração. A obra beneficia os moradores da região de Guaianases, Itaquera, XV de Novembro, José Bonifácio, Vila Progresso e Lajeado.

As novas vias são dotadas de pistas duplas de 10,5 m de largura cada uma e três faixas de tráfego nos dois sentidos da Nova Radial, que liga as proximidades do túnel Jornalista Odon Pereira à estação Artur Alvim do metrô e à Marginal Tietê. As calçadas têm 2,5 m de largura e a separação das novas pistas é feita por um muro de contenção. Para iluminar a nova via, o Departamento de Iluminação Pública (Ilume) instalou 93 pontos de luz.

A implantação da avenida começou em 2003. No começo de 2005, o prolongamento da Radial estava com 5,4 km entre Itaquera e Guaianases. Entre 2005 e 2006 foram entregues o túnel, a alça de acesso ao viaduto que liga a nova via ao centro de Itaquera e a estação de transferência de ônibus. Completo, o complexo viário é composto por 9 km de pista dupla, ligando Artur Alvim a Guaianases e à Marginal Tietê por meio do viaduto Artur Alvim e da avenida Calim Eid.

A necessidade de modernização e adequação do sistema viário da região foi identificada pela Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla). A secretaria considera a Zona Leste um centro geográfico da metrópole. Teria vocação para se comunicar com toda região metropolitana. Daí a presença de vários postos de distribuição que atendem ao Vale do Paraíba. Mas é preciso adequar melhor a infra-estrutura viária.


Subprefeituras da Zona Leste

Aricanduva

Cidade Tiradentes

Ermelino Matarazzo

Guaianases

Itaim Paulista

Itaquera

Mooca

Penha

São Mateus

São Miguel

Vila Prudente

(LCA)