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Safra

Da melhor qualidade

Publicado em 01 dezembro 2006

Com os avanços nas pesquisas, o empenho dos produtores e uma boa dose de investimentos em marketing, o café cultivado no País, que historicamente já passou por uma série de altos e baixos, vive momento extremamente favorável. Os brasileiros, segundo estudos recentes, têm tomado mais café e os estrangeiros estão, cada vez mais, encantados com o sabor dos grãos especiais de origem nacional. Estimativa da Organização Internacional do Café (OIC) indica que, nos últimos anos, a taxa de crescimento da demanda interna aumentou entre 3% e 5% ao ano — acima da média internacional (de 1,5%).
Analistas de mercado concordam coma opinião do presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Maurício Miareffi, que comentou, há algumas semanas, que o Brasil tem potencial para se tornar o maior consumidor mundial de café em dez anos. Atualmente, o País lidera o ranking da produção global do produto e ocupa o segundo lugar no item consumo (16 milhões de sacas anuais).
De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção da safra 2006/2007 está na casa dos 41,6 milhões de sacas (60 quilos) de café beneficiado. Deste total, cerca de 32 milhões de sacas são de café arábica e 9,5 milhões de café robusta (conilon).
Tal volume representa crescimento de 26,2% em relação à safra passada. Para o próximo ano, em virtude da lei da oferta e da procura, previsões mostram que os preços devem ser maiores, já que as floradas das lavouras em desenvolvimento ficaram abaixo do esperado e a produção deve cair.
No caso dos cafés especiais, cálculos da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês) indicam que a produção desse tipo de grão no País pode chegar a 1 milhão de sacas este ano, o que representa aumento de 25% em re à safra passada. Para efeito de comparação, a entidade destaca que o consumo dos cafés tradicionais cresce na taxa de 1,5% ao ano e, enquanto isso, o consumo de café especial aumenta cerca de 10% a cada doze meses.
Segundo o analista de mercado Clênio Robson de Araújo, da Origem Corretora, fazendas certificadas conseguem preços melhores pelos seus produtos. "Vale dizer também que os produtores amadureceram e, em geral, aplicam mais tecnologia nas propriedades. Temos um cenário bem diferente do que ocorria há dez anos", afirma.
O valor médio de mercado da saca está, atualmente, na casa dos R$ 270 e o custo de produção fica em tomo de R$ 200 por saca. "Os cafés certificados são vendidos com preços 10% maiores que a média do mercado e os cafés gourmet, chamados de especiais, podem valer at 50% a mais do que o preço do café convencional", comenta.
Em geral, os cafés vencedores e finalistas de concursos que avaliam a qualidade dos grãos colhidos têm conseguido preços muito acima dos que são praticados no mercado. Um exemplo recente é o do vencedor do 50 Concurso Estadual de Qualidade do Café de São Paulo. O lote da variedade Mundo Novo, cereja descascado, da Fazenda Cachoeira da Gama, situada na região da Alta Mogiana, foi arrematado por R$ 3,1 mil a saca, em leilão realizado no dia 19 de outubro. A compra foi feita pela Spress Café, que pagou um valor 839% acima do preço de mercado. Além disso, segundo analistas, as visitas de missões internacionais às lavouras brasileiras têm sido fundamentais nas negociações com compradores estrangeiros.
Araújo destaca que, em diferentes lugares do mundo, inclusive no Brasil, a bebida tem sido consumida por muitos jovens. "Isso é interessante porque garante um consumo elevado por vários outros anos", diz. Além disso, as próprias empresas do setor estão preocupadas em divulgar produtos que agradem aos consumidores. "Quem tomou um café de boa qualidade, não consegue voltar para um café de padrão inferior".
Na opinião do analista, um aspecto ainda precisa ser aprimorado pelos produtores. Muitos cafeicultores certificam suas fazendas, em busca de negócios mais vantajosos, mas não buscam representantes que cuidem adequadamente da parte comercial. "O agricultor deve se preocupar com a qualidade do que produz, com a produtividade da lavoura, com o uso de novas tecnologias. Para a pane comercial, na hora de vender a produção, é importante que o cafeicultor busque parceria sólida com alguém que possa representá-lo", afirma.
O produtor Luiz Fava Junior, do Grupo Agrofava, considera fundamental os investimentos em tecnologia para o sucesso fios negócios. Sua propriedade, localidade no município de Campo Alegre de Goiás (GO) é certificada e possui 660 hectares plantados de café. O grupo já concluiu algumas vendas para o mercado japonês (trabalhando a marca Fava Estate Coffee) e também está de olho nos consumidores europeus.
"O café produzido em Goiás e muito bom e, com a certificação, temos a possibilidade de atingir novos mercados. Este é o nosso objetivo", declara Fava Júnior. O - preço médio da saca em Goiás, segundo ele, está em R$ 270 e o custo de produção fica entre R$ 180 e R$ 200 por saca. Na região, existem apenas lavouras irrigadas, com produtividade de cerca de 50 sacas por hectare.
De acordo com ele, é importante que os produtores pensem em agregar valor aos seus produtos e também são necessários investimentos em marketing. "A cadeia do café é muito rica e acredito que o agricultor ainda fica com parte muito pequena de toda essa riqueza", diz. No caso de Goiás, a falta de uma associação de produtores é apontada por Fava Júnior como uma dificuldade para a expansão da cultura na região. "Os cafeicultores mineiros, por exemplo, tiveram muitos ganhos quando ficaram mais unidos e criaram a marca Café do Cerrado".
Para o próximo ano, o produtor diz que, em relação aos preços, o cenário é mesmo positivo. Os estoques mundiais estão baixos, o consumo interno tem aumentado e a florada para a safra 2007/2008 ficou abaixo do esperado. "Tem gente já Mando que pode haver escassez de café no merca do em 2007", diz. O fato é que, enquanto cafeicultores preferem fazer estoques para aproveitar as altas cotações do produto, as indústrias começam a se preocupar com o possível aumento dos preços.
O exemplo de sucesso citado pelo produtor goiano acontece no chamado cerrado mineiro, onde associações e cooperativas deram origem ao Conselho das Associações dos Cafeicultores do Cerrado (Caccer) A organização dos produtores conquistou a demarcação de arca, estabeleceu critérios para um Programa de Certificação de Produção de Café e definiu a estruturação de um Sistema de Certificação de Origem e Qualidade de Café. Em 2005, a região foi reconhecida como a primeira Denominação Geográfica de Café do Mundo, segundo normas da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).
Com a padronização dos processos de produção de café na região demarcada do cerrado mineiro, as propriedades passaram a atender às principais exigências dos compradores em relação a aspectos de Boas Práticas Agrícolas, Responsabilidade Social e Respeito ao Meio Ambiente. Além disso, as etapas de produção têm procedimentos que permitem rastrear os grãos. Com toda essa organização, o café oferecido aos compradores ganhou qualidade, aumentou seu status e ficou mais atraente para o mercado externo.
O bom momento da cafeicultura, no entanto, é reflexo de um trabalho longo, principalmente no campo da pesquisa. Por iniciativa do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, co ordenado pela Embrapa Café, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, teve início em fevereiro de 2002 o Projeto Genoma Café. O trabalho resultou na construção de banco de dados com mais de 200 mil seqüências de DNA, o que permitiu a identificação de mais de 30 mil genes.
A partir dos genes identificados, especialistas têm trabalhado no desenvolvimento de variedades mais produtivas, tolerantes à seca e resistentes ao ataque de pragas e doenças. Os estudos também visam a geração de novas cultivares, com qualidades superiores em aroma e sabor e com melhores características nutritivas e farmacêuticas. lltdo para a conquista de grãos com maior qualidade e valor agregado.
A Embrapa também está trabalhando em equipamento capaz de clonar mudas de café. O chamado biorreator funciona a partir de um sistema de frascos de vidro interligados por tubos de borracha flexível, pelos quais as plantas recebem ar e solução nutritiva por aspersão ou borbulhamento. Tal equipamento contém materiais a serem reproduzidos e visa produzir plantas de forma semi-automática, com monitoramento e controle das condições de cultivo, além de menor manipulação das culturas.
O pesquisador João Batista Teixeira, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, explica que o biorreator é um equipamento feito para otimizar a fase de germinação. A técnica vem sendo estudada em escala piloto em uma unidade da Fundação Pró Café. A produção de mudas de café em laboratório leva entre 18 e 20 meses. Com o uso do biorreator, segundo o especialista, ocorre significativa redução dos custos com mão-de-obra. E o equipamento também pode ser utilizado em outras culturas.
No processo de melhoramento,são selecionadas plantas com características agronômicas favoráveis,p mais resistentes, e esses exemplares são aqueles que podem ser clonados. Alguns testes serão feitos em campo, para comparar as plantas híbridas (selecionadas) com as convencionais. "A idéia é identificar, selecionar e multiplicar plantas superiores", resume Teixeira.
Bianualidade — A safra de café 2007/2008 deve ter volume bem menor do que os 41,6 milhões de sacas colhidas nesta safra. Alem da falta de chuvas no período adequado, a chamada bianualidade da cultura é apontada como uma das razoes para a possível colheita menor (nas conversas informais, alguns analistas arriscam que a próxima safra deve ficar entre 32 milhões e 35 milhões de sacas).
O pesquisador Luiz Carlos Fazuoli, do Instituto Agronômico (MC), explica que as lavouras adultas e quesao mais vulneráveis à bianualidade. Até o quarto ano, sem imprevistos climáticos e ataques de pragas, a produção costuma se crescente. O efeito da bianuílidade é uma característica normal da cafeicultura e que a produção se altera a cada o,isso é da própria estrutura da planta. No entanto, com o manejo adequado, o impacto desse processo é menor", explica ele, lembrando que a poda é um procedimento fundamental da cafeicultura.
Fazuoli destaca que o produtor precisa ficar atento à lavoura uniformizar espaçamentos, investir no correto manejo da cultura.
"Quanto mais velha for a planta, menos ela reage às podas", diz.
Ele afirma que realmente faltou chuva, que a temperatura aumentou e que as floradas não foram tão boas."Pelo que pudemos observar até o momento, deve ocorrer mesmo uma produção menor na próxima safra mas o cenário só estará mais claro no final de janeiro". É esperar pra ver.