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Jornal da Unicamp online

Da língua do quilombo ao samba carioca, para ler, ouvir e interagir

Publicado em 22 agosto 2016

Por Marta Avancini

Quase 40 anos depois da descoberta de Cafundó, o público em geral poderá conhecer e ouvir a “cupópia”, língua baseada no português, kimbundu e outras línguas africanas, adotada pelos remanescentes de escravos que vivem nesta comunidade rural, localizada em Salto do Pirapora, interior de São Paulo.

O acesso à “cupópia”, uma das principais descobertas de uma pesquisa realizada pelo linguista Carlos Vogt e o antropólogo Peter Fry na comunidade nas décadas de 1970 e 1980, com a colaboração do historiador Robert Slenes, tornou-se possível graças ao lançamento em formato digital do livro “Cafundó – A África no Brasil”, resultado do estudo.

A edição digital de “Cafundó” é o primeiro e-Pub publicado pela Editora da Unicamp. Reúne, além do texto da segunda edição impressa do livro (datada de 2014), gravações originais feitas durante o trabalho de campo, assim como fotografias e outros tipos de documentos usados na pesquisa.

O lançamento desta obra e da coleção Históri@ Illustrada, coordenada pela historiadora Silvia Lara, marcam o ingresso da Editora no mercado de e-Pubs.

O primeiro volume dessa coleção, que será lançado no dia 25 de agosto, é “Não tá sopa: sambas e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930”, da também historiadora Maria Clementina Pereira Cunha - resultado de uma pesquisa sobre o cotidiano dos participantes e frequentadores das rodas de samba no Rio de Janeiro, no início do século 20.

“Com este tipo de publicação alcançaremos leitores diferentes, tanto porque alguns preferem este formato, quanto há leitores que têm pouco acesso a livrarias no Brasil”, afirma Eduardo Guimarães, diretor da Editora da Unicamp. “É uma iniciativa que busca entrar de modo sério neste novo mercado de livros, ainda pequeno, mas que deverá crescer”, completa o diretor.

Paralelamente, a nova linha editorial reforça seu papel no campo da divulgação científica, enfatiza o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge: “O lançamento de uma linha de e-Pubs marca um salto significativo no acesso às obras publicadas pela editora, uma vez que permitirá maior economia de tempo e conforto para os usuários. Trata-se, também, de um importante recurso para divulgação científica, alinhado com as tecnologias disponíveis”.

Difusão ampliada

Para o linguista Carlos Vogt, a ampliação da difusão e do acesso potencial à sua obra, somadas às possibilidades de edição inerentes às tecnologias digitais e à redução do custo do produto final, são as principais vantagens propiciadas pela edição digital de “Cafundó”. “Os hipertextos usados nos e-Pubs enriquecem a leitura, ao apontarem para fontes e documentos que aprofundam a experiência”, analisa Vogt.

Nessa medida, o público potencial amplia-se. “O livro deixa de ser interessante apenas para pesquisadores, passando a ser atrativo para estudantes e leitores comuns”, complementa o linguista.

A coleção Históri@ Illustrada possui objetivos semelhantes: divulgar pesquisas nas áreas da História Social e da Cultura que utilizem documentos textuais, iconográficos e sonoros.

“Ao unir texto, imagem e som, os e-Pubs permitem um acesso direto, livre de mediações ou interferências, a fontes não textuais - como as músicas, as artes plásticas, a fotografia etc.”, explica Silvia. “A leitura, enriquecida com ilustrações capazes de dialogar com a narrativa, aumenta o envolvimento do leitor e torna-se mais acessível para o público não especializado”, complementa a historiadora.

Em síntese, mais do que adaptar as pesquisas a um formato de livro digital, a coleção propõe uma nova maneira de divulgar os estudos e de lê-los. “Qualquer historiador que já tenha trabalhado com cultura sabe o quanto pode ser difícil e, até, frustrante, expressar por meio da escrita os achados de uma pesquisa que usa como fontes música, filmes ou fotografias”, relata Maria Clementina, ao contextualizar sua própria experiência.

Assim como ocorre nas ciências humanas, em que os e-Pubs possibilitam o acesso a dados e informações de base que não são passíveis de serem apresentadas na linguagem escrita ou em publicações impressas, nas demais áreas do conhecimento, esse tipo de livro digital oferece informações relevantes e complementares às pesquisas.

“Nos livros técnicos permitem acesso a fórmulas, a figuras, a desenhos. Já as obras de referência têm grande vocação para entrar neste modelo, porque a pesquisa fica extremamente facilitada pelo procedimento de busca. Pense num livro de música, por exemplo: será possível ouvir a música e não só ver a partitura”, detalha Guimarães.

Nova experiência de leitura

Nesse contexto, a publicação de livros digitais em formato e-Pub - abreviação do termo inglês Eletronic Publication (publicação eletrônica) -, adotado pelos lançamentos da Editora da Unicamp, possibilita tanto ao leitor quanto ao pesquisador, uma experiência que ultrapassa os limites convencionais de divulgação das pesquisas.

Embora o formato e-Pub permita a adaptação de telas de acordo com o tipo de aparelho usado para visualização (tablet, celular ou e-book reader), os livros foram desenvolvidos com layout fixo, ou seja, não adotam esse recurso. Como se tratam de livros acadêmicos ou didáticos, o layout fixo é uma necessidade, a fim de que as páginas possam ser numeradas, permitindo que as obras sejam usadas como referência e citadas.

Por essas características, e por possibilitar a inclusão de arquivos de áudio, imagem ou vídeo, os e-Pubs são diferentes dos livros digitalizados e da publicação online de obras impressas. A Editora da Unicamp já possui, em seu catálogo, mais de cem títulos de livros digitais (formato PDF); estes, porém, não comportam os recursos tecnológicos adotados no formato e-Pub.

“A coleção Histori@ Illustrada foi planejada com o objetivo de colocar à disposição, como parte das obras, não só a reflexão do autor, mas também e decisivamente, aquilo que é objeto da sua reflexão. Assim será possível ter acesso a materiais de toda espécie que constituem um certo momento da história”, analisa Eduardo Guimarães.

Desse modo, o resultado final é muito mais interessante e dinâmico do que o obtido, por exemplo, ao se agregar um CD com músicas a um livro convencional, aprofunda Clementina. “Trabalhamos com história social da cultura e, num e-Pub, é possível dar o devido destaque à produção cultural que usamos nas pesquisas”, complementa a historiadora.

Ou seja, as fontes documentais, base da pesquisa histórica, passam a ser mais do que uma ilustração do texto; diferentemente, são trazidas para o centro do trabalho. “Muitas vezes, imagens e sons deixam de ser usados na redação de um livro por causa da impossibilidade de serem incorporadas a ele”, reforça Silvia Lara. “O e-Pub é uma ótima saída para divulgar a produção desta área específica”, defende.

Via de duas mãos

Não é só a experiência de leitura que se renova com os livros digitais. Também o pesquisador passa por um processo de aprendizado a fim de apresentar os resultados de seu trabalho nesse formato.

Desde que os pesquisadores do Cecult tiveram a ideia de criar a coleção, passaram-se mais de dois anos até que o primeiro volume fosse lançado.

As primeiras discussões ocorreram em 2014. No início do ano seguinte, a coleção Históri@ Illustrada já possuía um formato definido. O primeiro volume começou a ser produzido em março do mesmo ano.

“Foi um longo caminho de muito aprendizado”, relembra Silvia. O processo envolveu desde questões técnicas relacionadas à produção de um livro digital até a definição dos caminhos viáveis para apresentar uma pesquisa numa plataforma digital – especialmente no caso da área de história, em razão da possibilidade de trazer ao público documentos e fontes que, num livro convencional, permaneceriam desconhecidos do leitor.

Para Maria Clementina, este é um desafio que requer uma mudança da maneira de se relacionar com a própria pesquisa e com o público. “Ao ter acesso direto à fonte que deu origem à análise, o leitor pode tanto compreender melhor, quanto discordar do argumento apresentado”, explica.

Para as escolas

A fim de potencializar a difusão dos livros da coleção Históri@ Illustrada, particularmente entre professores e estudantes da educação básica, os volumes da coleção serão vendidos a preços acessíveis e acompanhados de um vídeo de acesso livre e gratuito, disponibilizado no Youtube e no site do Cecult, que apresenta alguns aspectos abordados na obra.

“O vídeo não é um trailer do livro. Ele enfoca um aspecto abordado na obra e é produzido para ser usado como material didático e em sala de aula”, contextualiza Silvia.

No caso da obra que inaugura a coleção, o vídeo “Sambas e Sambistas” conta a história dos primeiros sambistas, enfocando algumas de suas particularidades e diferenças.

O vídeo entrecruza as histórias pessoais de sambistas como Pixinguinha, João da Bahiana, Almirante e Ismael Silva, entre outros, com o cenário social, cultural e musical no qual viveram.

Desse modo, o vídeo funciona como material independente e complementar ao livro, passível de ser usado por professores em atividades didáticas ou em outros contextos de discussão sobre os temas em questão.

A produção dos dois primeiros volumes da coleção, incluindo os vídeos, foram viabilizados por um projeto de pesquisa, desenvolvido em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O segundo título a ser lançado, já em fase de produção, é o livro “Estilo moderno: humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre”, de Marcelo Balaban. O livro trata das relações entre humor, propaganda e literatura no Rio de Janeiro do início do século 20.

Os e-Pubs “Cafundó” e “Não tá sopa”, assim como os demais livros que integrarão a coleção Históri@ Illustrada, são comercializados no site da livraria Cultura.

Serviço:

Mesa-redonda de lançamento da coleção Históri@ Illustrada
Onde: Sala da Congregação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Data: 25/08/2016
Horário: 16h

Saiba mais:

Link para o vídeo no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=BCwgGyeRThI

Link para o site do Cecult:
http://www.cecult.ifch.unicamp.br/

 


 

‘Cupópia’ foi elo de etnias na escravidão

A “cupópia”, originária de línguas africanas e usada pelos moradores de Cafundó, foi usada para a comunicação entre diferentes etnias na época do Brasil escravocrata.

Essa foi uma das conclusões a que chegaram Carlos Vogt e Peter Fry ao identificarem, mediante um extenso levantamento realizado em várias partes do país que integrou a pesquisa, semelhanças da “cupópia” com vocabulários adotados nessas regiões – como, por exemplo, na cidade de Mauá (região do ABC paulista) e em Patrocínio de Minas.

A hipótese foi comprovada pela constatação de que a língua era usada por pessoas que moram nessas regiões, distantes entre si, e que elas nunca tiveram contato umas com as outras. Esse fato foi interpretado por Vogt e Fry como uma evidência de que a “cupópia” pode ter se disseminado no contexto da escravidão, desempenhando um papel importante na comunicação.

No entanto, no Brasil contemporâneo e no contexto de Cafundó, a “cupópia” funciona como um marcador de identidade. Ou seja, ela expressa uma identidade africana daquelas pessoas, que convive com outra identidade, a brasileira.

Título: Cafundó – Á Africa no Brasil
Autores: Carlos Vogt e Peter Fry
Páginas: 416  
Áreas de interesse: Linguística e Antropologia
Preço: R$ 48,00

 

 


 

Comportamento dá o tom das composições

No início do século 20, os sambistas tinham de dividir seu tempo entre música e trabalho: essencialmente, eram trabalhadores dotados de bom ouvido musical, habilidade rítmica ou facilidade com as rimas.

Essa constatação foi o ponto de partida do livro “Não tá sopa”, desenvolvido a partir de uma pesquisa individual de Maria Clementina realizada entre 2001 e 2005 e que integrava um Projeto Temático Fapesp sediado no Cecult.

O estudo mostra que, embora esses indivíduos enfrentassem dificuldades semelhantes, eles reagiam de maneiras diferentes frente a elas. Suas opções inscrevem-se nas trajetórias pessoais, nos sambas que assinaram e nas atitudes que tomavam em situações de conflito, inclusive envolvendo a polícia.

“Ouvindo esses sambas, percebia, sempre, uma tensão entre os músicos, que não se limita ao estilo de cantar, ao modo de produzir o samba: com improviso, sem improviso; uma base mais leve ou mais pesada”, comenta Maria Clementina.

“Existe também uma rivalidade evidente, muitas vezes na forma de xingamento: uns chamam os outros de ‘malandro’, ‘sem-vergonha’. Fui movida pela vontade de compreender de onde vem isso; resolvi parar para entender por que eles brigavam entre si”.

A primeira resposta, diz Clementina, é óbvia; eles disputavam o mercado. “Mas me parecia que era mais profundo do que isso, porque afinal eles gravavam juntos. A Casa Edison [uma das primeiras gravadoras brasileiras] era muito eclética”.

Outro aspecto investigado pela historiadora e associado às disputas entre os músicos é o envolvimento deles com a polícia. “Todos esses sambistas cultivavam de si mesmos uma imagem de vítimas da polícia. Uma imagem de que o samba era perseguido e que, nos anos 1930, finalmente conseguiu superar essa situação e se tornou a música nacional”, contextualiza a pesquisadora.

Assim, diferentemente da historiografia e da memória oficiais, que atribuem ao samba o status de “música nacional”, como se fosse único, a historiadora retraçou, por meio da análise de músicas e registros policiais, a trajetória desses sambistas.

“Por que os sambistas seriam mais perseguidos que os operários, os negros, os pobres?”, questiona a historiadora. “Resolvi buscar esses músicos não só na produção deles, falando mal um do outro, mas nesse lugar onde diziam que viviam, a polícia, para encontrar diferenças de padrão, de comportamento para saber por que eles eram perseguidos. Quando vão para a cadeia, por que vão?”

A análise dos registros policiais permitiu que Maria Clementina identificasse dois grupos, com diferenças no campo da musicalidade, mas também no comportamento.

Um deles, o grupo dos Sambistas Baianos do Rio de Janeiro (Donga, João da Bahiana, entre outros) era ligado aos terreiros de candomblé da Cidade Nova e a grupos que migraram da Bahia para o Rio no final do século 19. “Eles têm um padrão de comportamento de pessoas religiosas, vivem para construir os terreiros, contribuem com eles, praticam a devoção”.

Nos registros policiais, aparecem predominantemente como vítimas. No que diz respeito à música, relata Clementina, as composições são, geralmente, coletivas e quando um deles “se apropriava” de um samba e o gravava, tornava-se alvo de críticas por integrantes das rodas.

O outro grupo, o famoso grupo do Estácio - que deu origem à primeira escola de samba, a Deixa Falar e do qual participavam Ismael Silva, Bide, Marçal e Baiaco, entre outros – teve uma trajetória diferente na música e no envolvimento com a polícia.

“Eles entraram muito mais rapidamente nos castings das emissoras de rádio. Eram promovidos pelos grandes artistas do rádio. Vendiam seus sambas a intérpretes famosos, como Francisco Alves, e apareciam nas fotos ao lado deles”, explica a autora.

Também os registros policiais apontam para outro tipo de padrão, no que diz respeito ao envolvimento com a polícia, como por exemplo, a prostituição.

Desse modo, o foco do livro ultrapassa o gênero musical propriamente dito, recaindo sobre a vida cotidiana dos participantes e frequentadores das rodas de samba, num cenário em que o Rio de Janeiro mudava rapidamente.

Suas escolhas, disputas, valores compartilhados, relações entre esses indivíduos e a multidão de anônimos com que conviveram em bares, cafés, cortiços, terreiros e cadeias também são analisadas na pesquisa.

Título: Não tá sopa: Sambas e sambistas no Rio de Janeiro, de 1890 a 1930
Autora: Maria Clementina Pereira Cunha
Páginas: 257 páginas | Preço: R$ 14,00
Área de interesse: História
Coleção: Históri@ Illustrada