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Da ficção para a realidade

Publicado em 19 julho 2011

Por Luan Emílio

A maioria das pessoas já ouviu falar em inteligência artificial, tema já bastante explorado pela indústria cinematográfica e, recentemente, pela novela global "Morde e Assopra". Mas o que pouca gente sabe é que essa tecnologia está cada dia mais presente em nosso dia a dia e é utilizada por um segmento da ciência pouco conhecido pelas pessoas, chamado Sistemas Embarcados Críticos.

Mesmo sendo pouco familiar para o público em geral, esse segmento já é um velho conhecido dos cientistas, que estudam e desenvolvem pesquisas na área há mais de 30 anos. Para entender melhor o que são sistemas embarcados críticos é necessário, primeiramente, distinguir o que vem a ser um sistema embarcado para depois qualificá-los de críticos.

Os Sistemas Embarcados compreendem todo o processamento de dados computacionais e eletrônicos que fazem parte de um sistema maior, como por exemplo, o controle eletrônico das janelas de um automóvel. Já os críticos são sistemas embarcados que vão cumprir uma tarefa que pode por em risco a vida humana, como é o caso dos veículos autônomos, capazes de escavar grandes profundidades à procura de petróleo, ou ainda, de sobreviventes em tragédias.

Além dessas aplicações, os sistemas embarcados críticos podem ainda fazer parte de um robô que faz cirurgias em humanos, tarefa considerada crítica porque envolve o risco de morte para o paciente. Outra aplicação desse tipo de sistema é no controle automatizado de automóvel ou avião, porque se ele falhar pode causar acidente e, consequentemente, danos à vida humana.

Inteligência Artificial X Segurança

A questão da segurança é extremamente importante quando o assunto é sistema embarcado crítico exatamente porque pode representar, por um lado, grandes avanços para a sociedade e, por outro, a necessidade de garantir que esses equipamentos não sejam empregados em funções que coloquem em risco a vida das pessoas. Segundo o professor da PUC - RS, Fabiano Hessel, essa é a maior preocupação. "Não só um robô terrestre, seja ele humanóide, seja ele um carro, mas também os aviões não tripulados", destaca. Por isso a pergunta é: estamos muito longe desses filmes de ficção cientifica tornarem-se realidade? "Estamos longe, talvez não muito longe", completa Hessel. Afinal, o que não faltam nos cinemas são filmes catastróficos onde as máquinas se rebelam contra o homem que acaba se tornando refém daquilo que criou.

Existe um estudo realizado nos Estados Unidos no qual pesquisadores mostram que estão preocupados em evitar que uma pessoa, que não seja o dono do carro, tome o controle do veículo. "Porque hoje, o carro nada mais é do que uma rede de computador, já que ele possui essa abertura para bluetooth e outros tipos de comunicação sem fio, quem garante que alguém de fora não tome o controle do carro, feche as portas do carro ou corte a ignição?" revela Hessel.

Quando perguntado se os robôs ainda estão totalmente dependentes das pessoas para serem controlados, Hessel responde "não necessariamente".

Segundo o pesquisador, os robôs têm programas que os controlam, conhecidos pelo público em geral por Inteligência Artificial. "Esses programas são previamente definidos por algum humano para fazer determinados tipos de ações, então quando os robôs se deparam com algumas situações respondem de determinadas maneiras. Ou seja, a sua ação é delimitada em função do que o humano programou, logo ele tem uma autonomia limitada". O pesquisador aproveita também para acalmar os mais aflitos que pensam que os robôs vão tomar a Terra. "Calma! Ainda não chegamos a um estágio onde os robôs transitam entre nós disfarçados ou possuem total autonomia", conclui.

1º Congresso

Em maio deste ano, pesquisadores do Brasil, Estados Unidos, Itália, Cingapura e Portugal estiveram reunidos no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos - SP para a 1ª Conferência Brasileira de Sistemas Embarcados Críticos - CBSEC. O evento que integrou diferentes comunidades, domínios e áreas do conhecimento, teve como objetivo propor soluções aos problemas do país e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Hessel foi um dos coordenadores do evento e acredita que o evento foi um passo importante para que, nos próximos anos, a colaboração entre os pesquisadores e as empresas se consolide. "Não existia essa ligação entre academia e mercado antes e, muitas vezes, uma comunidade não sabia o que a outra estava fazendo e isso até dentro da própria academia, por isso devemos investir na troca de informações", finaliza.

Um robô solidário

Nada de atores consagrados, galãs de novelas ou mocinhas estonteantes, a nova sensação da TV é um robozinho que atua na novela "Morde e Assopra" e atende pelo nome de Zariguim. Ele fala, dança, interage e encanta a todos com sua aparência humanóide que dissemina simpatia por onde passa.

O andróide que na vida real recebe o nome de "Nao", foi desenvolvido pela empresa francesa Aldebaran Robotics em parceria com a pesquisadora Lola Cañamero, da Universidade de Heltfordshire daquele país e outros pesquisadores.

Aqui no Brasil, existem apenas 2 exemplares do robô Nao. Um deles se encontra no ICMC (Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação) da USP de São Carlos e outro, no Projac da Rede Globo.

Roseli Aparecida Francelim Romero que trabalha há mais de 10 anos na área de robótica e, atualmente, é coordenadora do Laboratório de Aprendizagem de Robôs do ICMC, conta que o interesse em adquirir o Nao surgiu da necessidade de ampliar os projetos desenvolvidos nas áreas de robótica social, cooperativa e móvel.

Hoje, o Nao fala inglês e francês. Em breve, terá um software desenvolvido para que possa falar também o português, já que o foco dos pesquisadores da USP é fazer com que o robô seja capaz de reconhecer gestos e expressões dos seres humanos, para ser utilizado em projetos sociais. "Existe um projeto de levar o Nao para a Santa Casa de São Carlos, a fim de animar e entreter as crianças que estão em tratamento de câncer, mas para tanto precisaríamos de mais robôs e investimento", revela Roseli. Para se ter uma noção desse "investimento", o robô custa 12 mil euros, o que equivale a 30 mil reais. A compra desse primeiro robô foi financiada pela FAPESP (Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo).