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Informe MS

Da escola para Cannes

Publicado em 18 maio 2009

Seu trabalho de conclusão de curso é o filme Espalhadas pelo ar. Com ele, a cineasta Vera Egito não conseguiu apenas se formar na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). A diretora de 25 anos conquistou os críticos franceses e se tornou um dos grandes destaques da mais antiga mostra paralela do Festival de Cannes, a “Semana da Crítica”.

O “jovem talento promissor”, como foi apresentada no festival, recebeu convite tanto para abrir como para encerrar a mostra, que se iniciou com seu primeiro curta-metragem, Elo, e se encerrará com Espalhadas pelo ar.

O trabalho de conclusão de curso, orientado pela professora Vânia Debs, do Curso Superior de Audiovisual da ECA, foi escolhido para a exibição depois de conquistar o prêmio da crítica do Festival de Filmes de Escolas Henry Langlois, também na França.

Além da graduação na ECA, Vera também estudou cinema na Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, em Cuba. A cineasta foi assistente de direção do filme O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia, e contribuiu para o roteiro do filme À deriva, do mesmo diretor, que será exibido na mostra “Um certo olhar”, também em Cannes.

De acordo com Esther Hamburger, chefe do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA, raramente um filme produzido na graduação ganha uma projeção de tais dimensões no mais importante festival de cinema do mundo.

“Na escola está o período no qual mais se pode experimentar. A conquista de Vera é muito importante também por mostrar que um trabalho de conclusão de curso pode ter toda essa projeção se tiver qualidade. Ao mesmo tempo, indica que a escola pode contribuir com um olhar diferente em um momento no qual as linguagens estão tão esgotadas”, disse à Agência Fapesp.

Segundo a professora, a mostra, organizada desde 1962 pelo Sindicato Francês dos Críticos de Cinema, tem uma curadoria específica conhecida por seu rigor na seleção dos filmes. A “Semana da Crítica” é focada no segmento de jovens talentos promissores.

“A exibição em Cannes corresponde à premiação conquistada pelo filme de Vera, que, por isso, será exibido fora da competição. Mas os críticos gostaram muito do filme novo também e a convidaram para abrir e encerrar a mostra”, explicou.

Esther conta que os dois filmes têm elementos comuns em seu estilo. “Ambos são muito delicados em todos os sentidos, com um estilo muito complexo. Têm uma decupagem fragmentada, revelando partes do corpo que não se espera ver. São filmes de poucos personagens, em certo sentido intimistas. Não são filmes fortes no sentido de narrativas com histórias cheias de viradas, mas transmitem sensações profundas.”

Ela destaca ainda que ambos os filmes têm temáticas femininas. O primeiro, Elo, trata simultaneamente da sensação de perda relacionada a um casamento e da relação entre mãe e filha. “Podemos dizer que o filme é uma homenagem à cantora Elis Regina. É a história da sensação de uma garota ao desfazer uma relação. Mas a sensação da perda é inspirada em uma experiência dolorosa contada à diretora por sua mãe: o sentimento provocado pela notícia da morte da cantora”, disse.

Espalhadas pelo ar conta a relação entre uma menina de 14 anos, que está vivenciando seu primeiro amor, e sua vizinha, de 30 anos, que percebe que seu casamento chegou ao fim. Um grupo de garotas se esconde na escadaria de um prédio para fumar cigarros. Elas se despem para evitar que o cheiro da fumaça fique impregnado na roupa. A vizinha mais velha, ao encontrá-las, reencontra o caminho para sua liberdade.

“É a relação de uma moça e uma adolescente em torno da fumaça e da fantasia. Os dois filmes falam sobre jovens mulheres e sua busca pelo amor e pela liberdade e demonstram grande sensibilidade da diretora. Ambos têm uma preocupação singular com a cor: Elo é cheio de tonalidades azuis, enquanto Espalhadas pelo ar tem luzes amareladas e esverdeadas. São filmes muito pensados em sua mise-en-scène e elaborados no roteiro”, disse Esther.