Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Da cana para o café guaraná, pupunha, caju...

Publicado em 16 outubro 2003

A descoberta da canacistatina é resultado direto do projeto de Seqüenciamento do código genético da cana-de-açúcar, conhecido como Projeto Genoma Cana, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O geneticista Flávio Henrique da Silva e sua aluna de doutorado Andréa Soares da Costa integravam uma das 70 equipes de pesquisadores que trabalharam na análise dos genes da cana. Eles chegaram à canacistatina comparando genes de cana e de outras plantas que participam de mecanismos de defesa contra fungos. SUCESSO Inicialmente, Silva e Andréa testaram a proteína contra uma espécie inofensiva de fungo, o Trichoderma reesei, empregado industrialmente por produzir enzimas utilizadas na fabricação de tecidos e papel. O T. reesi foi escolhido por ter sido o organismo adotado nos testes de outra molécula desse gênero, descrita há dois anos: a orizacistatina I, encontrada no arroz (Oryzpsativa). Desde o início a proteína da cana exibiu uma estrutura semelhante à do arroz, aplicada experimentalmente contra o besouro Hypera postiça, que ataca a alfafa (Medicago sativa) - era uma indicação de que as atividades também seriam semelhantes. De fato, a canacistatina funcionou contra o Trichoderma. Em seguida, a equipe de São Carlos verificou que a proteína atua ainda contra os dois gêneros de fungos mais comuns em cana, o Fusarium e o Colletotrichum, encontrados também no café. FORMIGAS Outros experimentos, realizados em conjunto com José Odair Pereira, da Fundação Universidade do Amazonas, evidenciaram o mesmo efeito contra fungos Colletotrichum que também atacam a pupunha (Bactris gasipaes), o guaraná e o caju; plantas típicas das regiões Norte e Nordeste. Um dos próximos objetivos do grupo é testar a canacistatina na eliminação dos fungos mantidos no fundo dos formigueiros, que servem de alimento às formigas operárias. Esse trabalho está sendo feito em parceria com pesquisadores da Unesp - Universidade Estadual Paulista de Rio Claro (SP). Estima-se que a agricultura brasileira consuma cerca de 25 mil toneladas-ano de formicidas químicos. O problema é que eles agem sobre qualquer inseto, além de serem danosos ao meio ambiente e à saúde. Fora isso, muitas vezes o uso indiscriminado de inseticidas, além de contaminar a natureza, promove a fragmentação das colônias, aumentando o nível de infestação. Para se ter uma idéia do estrago que as saúvas podem causar a uma cultura, um único formigueiro adulto, por exemplo, com cerca de seis anos de idade, pode abranger uma área de 100 m2 e sete metros de profundidade, e consome aproximadamente uma tonelada de matéria fresca por ano. NA SAÚDE HUMANA Na pesquisa aplicada à saúde humana, a equipe da UFSCar e o grupo de Adriana Carmona, da Unifesp (Universidade Federal de São Pauto), demonstraram que a canacistina inibe a ação de Catepsinas lisossomais, que além do seu papel fisiológico normal, integram os processos biológicos que originam problemas como osreoporose (foto), câncer, distrofia muscular ou doenças do coração. "Essa descoberta pode ter uma enorme aplicação na medicina", diz Odair Pereira. Alem disso, estuda-se também a criação de novas drogas para a artrite reumatoide (que afeta 50 milhões de pessoas no mundo) e mal da Atzneimer (doença que acomete, globalmente, de 17 a 25 milhões de indivíduos).