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Cyberbullying é tema de pesquisa na UFSCar

Publicado em 17 junho 2016

As relações entre professores e alunos estão se modificando radicalmente em tempos da chamada cultura digital. Esse é o foco da pesquisa do professor Antônio Álvaro Soares Zuin, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Algumas dessas modificações podem ser observadas na forma como os alunos utilizam as redes sociais para postar imagens e comentários humilhantes sobre seus professores de forma inédita”, conta Zuin.

Com o título “Cyberbullying contra Professores no Brasil”: o YouTube e os tabus a respeito da profissão de ensinar”, o pesquisador pretende compreender os motivos pelos quais os alunos cometem o cyberbullying (assédio virtual) – prática que envolve o uso de tecnologias de informação e comunicação para dar apoio a comportamentos deliberados, repetidos e hostis praticados por um indivíduo ou grupo com a intenção de prejudicar o outro. Além disso, a pesquisa também tem o propósito de que sejam elaboradas políticas educacionais relevantes para o combate deste tipo de violência.

Zuin diz que pesquisas como essas são importantes, sobretudo pelo fato de que se pode investigar as formas como as denominadas violências online dos alunos contra professores estão sendo realizadas por meio do uso incessante das redes sociais, de tal modo que se possa refletir sobre a elaboração de práticas de combate a este tipo de cyberbullying. “Faz-se cada vez mais necessária a discussão sobre os aspectos éticos, sociais e culturais relacionados ao uso incessante das redes sociais, inclusive sobre as atuais práticas de violências online que os alunos cometem contra seus professores”.

Para a pesquisa foram selecionados e analisados imagens e comentários humilhantes de alunos dos ensinos Médio e Superior sobre seus professores, principalmente os que são postados no YouTube. No caso do cyberbullying realizado por meio de vídeos e comentários postados por alunos contra seus professores, Zuin notou que há uma hegemonia de uma espécie de ausência de limites em comparação com as práticas presenciais de bullying. “Ou seja, as práticas de cyberbullying contra professores tendem a ser muito mais humilhantes e degradantes do que as cometidas presencialmente. Em alguns casos, inclusive a violência física cometida por um aluno contra um professor tende a ser propositalmente intensificada com a intenção de que tais imagens sejam postadas na internet e vençam a luta titânica que estabelecem com outras imagens, uma vez que conquistam a atenção do internauta justamente em função da intensidade da violência que exibem”, relata Zuin.

O pesquisador comenta que é interessante destacar o aumento de práticas de cyberbullying de alunos contra professores vinculado ao acesso contínuo a aparelhos eletrônicos. “Certamente há uma relação com a expansão das redes sociais e, principalmente, com o inacreditável aumento do número de aparelhos celulares”. Ele acredita que muitos cyberbullies se sentem protegidos pela tela do computador. “Mas sabemos que os IPs (Internet protocol) de tais aparelhos podem ser rastreados e seus donos identificados. Parece-me que o fato mais importante para que possamos compreender tal recrudescimento de casos refere-se ao prazer sado-narcísico que o cyberbully usufrui ao conferir continuamente os números de acessos e comentários de seus vídeos postados”.

Sobre o que fazer para conter esse tipo de comportamento, Zuin diz que, para além de tais práticas punitivas, os professores, pais e gestores educacionais deveriam dialogar cada vez mais entre si, de tal modo que fossem desenvolvidas políticas educacionais de combate ao cyberbullying contra professores dentro e fora das escolas. “É preciso que sejam realizados debates, palestras e discussões sobre as práticas de cyberbullying inclusive nas disciplinas que compõem as estruturas curriculares dos ensinos médio e universitário”.

Um exemplo da prática de cyberbullying pode ser verificada em 2013 por meio de um vídeo que viralizou no Facebook e no YouTube, com mais de 112 mil visualizações, feito por um estudante da escola de Duncanville, nos EUA, que mostra o aluno Jeff Bliss dando uma “lição de moral” na professora. Ele reclama com ela de forma agressiva que a maneira como ela ensina deveria mudar. Filho de professora, Jeff diz em entrevista para o jornal News ABC que não se arrependeu da maneira como falou com ela. A direção da escola diz que propor novas maneiras de ensino em sala de aula é sempre visto de maneira positiva, mas não concorda com a forma com que o aluno tratou sua professora. Por nota, disseram que o aluno seria chamado para prestar esclarecimentos na direção e poderia ser punido pelo tratamento.

Parceria internacional

O projeto “Cyberbullying contra Professores no Brasil: o YouTube e os tabus a respeito da profissão de ensinar” pode ser caracterizado com um dos desdobramentos da pesquisa “A internet e a imagem do professor: intervenções de estudantes brasileiros e ingleses sobre a autoridade pedagógica em tempos de cultura digital”, que ocorreu em York, Inglaterra, mediante convênio entre grupos de pesquisa da UFSCar e da Universidade de York, sob coordenação de Zuin e do professor Chris Kyriacou, da referida universidade inglesa, com a participação de alunos de ambas as instituições.

Esse intercâmbio foi financiado com recursos obtidos junto à Fapesp, por meio do programa Bolsa Pesquisa no Exterior (BPE), e à Capes pelo programa Estágio Sênior no exterior. A parceria ocorreu no período de janeiro de 2014 a março de 2015. “Nesta ocasião, pesquisamos como estudantes brasileiros e ingleses praticavam cyberbullying contra seus professores, principalmente por meio da postagem de vídeos no YouTube, cujas imagens foram registradas nas escolas ou em seus arredores”, explica Zuin.

O professor conta que puderam constatar, nesta pesquisa realizada em parceria, o recrudescimento dos casos de cyberbullying contra professores feitos por alunos brasileiros e ingleses. “No caso específico do YouTube, a quantidade de vídeos postados por estudantes brasileiros foi maior do que a postada por alunos ingleses, talvez em decorrência do fato de que há mais rigidez no controle da presença dos aparelhos celulares nas escolas inglesas do que no caso das escolas brasileiras. Por outro lado, há várias fanpages do Facebook elaboradas por alunos ingleses com comentários humilhantes e degradantes em relação a seus professores”, relata Zuin.