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Cutrale dá alternativa ao governo e Embraer

Publicado em 20 julho 2000

A Cutrale, indústria de suco de laranja, com sede em Araraquara, ofereceu três alternativas de área localizadas em Gavião Peixoto, para a instalação da sede da Embraer na cidade, para não ter sua propriedade produtora de citros desapropriada como quer o governo do estado. A proposta sobre as três áreas foi encaminhada à Secretaria de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Estado por representantes da empresa. Segundo o diretor jurídico da Cutrale, Mário Queiroz, a empresa está se dispondo até a comprar a área total de 650 alqueires e doá-la ao Estado ou à Embraer, para não ter desapropriados os cerca de 200 alqueires que possui com cerca de 400 mil pés de laranjas. A área da Cutrale, juntamente com outras três propriedades na região, produtoras de laranja e de cana, foram identificadas pela secretaria como sendo ideal para a instalação do Pólo Espacial que o governo projetou e que estaria recebendo inicialmente a fábrica da Embraer e uma pista de pouso que será usada para teste. Segundo Queiroz, as áreas oferecidas ao governo do estado pos-, suem as mesmas condições topo-: gráficas, com a vantagem de estarem ocupadas hoje por cana-de-açúcar. "É uma cultura que se renova todo ano e não há a necessidade de mexer com uma cultura perene", explicou. Uma das três áreas propostas pela Cutrale já havia sido oferecida anteriormente para a construção de unidade da Mercedes-Benz. Um outro empecilho apontado para a desapropriação, foi a existência de quatro córregos na área a ser desapropriada que abastecem não somente a propriedade da Cutrale, mas outras áreas agrícolas da região. "Produtores rurais que se sentirem lesados no uso da água com a construção da empresa, poderão reclamar ao Estado, por via judicial", comentou. Os quatro córregos são responsáveis por abastecer o Rio Jacareí-Açú, que corta a região e fornece para municípios próximos. Valores - Segundo consultores econômicos e fontes ligadas ao setor, o maior empecilho para a desapropriação da área da Cutrale, realmente parece ser quanto ao valor que teria que ser pago a empresa, proprietária de um terço da área total, desejada pela Secretaria de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Estado. Segundo avaliações feitas por consultores econômicos ligados ao setor citrícola, o volume a ser pago para a Cutrale teria que considerar não somente o preço do alqueire na região, um dos mais altos do estado, mas também o valor das árvores e a produção que deixaria de ser colhida nos próximos três ou quatro anos, o que resulta num total aproximado de R$ 25 milhões. Mas, segundo a própria Secretaria informou durante a assinatura do protocolo de intenções para a instalação da Embraer em Gavião Peixoto, dia 28 de junho, o governo está disposto a gastar R$ 27 milhões com a desapropriação total da área, mais a construção de estradas vicinais, duplicação de rodovias e infra-estrutura para a obra. Outros US$ 60 milhões, segundo anunciou o governador Mário Covas na mesma solenidade, estariam sendo disponibilizados pelo governo para a Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp) para financiar projeto de pesquisa. Além da Embraer, o governo convidou outras 14 empresas do setor para se instalar na região e formar o Pólo Aeroespacial. A Embraer também prevê o investimento de mais US$ 60 milhões em pesquisas, além de investimentos iniciais na fábrica de US$ 150 milhões, que devem gerar cerca de três mil empregos em cinco anos. A secretária-adjunta da Ciência e Tecnologia do Estado, Betty Abramowicz, informou que as propostas apresentadas pela Cutrale foram encaminhadas à Embraer para uma avaliação técnica. A secretária considerou que a empresa já havia feito estudo detalhado na região e disse "achar difícil" que as áreas cogitadas pela Cutrale não tenham sido verificadas minuciosamente. A liberdade de espaço aéreo (sem rotas comerciais) e a topografia plana, foram as principais vantagens vistas pelos técnicos para a escolha do terreno, segundo a secretária. Além disso, ela comentou que a terceira vantagem, também oferecida pelas outras áreas, é a proximidade com São Carlos, que possui mão-de-obra especializada, principalmente com a existência do curso de aeronáutica, oferecido pela USP. A secretária afirmou, no entanto, que apesar da disposição em analisar as áreas, o governo pretende fazer a desapropriação judicial, caso não haja acordo amigável. Riscos - A desapropriação da área em Gavião Peixoto para a instalação da Embraer, já havia despertado a preocupação do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), que chegou a encomendar estudo aos seus técnicos sobre os eventuais riscos que o remeximento de terras na região, com a erradicação dos pomares, poderia oferecer para as plantas existentes ao redor daquela área. Segundo Ademerval Garcia, presidente do Fundecitrus, a área pertencente hoje à Cutrale, considerada uma das mais produtivas do Estado, já registrou focos de cancro no passado e teve seus pomares erradicados e refeitos, sem o retorno da doença nos últimos três anos. O presidente informou que em nenhuma outra área em que foi registrado cancro cítrico anteriormente foi realizado tamanho "remeximento" da terra, o que poderia fazer com que o foco da doença reaparecesse, colocando em risco as demais 10 milhões de árvores que existem nas proximidades. O estudo do Fundecitrus deve estar concluído em agosto e pode até mesmo apresentar a sugestão de construção de um cinturão ao redor da obra da Embraer para proteger as demais plantas sadias. (Kelly Lima)