Notícia

Jornal da USP

Cura do câncer começa pela informação

Publicado em 16 outubro 2000

O pior do câncer é a desinformação sobre ele. Quando diagnosticada é tratada rapidamente, a doença tem altos índices de cura, dependendo da natureza do tumor. Ma terceira reportagem sobre os laboratórios selecionados pela Fapesp para receber recursos específicos todos os anos, o Jornal da USP apresenta o trabalho do Centro Antonio Prudente de Pesquisa e Tratamento do Câncer, que mantém o Hospital de Câncer e o Instituto Ludwig de pesquisa sobre o Câncer. O instituto é responsável pelo Projeto Genoma Câncer que conseguiu destaque internacional. A pesquisa, a educação da sociedade e a permuta de conhecimentos com instituições que trabalham na mesma área são os objetivos desse centro. Na USP, uma frente de lula contra o câncer, especialmente o infantil, esta no Instituto da Criança ligado à faculdade de Medicina. Merece destaque a atuação firme e carinhosa de uma associação que reúne voluntárias e mães de crianças doentes. "Choramos do lado esquerdo e sorrimos do lado direito" diz uma das diretoras da entidade. A LUTA COMEÇA PELA INFORMAÇÃO Pedagoga de formação, o sonho secreto de Magda Egleé Amberlini Joyce, de 65 anos, é a cura do câncer. "Batalho muito para fazer desse ideal uma realidade", diz com voz embargada. Pelo menos três vezes por semana, ela sai de casa, no bairro do Brooklin, zona sul da cidade e se dirige ao seu local de trabalho na região central. O trajeto - feito de carro, ônibus ou Metro - vem sendo percorrido há 20 anos, época de sua aposentadoria. Em certos dias, vestida com calça, camiseta e sapatos (por vezes ténis) brancos, Magda coloca, orgulhosa, sua flor, metida da lapela do avental cor-de-rosa, símbolo de seu ofício. Depois, assina o caderno de presença e segue, confiante, pelos corredores do hospital, nas suas idas e vindas de quarto em quarto de pacientes. "É um trabalho muito valioso e por isso sinto-me recompensada." Magda Joyce é uma das participantes que integram a Rede Feminina de Combate ao Câncer Carmen Prudente da Fundação Antonio Prudente do Hospital do Câncer A. C. Camargo. A equipe é formada por 350 voluntárias responsáveis por apoiar o paciente com câncer e humanizar seu tratamento, tornando sua internação mais amena e alegre. Intensificar a atuação desse trabalho singelo tem sido uma das principais propostas do Centro Antonio Prudente de Pesquisa e Tratamento do Câncer, um Cepid constituído por dois institutos com longa tradição de estudo e tratamento da doença - o próprio Hospital do Câncer e o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer. Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que está destinando anualmente R$ 2,2 milhões, o centro pretende utilizar as informações geradas pelo Projeto Genoma Câncer para avançar na identificação de novos genes, buscar novas formas de diagnóstico e tratamento, além de desenvolver novas drogas. "O hospital tem sido o principal fornecedor de tumores para esse projeto", afirma o presidente da diretoria executiva do hospital Ricardo Renzo Brentani, coordenador do Cepid. "Proporcionamos amostras de tumor perfeitamente caracterizadas", diz. "São espécimes oriundos de pacientes que têm uma história clínica bem documentada." As mudanças que vêm ocorrendo na distribuição demográfica no Estado de São Paulo e o limitado avanço em relação à prevenção e terapia de tumores malignos indicam que, nas próximas décadas, o câncer será fator de grande impacto na saúde pública. Para enfrentar essa situação, a idéia dos pesquisadores do centro é desenvolver formas de combater o mal a partir de uma abordagem multidisciplinar e integrada, em que a pesquisa seja a principal componente. A prevenção, o diagnóstico e o tratamento serão focos para as três principais áreas de atuação: a pesquisa, a educação e a transferência do conhecimento científico. DOENÇA DA DESINFORMAÇÃO "O câncer antes de mais nada é uma doença da desinformação", revela Brentani. "De maneira geral, a sociedade não sabe que o câncer tem cura e demora para procurar o médico." Por essa razão, o diagnóstico precoce é a chave do sucesso. "É importante que a sociedade perceba que a ciência brasileira pode contribuir para o progresso social", informa. "O grande passo da última década é que se aprendeu que a pessoa portadora de câncer é um ser inteiro e não um tumor com rodinhas, por isso todo tratamento de suporte básico que se faz hoje não existia há 10 anos." O hospital tem uma marca de cura de 60% e índice de mortalidade na UTI de apenas 13%. No ano passado realizou 370 mil atendimentos. "E só não é maior porque o paciente procura o tratamento quando a doença já está bastante desenvolvida", enfatiza Brentani, ressaltando que mais da metade dos pacientes chega ao hospital após ter sido vista por um outro médico que não resolveu o problema. "Uma parte significativa vem muito tarde e por isso, só avançaremos com os benefícios da pesquisa básica se conseguirmos tratar pacientes com doença primária", diz. "A falta de informação aumenta a mortalidade e os custos para o Estado." "Estamos desenvolvendo um estudo sobre o câncer de tireóide porque o diagnóstico desse tipo de doença feito através da técnica chamada biópsia por agulha fina implica uma fração relativamente grande de incerteza com relação aos resultados", argumenta Brentani. "O problema reside no fato de que a conduta no mundo inteiro remove a tireóide e em 40% dos casos em que isso ocorre não se trata de câncer." Para tanto foi formado um grupo colaborativo que envolve quatro hospitais de São Paulo e quatro de outros Estados, além do Instituto Nacional do Câncer em Lima, no Peru. "Na capital peruana existe uma espécie de tumor de tireóide bem freqüente que é rara no Brasil; vamos trocar informações e descobrir mais sobre o assunto", diz. "A meta é alcançar a marca de 500 amostras de câncer de tireóide em um ano para poder definir um biochipe que possa validar o diagnóstico por agulha fina." TUMORES HEREDITÁRIOS Outro foco de trabalho do centro será o de mostrar que a prevenção da doença pode ser eficaz. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que pelo menos 75% dos tumores têm causas conhecidas: 35% decorrem do consumo de cigarros, 15% do uso de álcool, 10% são causados* por vírus, como a hepatite ou o papiloma, e 15% são hereditários, principalmente os de mama e intestino. De acordo com Brentani, já existem metodologias de laboratório para avaliar os riscos de hereditariedade. "Com as novas metodologias que vamos implantar será possível acelerar e baratear o diagnóstico de mutações em genes críticos para tumores hereditários", revela. "Isso vai nos permitir disponibilizar os exames para a população carente." Segundo o diretor, a idéia é realizar uma ampla campanha com a população, por meio de vídeos e CDs, para informar sobre as situações de risco. "Ao longo dos anos realizamos uma série de experiências isoladas, promovendo cursos para professores da rede pública com a intenção de difundir as informações sobre a doença", explica Brentani. "Agora, será possível informar a população de que não adianta fugir do diagnóstico porque isso só reduz suas chances de cura, que são grandes com a identificação precoce do câncer." O centro pretende ainda ampliar os cursos de pós-graduação, doutorado e de especialização no diagnóstico e tratamento da doença. "Nas 90 escolas médicas existentes no País, não mais que 20 ensinam cancerologia na graduação", constata o médico. "Não há dúvidas de que as informações que serão obtidas com a análise do genoma humano vão suscitar uma série de questões que devem ter respostas - em políticas públicas adequadas." UM EXÉRCITO DE VOLUNTÁRIAS Elas realizam um trabalho junto aos pacientes e acompanhantes que diariamente procuram o hospital e passam algumas horas por consultas, radioterapia, quimioterapia e exames diversos. Essa atividade consiste em orientá-los sobre os diversos locais de atendimento, servir chás e bolachas a fim de ajudá-los a passar essas horas de uma maneira mais humana e carinhosa. Sua imagem portando avental rosa enfeitado com uma flor já é bem familiar entre os pacientes. Também pudera. A Rede Feminina de Combate ao Câncer Carmen Prudente da Fundação Antonio Prudente do Hospital do Câncer A. C. Camargo foi fundada em 1946. São 350 voluntárias que, com muito empenho e dedicação, auxiliam todos os dias os pacientes portadores do mal. A tarefa não é nada fácil. A presença delas por todos os setores do hospital consiste no apoio e na humanização do tratamento da doença. Sob a presidência de Liana Maria Carraro de Moraes, o grupo de voluntárias da rede, entre outras ações, oferece auxílio ao setor assistencial do hospital por meio do fornecimento de roupas, muletas e produtos de higiene pessoal, distribuídos de acordo com a necessidade do paciente carente. Além disso, o voluntariado do setor de costura realiza um trabalho de apoio ao setor de lavanderia, consturando lençóis e reformando aventais médicos. As voluntárias dividem-se de segunda a sexta-feira em vários setores de atuação. A maioria trabalha uma vez por semana, mas há quem marque presença até três vezes mais. Os horários também variam de acordo com a disponibilidade de cada voluntária. "Um dos pontos fortes é que a rede opera, hoje, com a organização de cursos dirigidos à comunidade em geral", observa o médico Ricardo Renzo Brentani, presidente da diretoria executiva do hospital. "São realizados seis vezes ao ano e contam com a presença de 200 participantes em média." Através da Rede Feminina, o hospital fornece serviço a pacientes que estejam impossibilitados de falar após a cirurgia, através de um baralho com sinais de comunicação visual. A técnica facilita o contato dessas pessoas com médicos e também familiares. Outra iniciativa é o Tele-Can (tel. 3272-5073), um serviço bastante solicitado que esclarece o público externo sobre como prevenir, diagnosticar e tratar os diversos tipos de câncer. Para se ter uma idéia do ritmo com que essa gente trabalha, somente no ano passado foram atendidas cerca de ó mil chamadas.