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Culturas láticas podem aumentar taxa de cura em infecções

Publicado em 08 outubro 2009

Por Júlio Bernardes

Pesquisa realizada pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP mostra que culturas láticas probióticas em associação com medicamentos antimicrobianos tradicionais podem aumentar a taxa de cura de infecções vaginais. A combinação, testada em pacientes com candidíase vulvovaginal (CVV) e vaginose bacteriana (VB), apresenta potencial para ser utilizada no tratamento clínico dessas patologias.

A escolha das linhagens de microrganismos probióiticos L. rhamnosus GR-1 e L. reuteri RC-14 para serem empregadas no estudo foi baseada no fato delas serem, até o momento, as mais promissoras na restauração e manutenção de uma microbiota vaginal saudável, explica o farmacêutico-bioquímico Rafael Chacon Ruiz Martinez, que fez a pesquisa. O trabalho foi orientado pela professora Elaine Cristina Pereira de Martinis, no programa de doutorado em Biociências Aplicadas à Farmácia na FCFRP. Os estudos tiveram colaboração de quatro centros de atendimento à saúde ligados à USP em Ribeirão Preto (interior de São Paulo) e parceria com a University of West Ontario (UWO), no Canadá.

Participaram dos testes clínicos 64 pacientes diagnosticadas com VB e 68 com CVV, além de um grupo de 64 pacientes saudáveis que serviu como controle. As pacientes diagnosticadas com CVV, através de determinações clínico-laboratoriais, receberam dose única do antifúngico fluconazol (150mg) e suplementação diária aleatória com duas cápsulas para uso oral com probióticos ou duas cápsulas de placebo - preparação neutra sem efeito farmacológico -, durante quatro semanas. O procedimento clínico também foi realizado entre as mulheres com diagnóstico de VB, que receberam dose única do antibiótico tinidazol (2g) e suplementação aleatória com duas cápsulas com os microrganismos ou placebo, pelo mesmo período.

Ao final do tratamento foi observado aumento da taxa de cura nos dois grupos de pacientes avaliados com a suplementação dos probióticos. No caso das pacientes acometidas com CVV, o tratamento com agente antifúngico e placebo registrou 65,4% de taxa de cura, enquanto que na associação com as cápsulas do probiótico a taxa determinada foi de 89,7%, aponta o pesquisador. Da mesma forma, entre as pacientes com VB, a combinação com probióticos elevou a taxa de cura para 87,5%, enquanto entre as pacientes tratadas com tinidazol e placebo esta foi estimada em 50%.

Tratamento

De acordo com Martinez, os resultados da pesquisa são promissores, mas devem ser avaliados com cautela, pois o trabalho envolveu um número relativamente pequeno de pacientes. Além disso, foram excluídas mulheres grávidas, imunossuprimidas, diabéticas e que utilizaram antimicrobianos sistêmicos ou intravaginais 14 dias antes da consulta ginecológica, ressalta.

O pesquisador também relata que uma parcela muito pequena das pacientes avaliadas nos testes clínicos exibiu como efeitos adversos, aumento do apetite, ocorrência de fezes líquidas ou episódios de dor de cabeça persistentes. Porém, os sintomas não puderam ser definitivamente associados com a utilização dos microrganismos probióticos ou dos agentes antimicrobianos testados, afirma. Serão necessários mais estudos para a compreensão dos exatos mecanismos de ação envolvidos no sucesso terapêutico obtido com a combinação entre agentes antimicrobianos e probióticos.

Os testes clínicos da pesquisa foram realizados no Brasil, enquanto as análises moleculares das amostras clínicas obtidas das pacientes também aconteceram no Canadá, durante estágio, viabilizado por bolsa concedida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Os estudos contaram com a colaboração do Professor Gregor Reid, da UWO, que desde a década de 1980 estuda o emprego de microrganismos probióticos na microbiota vaginal, em parceria com o professor Andrew Bruce, também da UWO.

O projeto teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Também colaboraram na pesquisa os Professores Regina Celia Candido (FCFRP), Álvaro Cantini Nunes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Kelly Summers (UWO), além dos médicos responsáveis pelo atendimento e colheita de materiais clínicos das pacientes avaliadas, Sílvio Antônio Franceschini, Maristela Carbol Patta e Silvana Maria Quintana. Os resultados advindos do trabalho foram publicados em quatro artigos em periódicos internacionais.

Agência USP