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Cultura de risco

Publicado em 28 outubro 2008

Por Rosangela Capozoli, do Valor Econômico

Brasil investe em tecnologia pra elaborar políticas que reduzam os impactos do clima na economia

O Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) abriu licitação internacional para a compra de um sistema de supercomputação que custará R$ 50 milhões e colocará o país entre os seis maiores centros mundiais de previsão de tempo e clima e de modelagem de mudanças climáticas globais.

A questão do clima e suas conseqüências para a economia está no topo da agenda corporativa e será debatida hoje, no seminário "Mudanças Climáticas, Agricultura- Cenários e Soluções", promovido pelo Valor, em São Paulo.

Nunca na história da pesquisa brasileira se investiu tanto dinheiro na aquisição de equipamentos e custeio de estudos. O supercomputador - que irá gerar cenários futuros para apoiar pesquisas de impactos e vulnerabilidade -, tem o objetivo de subsidiar a elaboração de políticas públicas sobre adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Agricultura, recursos hídricos e questões ambientais serão as três prioridades.

O supercomputador, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é composto por três partes: o sistema de computação, o sistema de armazenagem para o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) e a rede de comunicações de propósito geral. A empresa vencedora da licitação irá fornecer esses três componentes, incluindo sua instalação, treinamento de pessoal e documentação.

Os recursos serão financiados pelo MCT, através da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que investem R$ 35 milhões e R$ 15 milhões, respectivamente. A Fundação de Ciência e Tecnologia Espaciais (Funcate) é responsável pela administração do projeto e aquisição do sistema.

"Há cinco anos os investimentos em pesquisas e tecnologia não chegavam a R$ 1 milhão por ano", informa Pedro da Silva Leite, diretor do Laboratório de Computação Científica (LNCC) e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Até agora, explica Silva Leite, os cenários regionais de mudanças climáticas deixam a desejar por serem realizados com "modelos globais que não especificam as peculiaridades regionais do país. Após a instalação do novo sistema teremos cenários climáticos muito mais realistas. Será um produto de melhor qualidade e de melhor representação da nossa realidade", afirma.

Pelos seus cálculos, os resultados estarão disponíveis no prazo de três a quatro anos. "Há uma proposta para que os dados sejam utilizados já no próximo IPCC que ocorrerá em 2012", acrescenta.

A expectativa é que o aporte conjunto de recursos do MCT e da Fapesp permita que o Brasil abrigue um dos seis maiores centros mundiais de previsão numérica de tempo e clima e de modelagem de mudanças climáticas globais.

A capacidade de processamento do novo supercomputador será 50 vezes maior do que o Inpe dispõe hoje, o que permitirá a elaboração de cenários de mudanças climáticas globais de alta resolução espacial para os próximos séculos e projeções sobre extremos climáticos para a América do Sul.

O sistema, que será instalado em Cachoeira Paulista (SP), será compartilhado ainda entre o Cptec e o novo Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe.

Nessa corrida contra os impactos climáticos futuros sobre as florestas e a agricultura, a comunidade internacional não poderá ficar indiferente. O Relatório Eliasch, um estudo independente comissionado pelo Primeiro-Ministro britânico, Gordon Brown, e divulgado no último dia 14, estima que a comunidade internacional terá de investir US$ 4 bilhões nos próximos cinco anos apenas para capacitação de pessoal em 40 países que têm áreas extensas de florestas. O relatório trata dos mecanismos de financiamento necessários para a redução de emissões associadas ao desmatamento e para o apoio a uma gestão florestal sustentável.

O documento ressalta "o papel fundamental das florestas no provimento de meios de subsistência para mais de 1,6 bilhão de pessoas no mundo, e a necessidade urgente de ações que visem a redução do desmatamento". Aponta ainda que "17% das emissões globais de gases de efeito estufa estão relacionadas ao desmatamento e à degradação das florestas e que a busca de meios sustentáveis para a redução dessas emissões é crucial para que as conseqüências desastrosas das mudanças climáticas sejam evitadas".

O documento diz ainda que a "comunidade internacional deve oferecer apoio às nações que abrigam as florestas com o objetivo de reduzir pela metade a taxa de desmatamento até 2020 e tornar o setor de florestas globais neutro em carbono até 2030 - isto é, compensando as emissões derivadas da perda florestal com o crescimento de novas florestas".

O relatório destaca a expertise do Brasil no monitoramento do desmate por meio de seus sistemas de satélite. Apesar de os números comprovarem a ameaça que o aquecimento global coloca à Terra, Assuero Doca Veronez, presidente da Comissão do Meio Ambiente da Confederação Nacional da Agricultura, não demonstra preocupação.

"Vários dados são veiculados pelo IPCC, mas temos nossas dúvidas", afirma. Questionado sobre a pesquisa "Aquecimento Global e Cenários Futuros da Agricultura Brasileira", que revela os danos que o aquecimento global poderá provocar na agricultura, Veronez responde que "os trabalhos não são aferíveis e nem validados".

A pesquisa foi realizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Universidade de Campinas (Unicamp). Os pesquisadores reforçam que as perdas na produção de alimentos, por exemplo, deverão beirar R$ 7,4 bilhões em 2020, se nada for feito para impedir a elevação da temperatura.

"O estudo é feito para desenvolver pesquisas adaptando produtos a novas situações. O ministério repassou à Embrapa mais R$ 1 milhão que será alocado em pesquisas", diz Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Na opinião do ministro, a precaução é a melhor arma para enfrentar a batalha contra o aquecimento global. "É preciso investir agora para não perder lá na frente, mas as questões climáticas não assustam a agricultura."

Seguindo essa linha de raciocínio, Stephanes defende que quanto mais pesquisas forem feitas, mais distante a agricultura brasileira estará dos impactos negativos gerados pelo aquecimento global. "Os Estados do Mato Grosso, Tocantins e Maranhão em breve contarão com unidades da Embrapa", diz o ministro, sinalizando novos investimentos.

"A preocupação não é dinheiro, mas recursos humanos. Não vejo no Brasil número de profissionais suficientes para desenvolver estudos", completa o diretor do LNCC. Segundo ele, hoje são 10 doutores que se formam a cada ano com especialidade nas questões climáticas. "Dentro de 10 anos serão 100 para atender essa demanda que continuará crescendo."

Ainda assim, explica, nossas pesquisas estão avançadas. "Já temos adaptações resistentes das culturas que sofrem mais com a questão climática. O processo de adaptação de nossas culturas nos últimos 30 e 40 anos nos permite dizer que teremos mais condições de enfrentar a questão climática do que a Europa e EUA", conclui Silva Leite. Segundo o ministro da agricultura, o Brasil conta hoje com 2,5 mil cientistas na área agrícola contra 3 mil dos EUA.

Para Eduardo Assad, chefe geral da Embrapa Informática e Agropecuária e coordenador da pesquisa sobre aquecimento global e cenários futuros, desenvolver uma nova variedade de planta resistente às mudanças climáticas requer tempo. "Serão necessários entre sete e oito anos de pesquisa. Portanto, teremos tempo hábil de evitar catástrofes." Segundo dados do estudo, "o primeiro cenário negro ocorreria em 2020".

(Valor Econômico, 28/10)