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Jornal do Brás online

Cultura da felicidade e desdobramentos do sofrimento...

Publicado em 08 maio 2014

Por Marisa Moura Verdade

A busca da felicidade move a humanidade, constitui um ideal que nos leva a estudar, trabalhar, construir uma morada e poupar dinheiro, a fazer amigos, casar e ter filhos... Felicidade é palavra difícil de definir. Nos dicionários, é sinônimo de ventura, bem-estar, contentamento, bem-aventurança. No senso comum, ser feliz implica ter saúde, amor e dinheiro suficientes para sentir o prazer de viver. Nas atuais sociedades de consumo, o planejamento do futuro segue uma suposição generalizada: a principal meta da vida seria maximizar momentos e experiências positivas. Nesse contexto sociocultural, a depressão ocupa lugar de destaque, sendo avaliada como o principal mal-estar do século XXI. É contraponto expressivo para uma cultura que modela desejos de ser feliz a todo preço!

Nenhuma história de vida é livre de aflições. Situações dolorosas são inerentes à condição humana. Apesar do consenso sobre os valores da felicidade, reconhecemos que nossos sofrimentos conferem singularidade e força à personalidade. É claro que nem todo sofrimento enobrece - às vezes, o fracasso é somente fracasso e não um caminho para a genialidade. É importante avaliar quando sofrimentos são meramente destrutivos, algo a ser elaborado e superado o mais rápido possível. No entanto, é inegável que dificuldades e provações marcam momentos importantes da nossa biografia, frequentemente configurando experiências mais significativas do que os bons momentos.

A consciência de que o sofrimento faz parte da existência é inevitável e permite equilibrar a busca da felicidade, aliviando ansiedades de quem se sente convocado a ser feliz a qualquer custo. Se a felicidade motiva a buscar os benefícios da vida, as provações enviam a um curso diferente. A desgraça arrasta o sofredor para o fundo de si mesmo, direcionando sua atenção para áreas abaixo dos porões conhecidos da interioridade. Nesse movimento, cada um é forçado a confrontar o fato de não ser capaz de decidir sobre o que ocorre ali. Um exemplo: é impossível deixar de sentir a falta da pessoa amada. Apenas é possível desenvolver um senso mais preciso das nossas carências e limitações, diferenciado o que conseguimos controlar daquilo que simplesmente aprendemos a suportar.

Ninguém é capaz de determinar o curso da própria dor, mas cada um participa na criação de uma resposta para seus tormentos. Quando as dores são apaziguadas, nunca sabemos de onde o alívio vem. A recuperação do sofrimento é bem diferente da terapêutica de uma doença. Não somos curados, saímos modificados de cada processo de luto e de cada crise existencial. Grandes transformações acontecem quando a vida nos lança em situações difíceis e dolorosas. Muitos rompem com a lógica da felicidade individual, revisando valores, tolerando angústias e medos, buscando sentidos... Em vez de recuar do compromisso amoroso com a vida, que quase sempre envolve sofrimento, mergulham mais profundamente nele. Respiram fundo e, dobrando-se à vulnerabilidade, aguentam as consequências mais dilacerantes das perdas vividas. Assim, seguem ampliando a capacidade de suportar o que não podem mudar. O sofrimento envolvido na tarefa de viver cada dia com sua dor se transforma em mediador de um tipo de graça incomparável às benesses socialmente definidas.

Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico-Oncologia. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo & FAPESP). E-mail: mmverdade@gmail.com