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Cultivo de organismos marinhos

Publicado em 27 setembro 2010

fonte: Agência Fapesp

Perto do que se estuda as florestas e os animais que vivem sobre terra firme, o mar ainda é uma grande incógnita. Soma-se a isso, há ainda o tênue equilíbrio marinho, que pode ser facilmente quebrado, até com uma bioprospecção inadequada.

Para exemplificar isso, o professor Renato Crespo Pereira, da Universidade Federal Fluminense (UFF) - ao falar sobre "Compostos bioativos de organismos marinhos: como prospectar e preservar esse potencial", em Workshop sobre Biodiversidade Marinha realizado este mês na sede da Fapesp, em São Paulo -, foi bastante didático.

Para tanto, citou o caso da halicondrina B, um composto anticâncer de origem marinha. Para se obter 350 miligramas dessa substância no ambiente natural é preciso coletar 1 tonelada de esponjas da espécie Lissodendoryx, na qual a halicondrina é encontrada. Por conta disso, um trabalho de bioprospecção mal planejado pode simplesmente provocar a extinção da espécie. Pelo menos foi o que já aconteceu localmente com esponjas em algumas regiões da costa europeia.

Ou seja, planejamento é tudo. E a despeito de todas as dificuldades inerentes a esse tipo de pesquisa, Renato Crespo Pereira afirma que o Brasil não pode deixar de explorar seus biomas marinhos. "O País já se encontra bem atrás de outros na exploração da biodiversidade dos oceanos. Países da Oceania, da Ásia, da Europa e da América do Norte apresentam atividade de pesquisa muito mais intensa em seus sistemas costeiros", disse.

Substâncias que combatem fungos, bactérias e inflamações, exemplifica, são alguns produtos que vieram do mar e que justificam a intensificação das pesquisas marinhas no País, que ainda são incipientes. "Justamente por estar começando nesse trabalho de prospecção marinha é que o Brasil deve começar a pensar nos rumos que quer tomar", afirmou.

Pereira ilustrou sua palestra com o caso da descoberta de uma alga encontrada somente em uma ilha brasileira. "Devemos nos perguntar: vale a pena fazer toda uma pesquisa a respeito dela para depois ver que não há algas suficientes para suprir a indústria?", colocou. Ou seja, antes mesmo de se iniciar uma pesquisa de compostos bioativos marinhos seria preciso verificar se a natureza tem condições de fornecer a matéria-prima em quantidade necessária. "Muitas vezes não encontramos o suficiente nem mesmo para os testes de bioatividade, o que dizer então da utilização comercial em maior escala", alertou.

O professor reforça a necessidade de se olhar o processo como um todo, não só para não realizar pesquisas em vão, como também ações que acabem provocando impactos perigosos, como a extinção de espécies. "Se conhecemos o gargalo, às vezes é melhor começar a pesquisa por ele, ou seja, primeiro desenvolver métodos de reprodução daquele organismo marinho para depois testar os seus compostos", disse. Nesta linha de raciocínio, uma alternativa interessante, diz, seria investir em pesquisas em genômica e proteômica, que desenvolvam o cultivo de organismos marinhos. Esses trabalhos ajudariam a reproduzir em laboratório moléculas e organismos de interesse científico e comercial.

"A bioprospecção brasileira deve considerar vários objetivos: conservar a biodiversidade, promover o manejo sustentável dos organismos para a fabricação de produtos naturais e, é claro, encarar a biodiversidade como um valioso recurso econômico para o País", disse.