Notícia

Correio Popular

CTI - Uma Luta Pela Sobrevivência

Publicado em 24 fevereiro 1999

Por HÉLIO DE OLIVEIRA SANTOS
(Discurso proferido em 3/2/99, na Câmara dos Deputados, condenando a extinção do Centro Tecnológico Para Informática - CTI) Venho a esta Casa, como representante da histórica Campinas do Mato Grosso, da região de Campinas, Estado de São Paulo. Fundada há cerca de 224 anos, sintetiza Campinas a busca da descoberta, da vontade de enfrentar grandes desafios. Representa a ousadia dos bandeirantes, verdadeiros pesquisadores do futuro, responsáveis pela sua geografia e história de nascimentos de gênios da música, como Carlos Gomes, abolicionistas e políticos ilustres como Francisco Glicério, Campos Salles, dentre outros. Lembro-me, na atualidade, de um velho construtor do futuro - professor Zeferino Vaz, que de forma sábia dizia que "a universidade se constrói com talentos...". E surgia a Unicamp, hoje uma das mais importantes universidades do País, com reconhecimento em todos os cantos e internacionalmente. Crédito indiscutível aos seus funcionários, alunos, professores e pesquisadores. Parodiando esse grande mestre, com quem tive a honra de conviver como aluno, quero afirmar que: a pesquisa precisa de talentos, e o nosso futuro: de pesquisa. Esta introdução, sr. presidente, colegas deputados, é para chamar atenção para duas importantes palavras: o talento e a descoberta. Talento e descoberta são dois atributos inerentes ao pesquisador, é qualidade que faz história. Foi baseado nesses atributos que nosso País, no início dos anos 80, instituiu três grandes centros de excelência científica. O CPqD - Centro de Desenvolvimento e Pesquisa da Telebrás -, em Campinas, São Paulo, o Cenpes (Centro de Pesquisa da Petrobrás), no Rio de Janeiro e o CTI (Centro Tecnológico para Informática), também em Campinas/SP. O CTI foi criado para promover e executar pesquisas, acompanhamento da política industrial brasileira e apoio à empresas nacionais do setor de informática, além de implantar uma política de integração com universidades brasileiras, como esforço nacional de desenvolvimento da informática. Durante quase duas décadas, o CTI desenvolveu tecnologia de automação industrial, em apoio ao avanço contínuo da qualidade, eficiência e inovação dos processos produtivos das indústrias nacionais de pequeno e médio porte. Colaborou, e vem colaborando, na inovação de produtos nacionais, desenvolvimento de "software" brasileiros de qualidade e competição, além de atuar em parceria com indústrias estrangeiras do ramo. Mantém ainda, projetos e intercâmbios de pesquisas com universidades nacionais e internacionais, como a Universidade de Lisboa, da Escócia, Itália, França, Alemanha, Estados Unidos da América, dentre outras. O CTI, instalado no maior pólo de tecnologia do Brasil, em Campinas, juntamente com demais centros de excelência como o CPqD, o Instituto Agronômico, Unicamp, Puc-camp, Embrapa, etc. foram e continuam sendo decisivos na atração de empresas com alto teor de tecnologia como a Motorola, Nortel, Lucent, Alcatel, Promon, que se somam à Bosch, IBM, Rhodia, 3M, General Eletric, que já se encontram na região. Nos últimos dois anos, sr. presidente, foram mais de 10 mil empregos diretos e indiretos, com cerca de um bilhão de dólares de investimentos. Atualmente, o CTI é responsável estratégico pela sobrevivência, eficiência e aprimoramento de mais de 300 empresas do setor de informática, que se traduz em equilíbrio positivo de empregabilidade hoje, e para o futuro. Sua contribuição na pesquisa e avanço tecnológico representará para o País uma economia de recursos permanente e sua ausência projeta uma dependência de tecnologia de 80 bilhões de dólares nos próximos 10 anos, somente com pagamentos de "royalties" para outros países. O presidente Fernando Henrique Cardoso, não pode, neste momento histórico, permitir que na sua biografia de homem público, e principalmente, como professor e pesquisador social, se inscreva a história da extinção de um centro de pesquisas, que venha frustrar sonhos e esperanças de milhares de jovens que almejam o primeiro emprego no futuro, ou mesmo a manutenção do seu emprego no presente. Sr. presidente, senhoras e senhores deputados, no mundo moderno e competitivo a competência deve estar presente em todos os momentos. Certamente o CTI do futuro terá de passar por transformações, alterações estruturais e adaptações a novas metas, mas extinção: jamais! Não permitiremos nesta Casa, nesta 51a legislatura que se inicia como símbolo de luta e resistência contra mais perdas sociais; não permitiremos, repito, que nada mais agrida, ou abata instituições da mais importante área neste País, que é a educação. Dessa forma, não poderemos concordar com artigo 5º da Medida Provisória nº 1.799 de 21 de janeiro de 1999, que propugna pela extinção do CTI. Viva a pesquisa brasileira, viva a tecnologia nacional, viva a educação, o trabalho e a dignidade, o sonho e a esperança da juventude brasileira. Hélio de Oliveira Santos é deputado federal pelo PDT-SP A SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL HÉLIO SHIMIZU A discussão sobre a qualidade da programação televisiva brasileira está associada às mudanças possibilitadas pelas novas tecnologias. As antenas parabólicas, as TVs a cabo, a Internet são opções oferecidas aos consumidores, segmentando a programação da mídia. No entanto, TVs abertas oferecem opções ao telespectador, como os programas: Observatório da Imprensa, Opinião Nacional, Brasil Pensa e Roda Viva, da TV Cultura, Fogo Cruzado, da TV Bandeirantes, as mini-séries nacionais, da TV Globo, o Passando a Limpo, da TV Record. No programa Observatório da Imprensa, algumas frases interessantes são colocadas para o telespectador, como por exemplo: "jornalismo não é espetáculo, é serviço público". De um modo geral, o debate acerca das transformações verificadas nesta virada de século está centrado nas transformações provocadas pelos avanços tecnológicos. Num programa recente, no Roda Viva, com o sociólogo italiano Domenico Di Masi, discutiu-se o novo desafio da emergente sociedade pós-industrial. No contexto da qual o trabalho físico dos seres vivos do Planeta foi substituído pelos robôs e pela automação, a produção intelectual conta com os avanços da informática e da Internet, a humanidade deverá aprender a administrar o tempo livre e ampliará a importância de profissionais criativos da área cultural. Para alguns brasileiros, a discussão sobre sociedade pós-industrial pode causar uma certa perplexidade, na medida em que grande parcela da sociedade está utilizando técnicas típicas da sociedade pré-industrial, cultivando a terra com ferramentas manuais e vivendo do artesanato. Ao mesmo tempo, setores dinâmicos da agricultura mecanizada e dá indústria das linhas de produção, ainda não incorporaram os avanços da: biotecnologia, automação, mecânica de precisão, informática, etc. Não se trata de ignorar a diversidade de situações no processo de inserção e técnicas utilizadas pelos diferentes setores produtivos e segmentos sociais no Brasil, o que importa são os fatores essenciais que determinam a dinâmica de transformação sócio-econômica. Nesse aspecto, a complexidade da economia brasileira e as novas exigências para a escolaridade e qualificação dos trabalhadores estão associadas às novas tecnologias. Se, por um lado, os objetivos de conquistar um desenvolvimento sustentável para a atual e futuras gerações estão se tornando uma realidade próxima e concreta, por outro lado, em função da lógica de valorização do capital, a exclusão social e ausência de alternativas para ocupar o tempo livre propiciado aos trabalhadores, leva a humanidade para um impasse político. Antes de discutir perspectivas para o mercado de trabalho, a sociedade pós-industrial deve refletir sobre o seu padrão de consumo, baseado no desperdício de energia e alimento, acúmulo de resíduos sólidos em volumes crescentes nos aterros sanitários, irracionalidade nas técnicas destinadas à reutilização e reciclagem dos materiais empregados. Com base nessa realidade, a discussão sobre o conceito do poluidor-pagador poderia induzir os agentes econômicos a realizar a gestão dos resíduos desde o "berço até o túmulo". Para exemplificar, os bens de consumo duráveis, da indústria de eletrodomésticos e automobilística, poderiam ser reciclados periodicamente, em menos de 10 anos, de modo que o consumidor pudesse trocar seu.produto usado por bônus das próprias empresas, como moeda, na aquisição de um novo. A sociedade pós-industrial representa uma época sem precedentes na história da humanidade. O mercado de trabalho passa por uma reorganização brutal, como ocorreu na Revolução Industrial. Diante deste novo quadro, as exigências profissionais se intensificam e a competição se acirra. Nos dias de hoje, o diploma universitário é condição necessária, mas não suficiente, para garantir um bom emprego. Ainda que cursar uma faculdade numa universidade, como a Unicamp, seja importante na disputa por uma vaga no mercado de trabalho, a pós-graduação passou a ser condição indispensável para empresas. O conhecimento de língua estrangeira, principalmente o inglês, permite realizar as transações comerciais, acessar e navegar pela Internet. Não se pode prescindir da rede, num mundo em que a comunicação é a base do poder. Em se tratando de poder, o conhecimento do espanhol, alemão e japonês também é fundamental. Um outro fator de competitividade profissional é a capacidade de trabalhar em grupo. A finalidade é garantir que cada pessoa seja capaz de entender o ponto de vista do outro, se comunique eficazmente, disponha de habilidade para motivar, despertar a empatia, criar consensos, inspirar cooperação e evitar conflitos. As possibilidades de empregabilidade sem ampliam quando a formação profissional permite adquirir múltiplos conhecimentos e senso crítico. A leitura de jornais, revistas, livros e informações pela Internet ampliam a capacidade de reflexão. Se no passado a valorização do profissional estava no tempo de trabalho numa única empresa, hoje as exigências de versatilidade profissional recomendam menos de cinco anos em uma mesma empresa, a menos que a estrutura hierárquica da empresa permita assumir várias funções diferenciadas, trazendo novos desafios e experiências. Criatividade, originalidade, intuição, curiosidade, prazer e entusiasmo são fatores de competitividade para o mercado de trabalho. Naturalmente, as contradições do capitalismo e da economia de mercado não serão eliminadas deste novo mundo. A distribuição de renda, redução na jornada de trabalho, universalização do ensino público, valorização da cultura e do lazer, deverão ser tratados concomitantemente com a dinâmica imposta pelos novos conhecimentos e tecnologias. Hélio Shimizu é diretor executivo da BRAIN e mestre em Engenharia Agrícola pela Unicamp