Notícia

Jornal de Piracicaba

CTC avalia utilização dos genes da cana

Publicado em 29 novembro 2003

Por Marisa Massirelli Setto - marisas@jpjornal.com.br
Pesquisadores do Centro Tecnológico da Copersucar (Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo, instalado em Piracicaba, iniciaram pesquisas da segunda etapa do Projeto Genoma Cana, e agora trabalham o gene funcional, ou seja, querem conhecer o uso prático dos genes que foram seqüenciados por pesquisadores de várias instituições brasileiras, na primeira etapa do projeto. O coordenador técnico do CTC, Willian Lee Burquinst, informou que os 50 mil genes seqüenciados se dividem em áreas variadas de interesse. No trabalho que a Copersucar já iniciou, o alvo são os genes envolvidos na concentração de açúcar, pela necessidade de procurar sempre uma cana mais produtiva. O país tem hoje as melhores condições do mundo de produzir cana-de-açúcar, justamente porque investe há 30 anos em pesquisas. "E mantê-las é fundamental para garantir nossa competitividade", diz. Outras instituições definiram o foco de ação. O Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) está interessado nos genes que influenciam o metabolismo de nutrientes da planta, mais precisamente na assimilação de fósforo. Na Esalq existem vários grupos de interesse que vão estudar desde os resistentes às doenças até os resistentes às pragas Segundo Burquinst, o Genoma Cana, um dos maiores projetos de seqüenciamento genético de plantas do mundo, é estratégico para o Brasil. IDÉIA - A idéia de decifrar o genoma da cana-de-açúcar partiu do CTC, em 1998. Na ocasião, as investigações sobre o material genético da Xylella fastidiosa - a praga que ataca laranjais e é conhecida como amarelinho - estavam bem adiantadas e o sucesso do projeto fez com que sua financiadora, a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado dê São Paulo) anunciasse o interesse em investir em outras pesquisas do gênero. A Copersucar apresentou uma proposta à instituição para incluir a cana-de-açúcar no seu Programa Genoma, com um forte argumento para isso: um quarto de toda a cana-de-açúcar produzida no mundo é colhida no Brasil, sendo que só no Estado de São Paulo responde por 60% desse total. Seria o primeiro projeto nacional a tornar conhecidos os genes de uma planta. Com um orçamento de US$ 8 milhões, a primeira parte dos trabalhos foi concluída no ano passado. A Fapesp arcou com cerca de 95% dos recursos para a pesquisa, cabendo os 5% restantes à cooperativa. A agência estimulou pesquisadores brasileiros a trabalharem com a cana. A idéia vingou. Os cinco existentes na época se multiplicaram muitas vezes e hoje chegam a 200. "O Projeto é um exemplo de como a iniciativa privada e os órgãos de fomento podem se unir para atender necessidades apresentadas pelo mercado", diz Burquinst. PESQUISA FACILITA VIDA NO CAMPO Para José Fernando Perez, da Fapesp, a identificação do genoma funcional da cana pode servir como uma sólida base de apoio para inúmeras pesquisas posteriores, facilitando trabalhos que resultem em aplicações práticas no campo, como variedades mais produtivas e resistentes a pragas e doenças. O resultado da primeira etapa do projeto, o seqüenciamento, foi publicado no site da revista norte-americana Genome Research. O artigo informou que os cientistas trabalharam com fragmentos de genes, conhecidos como Etiquetas de Seqüências Expressas (ESTs). Após o processamento das seqüências, 237.954 ESTs foram identificados, a partir de diferentes órgãos e tecidos da cana-de-açúcar, em vários estágios de desenvolvimento. Com a quantidade, a cana-de-açúcar passa a ser a quinta planta com maior número de seqüências descritas, após trigo, milho, cevada e soja. Além das instituições instaladas em Piracicaba, os dados obtidos pelo projeto, também conhecido como Sucest (de Sugarcane EST), já estão sendo utilizados por diversos grupos de pesquisa, que buscam informações sobre o metabolismo da cana-de-açúcar de modo a obter, por exemplo, variedades mais produtivas e resistentes à seca ou a solos com poucos nutrientes.