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Gazeta Mercantil

CTA terá parceria com indústrias

Publicado em 12 setembro 2002

Por Virgínia Silveira - de São José dos Campos
O Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e um consórcio formado por nove empresas deste setor firmaram uma parceria visando a transferência de tecnologia de foguetes para a indústria. O projeto será submetido, até o final do mês, para Fapesp, que poderá financiar 70% da industrialização dos foguetes. O relatório feito pelo CTA, em conjunto com o consórcio de empresas, tem mais de 300 páginas. Conforme previsão do diretor do CTA, Brigadeiro Tiago da Silva Ribeiro, o programa de industrialização dos foguetes deve exigir investimentos entre R$ 8 milhões e R$ 10 milhões. 'O processo de transferência de tecnologia também inclui o desenvolvimento de alguns componentes críticos que hoje são importados', afirmou. A primeira etapa do projeto prevê, de acordo com o presidente da Espacial, César Ghizoni, a transferência de tecnologia na área de foguetes de sondagem, veículos de menor porte usados em pesquisas de microgravidade no espaço. O Brasil já lançou com sucesso diversos experimentos científicos e tecnológicos em cooperação com EUA e Alemanha, utilizando os foguetes de sondagem do Centro Técnico Aeroespacial. MAIS BARATOS QUE SATÉLITES Os foguetes de sondagem, segundo Ghizoni, têm a vantagem de serem baratos se comparados aos satélites, mas podem realizar com eficiência pesquisas de curta duração em ambientes de microgravidade. 'A Nasa (Agência Espacial Americana) faz uma média de 15 lançamentos por ano desse tipo de foguete', observou ele. As Universidades e institutos de pesquisa brasileiros também são potenciais clientes dos foguetes de sondagem porque utilizam esse tipo de recurso tecnológico em pesquisas na área de fármacos e biotecnologia. O consórcio Espacial, que reúne as empresas Avibrás, Mectron, Equatorial, Cenic, Compsis, FibraForte, Atech, Aeroeletrônica e Digicon, foi criado em outubro de 2000 com o objetivo de gerenciar projetos do setor espacial brasileiro. Além de participar de maneira mais integrada das licitações do setor, a formação do consórcio representa uma alternativa para a retomada dos investimentos no programa de lançadores brasileiro. Nos últimos 10 anos a escassez de recursos para o projeto do Veículo Lançador de Satélites (VLS) e a desintegração das equipes técnicas que migraram para a indústria quase inviabilizaram a continuidade do seu desenvolvimento. A contratação de 80 funcionários neste ano deu um novo alento ao projeto, mas a liberação de recursos ainda está aquém do necessário. Segundo o diretor do CTA, o lançamento do terceiro protótipo do VLS está previsto para dezembro deste ano, mas parte dos R$ 5 milhões reservados para o projeto em 2002 só foram liberados em forma de crédito no último dia 6. 'O dinheiro, na verdade, só estará disponível no mês de outubro.' A data limite para a chegada dos recursos, que também incluem outros R$ 2,5 milhões para a base de lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, é 28 de setembro. Os recursos previstos para Alcântara serão destinados para pagar a alimentação das equipes técnicas do projeto e de segurança da base, combustíveis, energia elétrica e em melhorias nas áreas de climatização do CLA. TESTES EM FASE FINAL O CTA já está na fase final de testes e montagem do foguete VLS em São José dos Campos. No próximo dia 17, está previsto o primeiro embarque dos motores do foguete para a base de Alcântara. O foguete VLS contribuiu para o desenvolvimento de tecnologia de ponta no país nos últimos 15 anos. O programa envolveu durante esse período mais de cem empresas que se capacitaram para fornecer equipamentos e componentes com qualificação espacial. Mais de 80% do VLS é feito pela indústria brasileira. Algumas delas, inclusive, como a Compsis, se beneficiaram da tecnologia aeroespacial absorvida com o programa VLS para tornar-se uma empresa de sucesso na área de sistemas inteligentes de transportes. Os benefícios para a indústria brasileira ocorreram em diversas áreas, em especial nos setores siderúrgico, químico e eletrônico. Na área de materiais, por exemplo, o Brasil desenvolveu a estrutura dos motores do foguete em um aço especial (denominado 300 M), com resistência duas vezes maior que a dos aços convencionais. Essa tecnologia foi transferida para a Eletrometal, depois adquirida pela Villares.