Notícia

Gazeta Mercantil

CTA mantém em sigilo sua primeira patente

Publicado em 10 janeiro 2001

Por Adriana Fernandes Farias - de São Paulo
O Centro de Toxinologia Aplicada (CTA), entidade multi-institucional com sede no Butantan, chega este mês à sua primeira patente. As custas da patente, que ainda é mantida em sigilo, ficam por conta de consórcio formado por três indústrias farmacêuticas - a Biolab/Sanus, a União Química e a Biosintética. Com o objetivo de utilizar ás toxinas animais e de microrganismos na elaboração de drogas de uso farmacêutico, o CTA deve aproximar-se da iniciativa privada, aplicando o conhecimento na geração de produtos. As pesquisas do centro ganharam apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que investirá US$ 1,5 milhões por ano no instituto. Com isso, ele chegará à estrutura necessária para concluir suas pesquisas. Página 3 TOXINOLOGIA DO BUTANTAN CONSEGUE A PRIMEIRA PATENTE Adriana Fernandes Farias - de São Paulo No fim deste mês o Centro de Toxinologia Aplicada (CTA), centro multi-institucional com sede no Butantan, terá uma de suas pesquisas patenteadas pela primeira vez. O financiamento da patente, por enquanto mantida, em sigilo, fica por conta de consórcio de três indústrias farmacêuticas nacionais - Biolab/Sanus, União Química e Biosintética - que firmaram parceria com o centro. Segundo o diretor Antonio Carlos Martins de Camargo, é a primeira vez que a indústria farmacêutica está envolvida com pesquisa de forma institucionalizada e ainda com apoio de recursos públicos, no caso, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Explica que as pesquisas no Brasil começavam com a observação dos fenômenos, passavam pela caracterização da substância e paravam por aí, para serem finalizadas no exterior. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o desenvolvimento do Captopril, o remédio anti-hipertensivo mais usado no mundo, derivado da toxina da serpente brasileira, a jararaca (ver box). Escolhido em setembro pela Fapesp entre 112 instituições de pesquisa paulistas para ser um de seus dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids), o CTA receberá anualmente US$ 1,5 milhões da fundação, por até 11 anos. Além do principal objetivo - utilizar as toxinas animais e de microrganismos na elaboração de drogas de uso farmacêutico - deve aproximar-se da iniciativa privada, aplicando o conhecimento na geração de produtos. Deve ainda difundir o conhecimento científico para a sociedade. ; Além de profissionais do Butantan, o centro conta com pesquisadores da USP, Unifesp e Unesp, somando cerca de 50 cientistas. Tem ainda a colaboração de laboratórios e universidades estrangeiras, como as de Liverpool e Virgínia, com as quais estudam uma toxina com grande probabilidade de utilização no tratamento de metástase. A ligação com a Fapesp permitiu criar uma infra-estrutura, o que inclui novos laboratórios, para que a pesquisa possa ser feita até o produto acabado, o remédio que chega à prateleira. Em matéria de observação, isolamento e caracterização química da substância útil da toxina, o que demanda uma alta tecnologia, o País tem experiência. Mas nunca chegou às fases seguintes - desenvolvimento de fármacos e testes pré clínicos e clínicos. É aí que entra a indústria farmacêutica. "A indústria internacional se especializou nisso", compra Camargo. Encarregado de decidir os parceiros industriais, o pesquisador procurou indústrias nacionais. Para vencer - a reação contrária das multis e ter mais capital, três indústrias uniram-se na empreitada, formando um consórcio: a Biolab/Sanus, a União Química e a Biosintética. O consórcio e a Fapesp terão a co-titularidade das patentes e os lucros originados delas serão divididos em quatro partes iguais entre a Fapesp, o instituto onde a pesquisa foi desenvolvida, o consórcio e o pesquisador. As indústrias irão pagar todas as despesas para o patenteamento no Brasil e no exterior. Como ao Brasil falta a experiência de levar a pesquisa até o fim, falta também preparar os profissionais para realizar esse trabalho. "O Centro quer ir atrás desse tempo perdido e criar profissionais especializados". Neste semestre, farão um curso de propriedade intelectual de duas semanas para que pesquisadores aprendam a utilizar os conhecimentos na área farmacêutica e biotecnológica. "Gostaria também que tivesse o interesse de advogados", diz. O centro terá também cursos sobre biotecnologia médica e de qualificação de profissionais para desenvol- -verem novos fármacos e processos de biotecnologia. TOXINAS VÃO DIRETO AO ALVO Aprimoradas pela própria seleção natural, as toxinas de animais e microrganismos oferecem substâncias que, desenvolvidas, podem ser usadas no combate a várias doenças, como a metástase (migração de um tumor para outra parte do corpo) e problemas cardiovasculares. Pode também ser usada no combate a pragas em lavouras, com a vantagem que não atingem o homem ou o solo, apenas a praga. São vários os remédios derivados de toxina animal. Eles combatem doenças hemorrágicas, trombóticas, crescimento tumoral. O mais famoso anti-hipertensivo é feito a partir da toxina da jararaca. Quando a cobra dá o bote, a substância imobiliza a presa fazendo com que sua pressão arterial caia. "Os seres vivos usam toxinas para se defenderem ou captarem alimentos", explica o diretor do CTA, Antonio Martins de Camargo. Elas despertam o interesse da indústria farmacêutica porque identificam alvos específicos no organismo humano e ajudam a obter substâncias que possam ser usadas como medicamentos. "A indústria farmacêutica funciona assim: 'me dê o alvo que eu acho a droga'. As toxinas vão direto no alvo", diz o pesquisador. O Centro de Toxinologia Aplicada não tem projetos pontuais, mas programas de pesquisa em diversos temas ligados a toxinas de animais e de microrganismos (fungos e bactérias). Entre as frentes de pesquisa, estuda substâncias de artrópodes e de serpentes que: atuam no sistema cardiovascular (contra hipertensão arterial, arteriosclerose, doenças trombóticas e infartes), as toxinas que afetam o sistema nervoso periférico e as que afetam o crescimento e a migração celular (inibem tumores e metástase). Utilizando produtos da sua biodiversidade em fármacos, o País fica em situação privilegiada, em relação aos outros, que não' têm esses recursos. (A.F.F)