Notícia

Arquitetura & Urbanismo

Crítica brasileira

Publicado em 01 dezembro 2010

Por Por Simone Sayegh

Um panorama dos projetos e obras de todo tipo feitos no Brasil a partir dos anos 50. As arquitetas e pesquisadoras Maria Alice Junqueira Bastos e Ruth Verde Zein se propuseram a heróica missão de fazer uma síntese dos últimos 60 anos da arquitetura brasileira no livro Brasil: arquiteturas após 1950 (Perspectiva), lançado em novembro de 2010. A diversidade de conceitos e projetos, os defeitos e virtudes, as generosidades e mesquinharias foram mostrados em um livro que passeia com olhar crítico e minucioso sobre projetos que nasceram depois do advento de Brasília, e contribuíram com tendências que persistem ainda hoje. "Acreditamos que a arquitetura brasileira não termina em Brasília, e que não há um fim de linha em 1964", acredita Maria Alice. As mais de 400 páginas do livro atravessam seis décadas revelando projetos brasileiros com seriedade e precisão. "O livro propõe outra narrativa da arquitetura brasileira, que não é nem pontual nem excludente, e que quer estabelecer uma base para tentar compreender melhor a contemporaneidade", explica Zein.

Ruth Verde Zein é professora e pesquisadora da Universidade Presbiteriana Mackenzie desde 1987. Seu trabalho de pesquisa sobre o brutalismo paulista lhe rendeu o prêmio Capes em 2006. Maria Alice desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie e é autora do livro Pós-Brasília: rumos da arquitetura brasileira (Perspectiva/Fapesp, 2003). O trabalho a quatro mãos desse novo livro é fruto de outros intercâmbios entre as autoras, e além de mostrar um momento de maturidade crítica no Brasil, revela, antes de tudo, coragem.

Por que um panorama da arquitetura brasileira pós-1950?

MARIA ALICE JUNQUEIRA BASTOS

Existem tendências que crescem a partir das décadas de 1950 e 1960, enquanto a escola carioca já está em um momento de dissolução, e que são fundamentais para entender o contemporâneo.

RUTH VERDE ZEIN O livro propõe outra narrativa da arquitetura brasileira, que não é nem pontual nem excludente, e que quer estabelecer uma base para tentar compreender melhor a contemporaneidade. E enquanto não entendermos bem as décadas de 1950-1970 isso é impossível. Esse livro também quer contribuir para a memória cultural da arquitetura brasileira nesses últimos 50 anos; e se esse patrimônio não for revisto e consolidado tenderá a ser esquecido. As novas gerações já estão perdendo o contato com uma enorme tradição que tem grande valor e que deve ser reconhecida e estudada.

Como foi o trabalho de edição e que critérios foram usados na seleção dos projetos?

Maria Alice Fizemos periodizações e detectamos temas, preocupações que comparecem por várias arquiteturas, em várias correntes. Esse trabalho só pode ser rico e complexo porque absorve e cita contribuições de muitos outros autores. Claro que não é possível incluir tudo, então, se alguém não está citado isso não significa nenhum tipo de desmerecimento, mas apenas que não entrou no viés de nosso recorte; senão o livro não terminaria nunca. Não temos a pretensão de esgotar o assunto.

Ruth O livro é pragmático, propõe um recorte que não é ideológico, que pretende ser inclusivo, e que não é uma simples seleção de obras de grandes autores. Pretende também se referenciar ao panorama internacional, principalmente no latino-americano. A organização em décadas quebradas também ajudou a desfazer algumas cronologias vigentes e muito limitantes: a arquitetura brasileira é muito rica, e não acabou em 1960. E a crítica de arquitetura no Brasil, ao contrário do que sempre repetem, também é muito rica, e está presente em uma ampla quantidade de textos de muitos autores.

Alguns autores internacionais apontam exatamente a falta desses textos....

Ruth Na América Latina a gente trabalha muito para viver, nossa carga de trabalho é imensa, não temos dinheiro nem tempo sobrando. 0 livro levou quatro anos para ser escrito e 25, 30 anos para ser pensado, que é o tempo de formada que temos. Vivemos em um país em que falta tudo, tudo é para ontem e trabalhos de longa duração são difíceis de serem completados... mas há muita coisa acontecendo, é só querer ver.

Parece paradoxal no fim de um livro que faz um panorama da arquitetura brasileira vocês deixarem transparecer que as arquiteturas nacionais estio se diluindo...

Maria Alice Diluindo não significa desaparecendo. Estamos problematizando a questão de haver ou não uma arquitetura nacional, mas não sabemos se ela vai desaparecer. De momento, ela é uma construção problemática porque essa interconexão é muito mais explícita. A construção de uma ideia nacional com exclusão das relações internacionais não faz mais nenhum sentido. É possível discutir uma arquitetura no Brasil somente com uma leitura inclusiva que permita diversidades, superposições, diferentes maneiras de ver, com uma maior liberdade e amplitude.

Ruth O que não achamos mais possível, ou de interesse, é definir o nacional de maneira homogênea e excludente. Mas a questão da identidade vai sempre aparecer, seja no nacional ou no regional, talvez seja inevitável.

Vocês também citam a existência de uma critica morna em arquitetura, principalmente na última década do século 20...

Ruth Alguns dizem que a década de 1980 foi uma década perdida em termos de produção arquitetônica, mas para nós os anos de 1980 trouxeram um enorme incremento do debate, da pesquisa e de discussões polêmicas. Já na década de 1990 instala-se certa unanimidade, parece que todo mundo está de acordo, e toda a crítica e catarse dos anos de 1980 fica para trás. A crítica atual não faz o papel de ponderar as questões e está se refugiando na academia.

Maria Alice Antes de meados dos anos 1990 a crítica estava mais presente nas revistas, comparecia em debates mais amplos, que atingiam todos os arquitetos. Hoje temos cada vez menos espaço para críticas nas revistas, que é o meio com o qual os arquitetos não acadêmicos mais se referenciam. Está havendo uma dissociação entre o debate acadêmico e o profissional.

Os conceitos também mudam ao longo do tempo, existem casos de arquitetos que anos atrás recebiam críticas negativas e hoje tornaram-se referência...

Ruth Tudo muda: arquitetura e crítica. A ideia de que os arquitetos nascem gênios, nascem talentosos, e portanto não mudariam nunca, desconsidera o aprendizado e o crescimento. A ideologia do gênio que permeou a arquitetura moderna brasileira causou mais mal que bem, é redutora, ou você nasce gênio ou não existe. Isso degrada o ensino, torna os arquitetos atuantes mais autocomplacentes se são bem-sucedidos - e um ambiente assim recusa a crítica. Que não precisa ser falar bem ou mal, ao contrário: pode ser a vontade de compreender e aperfeiçoar o fazer contemporâneo.

Mas a liberdade e diversidade contemporâneas exigem uma crítica mais preparada, com um estudo mais aprofundado, sem fórmula fácil...

Ruth Mas nunca houve fórmula fácil.., Só se for uma crítica de juízo de gosto, que diga o que é certo e o que é errado: é fácil mas prepotente e precisa que alguém compre. Mas o público hoje também mudou, há muita informação. Crítica fácil não tem futuro. O que pode ser interessante, e mais construtivo, é ajudar a compreender a lógica de cada situação, destrinchar seus parâmetros, entender que se mudarem os parâmetros talvez resulte em outro produto, possivelmente melhor. Arquitetura é uma arte muito densa e complexa, é uma arte social. Não dá para falar gosto de vermelho ou azul, sem saber o que cada um é ou pode ser, e isso depende de muitos fatores. E nossa maneira de fazer crítica é pela análise de obra, não tem como ser crítica e não ser descritiva.

Maria Alice Nesse livro a gente preferiu trabalhar com as obras, mais do que com os discursos sobre as obras. E a descrição é parte fundamental da compreensão da obra. Não é simplória nem óbvia, mas parte de um olhar e tem ò viés desse olhar. Está tudo na obra - mas há uma tarefa a ser feita, para desentranhar dela tudo isso. Então, não tem como ser crítica e não ser descritiva e analítica

Mas por que não há crítica em jornais e revistas para não arquitetos?

Ruth Porque nesses últimos 50 anos a arquitetura passou da esfera da cultura para a de negócios.

O que você quer dizer com esfera de negócios?

Ruth No Brasil, a crítica de arquitetura nas mídias de maior divulgação, como os jornais, esbarra no mercado imobiliário. Uma vez fui chamada por um grande jornal para fazer uma coluna semanal de informação sobre arquitetura, mas queriam que não fosse nada muito erudito. Então, sugeri publicar um guia prático de arquitetura voltado a quem ia comprar um imóvel; na primeira matéria ia dizer que o comprador devia ir com bússola, e ensinar como avaliar se o apartamento ia ter sol... Fui barrada: alegaram que isso não podia ser, pois a maior fonte de renda do jornal eram as imobiliárias.

Maria Alice O curioso é que de cara eles te pediram para não falar de nada erudito... mas crítica de cinema, de teatro ou de literatura às vezes é até mais erudita e tem espaço em jornal. Arquitetura podia ter também.

Muito além do panorama traçado no livro, quais são as tendências, as linhas que podem já aparecer na produção arquitetônica nos últimos 10,15 anos?

Maria Alice Parece haver uma convergência, algo em comum apesar das variadas tendências incluídas no contemporâneo. Pode ser que seja o comprometimento com o lugar, certa busca de abstração, a diversificação tecnológica, a reciclagem, a revisitação e revalorização dos mestres com o patrimônio cultural, entre outros aspectos. O comprometimento com o lugar se traduz na preocupação com a inserção na paisagem, construída ou natural. Comparece também o emprego de envelopes, camadas de proteção com exploração dos materiais em texturas e filtragens da luz.

Ruth E os mestres da modernidade cuja obra vem sendo revisitada e retomada, em outras claves, não são apenas os da escola carioca dos anos 1930-50, mas os da modernidade brutalista paulista dos anos 1950-70. De certa maneira, essa retomada das pautas dos anos 1960 acontece em todo o mundo, não é exclusiva do ambiente brasileiro ou paulista. E em toda parte nem sempre os arquitetos percebem o quanto aquelas décadas seguem dando as pautas do contemporâneo.

MARIA ALICE E cada vez mais o ambiente já está construído e a tarefa é reciclar o existente, reconstruir o que já existe em outras bases, às vezes até demolir, para criar vazios que faltam na cidade. Mas sempre há várias questões superpostas, subsistindo juntas, nunca há apenas uma tendência. E existe a inércia da cidade e da própria arquitetura como disciplina, que não muda de repente.

Em quais conceitos de arquitetura devemos apostar?

RUTH Devemos apostar na diversidade, no discurso aberto, na variedade. Não temos a menor pretensão de sermos líderes de um novo discurso que vai substituir os anteriores. Quando muito, queremos ajudar a mostrar possibilidades, se possível, ajudaras pessoas a conhecerem, a refletirem, a aperfeiçoarem. No dia a dia de professor, sempre dizemos aos alunos que é importante aprender a projetar de maneira consistente: saiba o que quer fazei; aprenda como fazer e faça. Essa consistência entre pensar, falar e fazer é importante para a qualidade dos resultados arquitetônicos, mas é menos frequente entre os brasileiros do que seria de se desejar. As práticas da arquitetura brasileira mudaram muito nos últimos 50 anos. por variadas razões e necessidades técnicas, culturais, sociais. Os discursos, entretanto, parecem estar ainda atrelados ao passado. E quando tentam se atualizar, às vezes querem apenas encontrar apressadamente uma fórmula nova. Mas talvez não haja mais fórmulas prontas. Pode ser assustador, mas nós acreditamos nisso: em sermos responsáveis pela nossa liberdade.