Notícia

Gazeta Mercantil

Cristal "made in Brazil" reage à concorrência do vidro

Publicado em 23 agosto 1999

Por Marili Ribeiro - de São Paulo
Cristal pode ser nobre, elegante e refinado. Credenciais dignas para embalar qualquer sonho de consumo. Mas, mesmo diante delas, a indústria nacional a ele dedicada vinha perdendo espaço, nas prateleiras das lojas, para as simples peças em vidro importadas. Preço e variedade, graças a um design mais arrojado, faziam a diferença para o consumidor. Reagir e reverter o jogo tornou-se questão de sobrevivência para os fabricantes do setor. A Cristallerie Strauss S.A. e a Cristais Hering Ltda., ambas de Blumenau (SC), estão investindo em marketing e ampliando seus canais de distribuição. A Apresentadora de televisão Hebe Camargo assina uma linha de copos da Strauss. A Hering quer vender embalagens com seis copos até mesmo em lojas de conveniência. O risco de desaparecerem do mapa catarinense, onde se situam os três produtores do País - além da Strauss e da Cristais Hering, há a Cristal Blumenau S.A - foi real. Em 1989, as três, juntas, empregavam cerca de 4 mil profissionais e faturavam US$ 80 milhões. No ano passado, mantinham não mais do que 800 empregados e faturaram menos de US$ 20 milhões. Um cenário assustador, como admite Noel Reis, executivo de gestão da Hering, hoje uma cooperativa de artesãos. Contando mais de 30 anos de dedicação ao setor, Reis resume a situação: "a entrada do importado, sem encontrar qualquer barreira, fez com que vidros com 6% de chumbo (o verdadeiro cristal tem que ter, no mínimo, 24% de óxido de chumbo) entrassem no País com atraentes selos do tipo "cristal da Bohemia", sem realmente ser, o que atraiu o consumidor pelo preço". Uma das batalhas que as empresas estão tomando para si, junto ao governo, é a de criação de normas para a importação. Desenvolvida a "cultura" do importado, onde se contabiliza até o gosto por vinhos de boas safras, porém, a magia exercida pelo que vinha de fora cedeu lugar a uma visão mais crítica. Nem tudo sob o selo "made in algum lugar" é, necessariamente, melhor do que o produzido aqui. Refresco para os fabricantes pátrios que, lentamente, começam a recuperar a perdida participação no mercado. Parte do aumento das vendas veio, de um lado, do crescimento do hábito nacional pelos prazeres de Baco. E, de outro, da mudança de uma antiga prática entre os fabricantes. Há pouco mais de um ano, deixaram de só distribuir jogos de 30 ou 60 peças, uma antiga preferência. Passaram a oferecer embalagens com seis copos. Recurso muito comum entre as marcas importadas. Aumentaram as vendas das opções para vinho. "A linha 'Sommelier' da Strauss, com copos distintos para se tomar um Bordeaux Gran Cru, ou um Bourgogne, é um sucesso", conta Cleusa Alves de Paula, proprietária de uma das mais tradicionais lojas do ramo de São Paulo, a Cleusa Presentes. Em tempo: para o requinte de um grande Bordeaux, deve-se brindá-lo num copo alto, suavemente estreito e abaulado. Já um legítimo Bourgogne pede um modelo mais baixo, mais largo e menos curvo nas bordas. O fascínio dos incautos prejudicou, num primeiro momento, os produtores nacionais. Mas, aos poucos, como registra Cleusa, eles foram percebendo que os verdadeiros cristais de categoria eram muito mais caros do que os similares nacionais. Quase 50% a mais. Um jogo de 30 peças não sai por menos de R$ 900, dependendo da lapidação, se tiver o selo de marcas respeitadas no mundo como os franceses Sèvres ou Baccarat; os suecos Orrefors ou Kosta Boda, ou os tchecos Daum ou Mozart. Só para ficar em alguns dos nomes mais respeitados. O produto nacional, na verdade, andou competindo com linhas de vidro importado. É verdade que eram peças com qualidade e sofisticação que até sugeriam o refinamento de um cristal, embora sempre com menos brilho, uma característica que só a presença do chumbo garante, como informa o engenheiro-físico Edgar Dutra Zanotto, pesquisador ligado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. "Muitos consumidores, hoje em dia, preferem o vidro, em particular depois de amargar a experiência com a importação de cristais de qualidade duvidosa, vindos principalmente do leste europeu. Isto acabou tirando um pouco o glamour do cristal - além do que o vidro tem maior resistência", considera André Cutait, diretor da rede de lojas Spicy, presente no Rio e São Paulo. O ganho na qualidade da informação também vem revertendo em mais critério na compra de produtos em geral. A Hering, por exemplo, resolveu incrementar a venda de seus jogos, a partir deste mês, enviando ao comprador um manual instruindo sobre o uso dos copos. A retomada dos negócios soma aos investimentos em marketing a flexibilização de novos canais de distribuição. Tratados como produto de elite, os cristais eram quase sempre vendidos em lojas especializadas. "Vamos cada vez mais marcar presença nas redes de supermercados e lojas de gourmet, promovendo a venda casada do tipo: junto com um bom vinho ofereça duas belas taças lapidadas", diz Reis. Com uma produção mensal em torno de 200 mil peças, a Hering vem apostando firme nas embalagens individualizadas, que atualmente representam 20% das vendas totais. "Há menos de dois anos era uma alternativa impensável", relembra Reis. A Cristallerie Strauss decidiu investir pesado em marketing. Fechou contrato com Hebe. "Detectamos que ela tem 32% de audiência nas classes A e B. Contar com Hebe promovendo nosso produto, já que atinge o público que queremos sensibilizar, fica mais barato do que alavancar a marca por nossa própria conta", explica Sandro Roberto Pereira, gerente da empresa. Com uma produção de 250 mil peças por mês, a Strauss registrou um aumento de vendas de 5% no primeiro semestre, em relação a igual período de 1998. Não satisfeita, quer incrementar a atuação seguindo uma tendência internacional, de oferecer embalagens luxuosas com apenas duas peças. A maior aposta são as flutês, para se brindar a virada do milênio.