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Crise pode afastar o Brasil de revolução na astronomia na América Latina

Publicado em 26 junho 2016

Diz a lenda que o futuro está escrito nas estrelas. Nesse caso, não há lugar melhor para contemplar o futuro da astronomia brasileira do que o Deserto do Atacama. Pois é lá, no topo árido das montanhas do norte do Chile, que uma nova geração de supertelescópios está para nascer nos próximos dez anos, com a promessa de revolucionar nosso conhecimento do universo para toda a eternidade.

 

Indecisão prejudica planos da astronomia nacional a longo prazo

 

As decisões que vão deixar o Brasil dentro ou fora dessa revolução, porém, precisam ser tomadas agora - justamente no momento em que a ciência brasileira passa por um dos momentos mais difíceis de sua história, a reboque da crise econômica nacional.

 

O País já tem participação garantida em dois grandes projetos no sul do Atacama: o do Giant Magellan Telescope (GMT), um telescópio de 24,5 metros de diâmetro, três vezes maior que os telescópios atuais; e o Large Synoptic Survey Telescope (LSST), um telescópio equipado com uma câmera de 3,2 mil megapixels, projetado para fazer uma varredura completa do céu do Hemisfério Sul a cada três noites. Ambos previstos para entrar em operação por volta de 2022.

 

A grande incógnita está 500 quilômetros ao norte, no topo já aplainado de uma montanha chamada Cerro Armazones, onde nos próximos meses começará a ser construído o maior e mais avançado telescópio que já existiu: o European Extremely Large Telescope (E-ELT). Com um espelho de 39 metros de diâmetro, ele produzirá imagens 15 vezes mais nítidas que as do telescópio Hubble.

 

O projeto foi planejado contando com a participação do Brasil. Mas essa participação está ameaçada agora, mais do que nunca, pela crise econômica.

 

Para ser sócio do E-ELT, o Brasil precisa se juntar ao European Southern Observatory (ESO), o consórcio de 15 nações europeias responsável pelo projeto. Um acordo para isso foi assinado em dezembro de 2010, e aprovado em maio de 2015 pelo Senado, mas a presidente afastada Dilma Rousseff não sancionou o projeto; e a decisão passou para o governo interino de Michel Temer.

 

O acordo garantiria o acesso do Brasil a todas as instalações do ESO, incluindo três observatórios: Paranal, La Silla e Alma - cada um deles com vários telescópios, além do futuro E-ELT. O custo total varia de acordo com o câmbio e outros fatores econômicos, mas é da ordem de R$ 1 bilhão em dez anos.

 

Não há prazo previsto para a ratificação, mas o tempo está se esgotando assim mesmo. O contrato para construção do telescópio foi assinado em 25 de maio, com um grupo de empresas italianas, e as possibilidades de participação da indústria brasileira já estão quase esgotadas. “Ainda existe uma janela aberta, mas ela está se fechando”, disse ao Estado o diretor-geral da organização, Tim de Zeeuw.

 

Uma vez iniciada a construção do telescópio, a indefinição brasileira passa a ter consequências práticas para todos.

 

Pelo contrato original, o país arcaria com aproximadamente 10% dos custos do E-ELT, de 1,1 bilhão de euros - e não há substituto em linha para cobrir o rombo. Ou seja: sem o Brasil, o ESO só tem recursos para construir 90% do telescópio, e a data de conclusão ainda seria adiada em dois anos, de 2024 para 2026. Um prejuízo de proporções astronômicas, que poderia fechar de vez as portas para o Brasil dentro do consórcio.

 

“Minha perspectiva é pessimista no momento”, diz o presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e pesquisador da Universidade de São Paulo, Marcos Diaz. Ele defende a adesão ao ESO como um investimento estratégico. “Claro que a situação é difícil, mas não podemos deixar de investir em ciência, tecnologia e educação.”

 

A posição é majoritária na academia, mas não unânime. Alguns pesquisadores consideram o acordo desfavorável e desnecessário ao Brasil.

Novo parecer

 

Procurado pela reportagem, o novo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, emitiu nota reconhecendo que “o tema é de inegável importância não apenas para a astronomia brasileira, como também para os pesquisadores de todos os continentes”.

 

Ele ressalta, porém, haver argumentos contra e a favor da adesão na comunidade científica. “Portanto, uma análise aprofundada da questão se faz necessária e, diante da importância do ESO, solicitei aos secretários do MCTIC minucioso parecer para posterior decisão.”

 

Indecisão prejudica planos da astronomia nacional a longo prazo

 

Passados mais de cinco anos desde a assinatura do acordo com o ESO, o que parecia ser um sonho prestes a ser realizado começa a tomar contornos de pesadelo para a comunidade científica brasileira. A indefinição prejudica não só o cronograma de construção do telescópio gigante no Chile como o planejamento de toda a astronomia nacional para os próximos anos.

 

“O maior problema nessa história é a indecisão”, disse ao jornal “O Estado de S. Paulo” o astrônomo Bruno Castilho, diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), em Itajubá (MG). “Já passou da hora de o governo brasileiro bater o martelo sobre isso.”

 

A recomendação de entrar para o ESO constava do Plano Nacional de Astronomia, publicado em 2010, com validade de cinco anos. Uma nova versão do plano já deveria ter sido feita em 2015, observa Castilho, “mas enquanto essa questão do ESO permanecer em aberto, não há como planejar nada”.

 

“O mais importante é que essa história tenha um desfecho”, afirma o astrônomo Eduardo Cypriano, professor do Instituto de Astronomia da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e integrante do comitê científico do telescópio GMT.

 

“É óbvio que ter acesso ao ESO seria uma coisa positiva”, avalia Cypriano. “Mas temos de ser realistas.” A participação no GMT, diz ele, já garante que astrônomos brasileiros terão acesso a um telescópio gigante. Associado aos outros observatórios do qual o Brasil já é sócio (Gemini e Soar), ele acredita que a astronomia nacional pode prosperar sem o ESO.

 

Uma preocupação da Sociedade Astronômica Brasileira é que o acordo do GMT é com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e não com o governo federal, o que só garante acesso a pesquisadores paulistas.

 

Castilho concorda que o GMT “não preenche toda a lacuna”, mas não acha que a parceria com o ESO seja indispensável ao crescimento da astronomia brasileira. “A maioria da comunidade acha que é o melhor caminho, mas não é o único.”

 

Sua maior preocupação é com a perda de recursos humanos no LNA. A última contratação foi em 2012 e só esse ano ele já assinou sete aposentadorias (10% da sua equipe) sem perspectiva de reposição desses quadros mais experientes.