Notícia

Gazeta Mercantil

Crise do ensino condiciona emprego

Publicado em 11 junho 1996

A explicação para a dificuldade de colocação de recém-formados no mercado de trabalho deve ser buscada no amplo panorama formado pela crise que assola o ensino no Brasil, pelos novos padrões de qualificação exigidos pela revolução tecnológica na informática, nas comunicações e nos transportes, assim como pelo seu impacto na produção de bens e serviços para uma economia internacional que sofre as tensões da globalização. Apesar de as decisões que a determinaram terem sido tomadas no final da década de 60, a deterioração do ensino no Brasil foi iniciada na primeira metade dos anos 70. A partir daí, a escola pública entrou em declínio e foi deslocada pela particular. Com as exceções habituais, encontram-se, ainda, escolas excelentes, tanto numa como noutra. Entretanto, a perda drástica da qualidade de educação e o sucateamento da rede pública de ensino é a regra. Qualquer que seja o ângulo do qual se examine a educação no País, constata-se que, há muito, ela deixou de ser prioridade governamental. A situação é estarrecedora. Da baixa remuneração e reciclagem dos professores ao estado físico das escolas, suas instalações, equipamentos e serviços de manutenção; e destes à falta de recursos materiais mínimos, como material didático, giz, papel. A tudo isso soma- se a falha estratégica de contemplar o ensino superior em detrimento do ensino fundamental na distribuição das decrescentes consignações orçamentárias. Nesse quadro de abandono e escassez de recursos materiais e humanos, como podem ser estabelecidos currículos e carga horária e adquirido material didático compatível com a formação de profissionais de nível médio e superior em linha com os novos padrões de qualificação demandados pelos novos tempos? Embora não se vislumbre solução aquém do médio e longo prazo, em face da drástica guinada a ser dada ao rumo do ensino, o fato é que o Brasil não pode continuar ignorando o exemplo de países que investiram pesadamente em educação, como os dos tigres asiáticos, liderados pelo Japão. A rapidez com que a informática foi difundida e adotada em todo tipo de atividade requer uma mudança no perfil e na composição da mão-de-obra. Agora, a vaga no mercado de trabalho vai depender da escolaridade, da qualificação, da especialização, da reciclagem constante - da qualidade, enfim - dos recursos humanos. Nesse cenário, as indústrias tradicionais são deslocadas por uma diversificada combinação de atividades de alta tecnologia, tanto na produção de bens como na produção de serviços nas áreas das finanças, de medicina, da cultura, do comércio, dos negócios internos e internacionais. A velocidade da comunicação da informação, através da teleinformática e das "infoways", praticamente eliminou as fronteiras nacionais. As empresas vêm informatizando suas linhas de produção em ritmo crescente, obtendo níveis de produção e produtividade impressionante e perseguindo, ao limite, a redução de custos. Impondo padrões técnicos e de produção, asseguram-se de fontes diversificadas de suprimento de matéria-prima, insumos e componentes finais de alta qualidade e transferem-se para países onde a mão-de-obra seja a mais barata possível. Além disso, dispõem de meios de transporte integrados capazes de levar, em prazos exíguos e em larga escala, sua produção para os mais diferentes mercados em todo o mundo. Nesse processo, buscam a regularidade de resultados num mercado global. Exibem altas taxas de crescimento, mas não geram empregos na mesma proporção. Em muitos casos, promovem sua destruição, notadamente no segmento produtivo. Organizada a produção capital intensiva e poupadora de mão-de-obra de baixa qualificação, sua preocupação, agora, está centrada em novos projetos, na guerra do marketing e na racionalidade do gerenciamento. Inclusive de entrepostos de armazenagem e distribuição de mercadorias, que têm como objetivo último a total satisfação do consumidor. É exatamente aí que estão os melhores empregos. Todos eles requerem dos candidatos a ocupá-los, além de sólida formação acadêmica, permanente atualização e o domínio de sofisticados equipamentos e programas de informática, sobre os quais repousam toda a organização empresarial. Percebe-se que, nesse cenário, a disputa por uma vaga no mercado de trabalho tende a tornar-se, cada vez mais, acirrada. Quem não estiver preparado para nele atuar, corre o risco de integrar as fileiras de vítimas do chamado desemprego estrutural- indivíduos que não se enquadram nas condições de trabalho impostas pelo novo padrão tecnológico que está percorrendo todo tipo de atividade. A crise vivida pela educação brasileira, hoje, é de solução demorada. Até lá, é-lhe impossível formar quadros afins com os novos tempos. Muito provavelmente, os contingentes de formandos despejados pelas escolas, todos os anos, continuarão sendo, rigorosamente e como sempre, selecionados por um exigente mercado de trabalho. Os candidatos que a ele não se ajustarem vão por certo, militar no setor serviços de baixa produtividade, justamente o que mais tem se expandido em todo o mundo, nessa nova era de desenvolvimento da humanidade. Esse panorama de mudanças estruturais profundas, aqui agravado por uma política econômica de ajuste de base recessiva, pode ser a fonte das dificuldades de acesso dos recém-formados ao mercado de trabalho. * Vereador pelo PL em São Paulo.