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Crise da USP resulta em métricas para avaliar o Brasil

Publicado em 01 maio 2017

Alfredo MR Lopes é jornalista e escritor

O que se espera de uma universidade que experimentou e sobreviveu uma crise num país sacudido pelas contrações e mazelas da má gestão? A resposta desta questão está em “Universidade em movimento – a memória de uma crise”, livro organizado por Jacques Marcovitch, ex-reitor e professor da FEAUSP, editado pela Com-Arte com apoio da FAPESP, que será lançado nesta quarta, dia 4, às 11:00, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade.

A obra reúne abordagens de algumas estrelas da instituição, Alexandre Sassaki, Carlos Antonio Luque, José Goldemberg, Luiz Nunes de Oliveira, Nina Ranieri Rudinei Toneto Jr., Sérgio Adorno e Vahan Agopyan que, que se debruçaram criteriosamente sobre a compreensão da crise financeira que atingiu a USP de 2010 a 2013. Guardadas as dimensões e competências, a obra construiu ferramentas do saber para acompanhar, entender e propor saídas para as mazelas da má que atingiu o Brasil.

A obra ultrapassa os muros da Academia e oferece um modelo de avaliação da crise brasileira, pois se trata de uma instituição pública, com um repertório de serviços de oitenta anos, que formou 300 mil profissionais em todas as áreas, soluções de saúde, educação, agronomia, engenharia, num universo de realizações e avanços impossíveis de quantificar.

Desde 2001, a USP disponibilizou para acesso universal todas as teses e dissertações que produz, colocando-se entre as 10 instituições do planeta mais acessadas no mundo digital. Isto é um serviço público feito com os sagrados recursos dos impostos. Qualquer desperdício ou desvio de funções destes recursos fica muito evidente, no mundo acadêmico, o volume respectivo de benefícios evitados. O professor e ex-reitor, José Goldemberg diz: “.É essencial, em tempos de crise, como o atual, que nos esforcemos para esclarecer o Governo e a sociedade da importância da universidade e que os gastos que isto implica são justificados não se confundindo com demandas corporativas, das quais a própria universidade tem de saber se defender”.

Num país em que o déficit primário fiscal para o governo central (governo federal, Banco Central e Previdência) em 2017, está estimado em 139 bilhões de reais, sinalizando o tamanho do rombo nas contas públicas, sem perspectiva de solução no médio prazo, emerge a fragilidade histórica de gestão das finanças públicas.

Em “Universidade em Movimento”, as análises de compreensão da "memória de uma crise" o caos financeiro da instituição significou descaso com os conceitos prosaicos de receita e despesa.

A modelagem de avaliação da crise, presente na publicação, focou :

1. Nos insumos envolvidos: o inventário dos recursos humanos e financeiros e de infraestrutura. No período considerado, o déficit representou R$ 1 bilhão por ano, obrigando a instituição a invadir o terreno de suas reservas.

2. Nos processos que descrevem a depredação do patrimônio e o alcance de seus danos, incluindo corte de investimentos relevantes, perda de resultados, desmobilização de programas e da disposição executiva dos projetos.

3. Nos resultados em forma dos danos representado para a sociedade, sujeito, meta e suporte da instituição, de quem espera por soluções inovadoras e pelo saber que liberta, constrói e contribui para iluminar a governança em sentido mais amplo. Por fim, a metodologia de avaliação sugere a interpretação dos impactos, suas direções, quantificações e sequelas.

Para o professor Marcovitch, autor e organizador da iniciativa, a metodologia dos insumos, processos, resultados e impactos – um passo a passo eficiente para desnudar as contradições do Brasil –, “busca fundamentos orientadores de uma gestão universitária voltada para o ciclo longo, para a conformidade e para a percepção da academia como sistema organizacional complexo”.

Qualquer semelhança com a seriedade e transparência de que o Brasil padece não é mera coincidência e sim uma referencia da contribuição que a USP deve continuar produzindo para o tecido social.