Estudo do IGc-USP e do Inpe prevê queda significativa na recarga hídrica em quase todo o país, com riscos mais severos para Sudeste e Sul
A crise climática global deve comprometer de forma significativa a recarga natural dos aquíferos no Brasil , colocando em risco a principal fonte de abastecimento de mais da metade da população. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), publicado no periódico Environmental Monitoring and Assessment
Utilizando projeções climáticas internacionais do CMIP6, os cientistas analisaram os impactos das mudanças de temperatura, precipitação e escoamento superficial sobre a recarga dos aquíferos entre 2025 e 2100. Os resultados indicam que, em cenários moderado e pessimista de emissões, o país poderá enfrentar uma redução drástica na infiltração da água no solo , especialmente nas regiões Sudeste e Sul . Em alguns aquíferos estratégicos, como o Sistema Bauru-Caiuá, a recarga pode cair quase 28%.
Além da queda no volume de chuvas em determinadas áreas, a pesquisa alerta para uma mudança no regime climático: precipitações mais concentradas em curtos períodos favorecem enchentes e o escoamento superficial, mas não permitem que a água se infiltre no solo e reabasteça os aquíferos. Esse desequilíbrio ameaça sistemas subterrâneos cruciais, como Guarani, Furnas, Serra Geral e Bambuí, que sustentam milhões de pessoas e atividades econômicas em todo o território nacional.
Falta de atenção
Segundo a ‘Revista Galileu', apesar de sua importância estratégica, os aquíferos ainda recebem pouca atenção em políticas públicas ligadas à crise climática. Mais de 112 milhões de brasileiros dependem total ou parcialmente das águas subterrâneas , e em períodos de seca — como a crise hídrica de 2014 a 2016 — cidades abastecidas por aquíferos foram menos afetadas que aquelas dependentes apenas de mananciais superficiais.
O estudo aponta soluções, como a recarga manejada de aquíferos (MAR) , que inclui técnicas de infiltração planejada de água de chuva ou de esgoto tratado no subsolo. Essa prática já é aplicada em países como a Espanha e poderia fortalecer a segurança hídrica do Brasil. “A água subterrânea continua esquecida na discussão sobre mudanças climáticas, mas ela é essencial para a resiliência hídrica do país”, afirma Ricardo Hirata , professor titular do IGc-USP e primeiro autor da pesquisa.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli