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O Serrano

Crime organizado deve ser estudado como sistema globalizado

Publicado em 01 dezembro 2007

O crime organizado é um fenômeno globalizado que cresce principalmente onde há pouca presença do Estado. Se pesquisadores e autoridades quiserem compreendê-lo e combatê-lo, precisarão aprender a atuar em redes internacionais tão eficientes quanto as dos criminosos.

O recado foi dado pelos especialistas que debateram o tema "Crime organizado e terrorismo: perspectivas nacionais e internacionais" nesta quarta-feira (28/11), no Seminário Internacional sobre o Crime Organizado, na Universidade de São Paulo (USP).

O evento foi realizado pelo Centro de Estudos da Violência da USP, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, também conhecido como Núcleo de Estudos da Violência (NEV).

De acordo com Louise Shelley, diretora do Centro de Terrorismo, Crime Transnacional e Corrupção da Universidade Mason, nos Estados Unidos, os pesquisadores da área começam a se articular internacionalmente.

"Os criminosos estão na vanguarda da globalização e suas atividades são cada vez mais transnacionais. Por isso, é fundamental que as pesquisas tenham um enfoque internacional. O intercâmbio científico está aumentando, como mostra este próprio evento", disse Louise.

A pesquisadora atuou em uma série de pesquisas comparativas sobre o crime organizado na década de 1990, abrangendo a Rússia e outras antigas repúblicas soviéticas, alguns países africanos, China, Japão, Tailândia, Itália, México, Colômbia e Brasil.

"Um dos fatores que chamam a atenção é que o uso da violência varia em cada sociedade. Em algumas áreas, como a China, o crime organizado é mais um negócio do que um conflito civil, por isso a violência é mais focada. Na Itália, a violência também tem foco: os criminosos atacam juízes e promotores. Já no México, há execução de famílias inteiras", afirmou.

Segundo Louise, em locais como a Colômbia e países da África as atividades criminosas estão centradas em drogas. No Brasil, na Rússia e nos Estados Unidos há uma grande diversificação de bens, serviços e negócios ilegais.

O tráfico de pessoas é mais pronunciado na Ásia e nos países que faziam parte da União Soviética. "Mas também nos Estados Unidos os imigrantes ilegais que tentam atravessar a fronteira com o México são seqüestrados por quadrilhas que os vendem como escravos", apontou.

As organizações criminosas da Rússia, que ganharam força com o fim da União Soviética, são as mais afeitas à dinâmica globalizada. Os estudos detectaram relações russas com organizações da Colômbia, Japão, China e Itália.

"As ligações do crime organizado com o terrorismo predominam nas regiões de conflito separatista. No ataque a Madri ficou clara a participação de grupos terroristas e organizações criminosas que tiveram contato dentro das prisões. O mesmo ocorre na Tchetchênia. No Brasil, a atividade de contrabando de cigarros aparece ligada a focos terroristas na tríplice fronteira (Brasil, Argentina e Paraguai)", disse.

Para a pesquisadora, a globalização ajudou o crime organizado a prosperar porque esse se desdobra transnacionalmente, enquanto as polícias atuam apenas em seus países. "É muito difícil coordenar as ações das polícias de vários países. Essa é uma das razões do sucesso das organizações criminosas. Mesmo quando os criminosos são de um único país, os produtos, os bens e serviços são transnacionais", disse.


Ouro e drogas

No Brasil, segundo o professor Argemiro Procópio Filho, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), as organizações criminosas internacionalmente articuladas agem com intensidade, sobretudo na Amazônia.

"O crime transfronteiriço se concentrava na região da tríplice fronteira até 2001. Com os atentados nos Estados Unidos, a região ficou extremamente vigiada. O foco hoje está na Amazônia setentrional, principalmente entre o Brasil, as Guianas, a Venezuela e a Colômbia", disse.

Segundo Procópio Filho, as atividades das organizações criminosas nessas regiões não se limitam ao tráfico de drogas: há contrabando de eletrodomésticos e produtos de alta tecnologia, biopirataria, cigarros ilegais, matérias-primas, madeira, ouro e pedras preciosas.

"A região tem pouca presença do Estado, o que a torna mais vulnerável para a passagem de mercadorias. Todas as fronteiras amazônicas se tornaram um autêntico queijo suíço da contravenção", disse.

O cérebro dessas organizações, no entanto, estaria em São Paulo. "Trata-se de uma rede de atividades econômicas ilícitas cujo epicentro é São Paulo, onde está o centro econômico do país. Daqui, esses grupos, infiltrados nos aparatos políticos, coordenam, distribuem, importam e vendem uma variedade cada vez maior de produtos", afirmou.

Na Guiana Francesa, de acordo com Procópio Filho, as organizações criminosas estão envolvidas com a prostituição de imigrantes brasileiros. No Suriname, a ligação histórica com a Holanda facilitaria a entrada de drogas sintéticas.

A Guiana, segundo o professor da UnB, seria a porta de entrada para o tráfico de mercúrio para o garimpo e porta de saída para o ouro brasileiro, destinado ao mercado de jóias na Índia e na China. Maior exportador de móveis do mundo, a China baseia sua indústria em madeira ilegal da Amazônia, com altos custos ambientais.

"O tráfico de ouro e pedras preciosas sempre anda ao lado do tráfico de armas. Seria preciso fazer um trabalho de vigilância acompanhada, para compreender o fluxo desses produtos, mas isso não existe", disse.

Jorge Zaverucha, diretor do Núcleo de Estudos sobre Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destacou que o ponto comum entre as diversas formas de crime organizado e terrorismo é uma preferência por atuar nos locais em que o Estado tem pouca presença.

"Osama Bin Laden instalou sua base de ação no Afeganistão por esse ser um país em que havia ausência do Estado. O mesmo ocorre nas fronteiras da Amazônia ou nas favelas das metrópoles brasileiras. Onde o Estado desaparece, o crime organizado recrudesce", afirmou.

A relação das organizações criminosas com o vácuo de poder, no entanto, é uma das poucas certezas que a ciência ainda pode ter sobre elas, segundo Zaverucha. Para ele, muitas questões básicas permanecem sem resposta.

"É preciso entender como surge o crime organizado. Sabemos descrevê-lo, mas não compreendemos sua origem. Outro ponto fundamental é que não sabemos ao certo por que em determinado momento as organizações criminosas decidem fazer lavagem de dinheiro. Se a atividade ilícita que gerou o dinheiro sujo vai continuar, por que lavar o dinheiro? Tem que haver uma resposta para isso", disse.