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Crianças com problema na fala tem diagnóstico tardio

Publicado em 01 outubro 2009

Por Alex Sander Alcântara

Por Alex Sander Alcântara, da Agência Fapesp

Pesquisa feita na USP, em Bauru, aponta que pediatras diagnosticam e encaminham tardiamente, para fonoaudiólogos, crianças com problemas no desenvolvimento da linguagem.

Um estudo, feito na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP), aponta que grande parte dos pediatras não realiza encaminhamento no período adequado nos casos de crianças que apresentam alterações no desenvolvimento da linguagem.

O trabalho, publicado na Revista Cefac - Atualização Científica em Fonoaudiologia e Educação, investigou conhecimentos e atitudes práticas de pediatras em relação à comunicação oral de crianças. De acordo com Luciana Paula Maximino, uma das autoras do trabalho, a ideia surgiu a partir da experiência na prática clínica.

"Comecei a deparar com muitos relatos de pais sobre o problema dos filhos em relação ao desenvolvimento da linguagem. A maior preocupação é que isso ocorria tardiamente, depois dos três anos de idade das crianças, o que torna a terapia mais longa e custosa", disse Luciana, professora do Departamento de Fonoaudiologia, à Agência FAPESP.

Foram entrevistados 79 pediatras de São Paulo e Minas Gerais que responderam a um questionário com informações específicas sobre conhecimento das etapas do desenvolvimento da comunicação infantil, conduta diante de queixas de alterações da comunicação, encaminhamentos profissionais e método utilizado como avaliação.

O estudo apontou que 93,67% dos entrevistados mostraram "preocupação" com a idade que a criança deve falar corretamente nas consultas de rotinas, mas, no entanto, relataram que usualmente são os pais que questionam sobre o desenvolvimento da comunicação oral.

A procura pelo médico se dá por iniciativa dos próprios pais ou por indicação da escola. "Atraso na aquisição da linguagem e distúrbios fonológicos - como troca de fonemas que impossibilitem a comunicação - são os problemas mais comuns e mais simples", explicou a fonoaudióloga.

Quando a criança apresenta distúrbios mais sérios, dificuldade de interação ou patologia mais grave, os casos são detectados mais rapidamente. Mas, segundo a pesquisadora, os exemplos tidos como simples não podem ser negligenciados.

"Até os três anos, a criança tende a falar 50% de todos os sons da língua portuguesa. É possível entender metade de tudo do que ela fala. Mas esse diagnóstico deveria ser feito antes. O período de um ano, para a criança, em termos de desenvolvimento da fala, é muito tempo", alertou Luciana.

Segundo a fonoaudióloga, por volta de um ano ou um ano e meio, se a criança não começar a produzir nenhum tipo de palavra ou som, os pais podem começar a suspeitar. Mas nem todos os sintomas são sinais, como a gagueira, por exemplo.

"A gagueira não se constitui um problema em si. Crianças que gaguejam é bastante comum nessa fase. Existe um período que é bastante normal", disse.

Os pediatras, segundo o estudo, tendem a encaminhar pacientes para outra avaliação médica especializada, como otorrinolaringologista (45,56%) e neurologista (30,38%), mas apenas 15,19% dos entrevistados relataram encaminhar o paciente diretamente para o fonoaudiólogo.

Quanto aos procedimentos que utilizam durante a consulta de rotina para avaliar o desempenho da comunicação da criança, os pediatras relataram que esses procedimentos dependem da "queixa da família" (37,97%).

O estudo aponta ainda que os pediatras que trabalham ou trabalharam com um fonoaudiólogo, em sua maioria (64%), demonstram maior conhecimento da área, ao passo que os que não trabalham não têm conhecimento abordado.

"O médico pediatra que trabalha com o fonoaudiólogo acaba tendo um desempenho diferente. E nos questionários víamos muito essa diferença em relação àqueles que não tinham esse contato", disse Luciana.

O artigo foi escrito em conjunto com Ana Carulina Pereira Spinardi, Marina Viotti Ferreira, Dionísia Aparecida Cusin Lamônica, Mariza Ribeiro Feniman e Simone Aparecida Lopes-Herrera, da FOB-USP, e por Danielle Tavares Oliveira, do Programa de Bases Gerais da Cirurgia da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista.

Integração entre médicos

Uma das possíveis explicações para a falta de conhecimento dos pediatras em relação ao trabalho dos fonoaudiólogos, segundo a professora do Departamento de Fonoaudiologia da USP em Bauru, esbarra na formação. "Eles apontam que não tiveram nada específico durante a formação que abordasse o conhecimento da linguagem infantil", disse.

Outro ponto seria a falta de informações disponíveis sobre o trabalho dos fonoaudiólogos. "Pudemos perceber pelos questionários respondidos que, mesmo entre os pediatras mais experientes, é comum focar na doença e não se preocupar com questões básicas do desenvolvimento da criança, como na fala, que, a longo prazo, podem ser tão prejudiciais quanto qualquer outro problema de saúde", afirmou.

Luciana conta que muitos dos pediatras entrevistados solicitaram que se divulguem mais dados sobre a atuação dos fonoaudiólogos para que possam agir em conjunto. A ideia é dar um retorno a partir desse diagnóstico.

"Por isso, estamos elaborando um site que contenha informações sobre o desenvolvimento da linguagem infantil e que sirva não apenas para o pediatra, mas também para a orientação de pais e professores", contou.

Luciana destaca a necessidade de projetos multimídias, de acesso mais amplo, que possam possibilitar maior integração entre pediatras e fonoaudiólogos. Ela cita um projeto orientado por ela e recém-concluído, intitulado "Teleducação Interativa em Fonoaudiologia", de autoria da Ana Carulina, que teve apoio da FAPESP na modalidade Bolsa de Mestrado.

"Ana Carulina criou um software para orientar fonoaudiólogos a distância sobre como fazer terapias para o desenvolvimento da comunicação em crianças. O objetivo é atingir um público maior de profissionais e em outras regiões do Brasil", disse.

Para ler o artigo Conhecimentos, atitudes e práticas dos médicos pediatras quanto ao desenvolvimento da comunicação oral , disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), acesse o http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1516-18462009000600017&script=sci_arttext&tlng=pt

(Envolverde/Agência Fapesp)