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Gazeta do Povo online

Criamos um sexto sentido. Uma novidade explosiva

Publicado em 09 janeiro 2011

Por Agência Estado


Miguel Nicolelis, cientista brasileiro

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tec­­nologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da revista Scien­­ce. Na última quar­­ta-fei­­­ra, foi no­­meado mem­­bro da Pontifícia Acade­mia de Ciên­cias, no Vatica­no.

Nicolelis falou à reportagem sobre o impacto da neurociência no futuro da humanidade. Cri­­ticou de forma contundente a gestão científica no país, especialmente em São Paulo. Tam­bém questionou os critérios, marcadamente políticos, que teriam norteado a escolha do mi­­nistro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.


Ele adianta que em breve vai publicar um trabalho descrevendo o envio do sinal de uma má­­quina diretamente ao tecido neu­­ral de um animal, sem me­­diação dos sentidos. Segundo ele, na prática, isso é como criar um sexto sentido.


O que as interfaces cérebro-má­­quina devem proporcionar no futuro?

No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina, com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão às aplicações computacionais. Não usaremos mais teclados, monitores, mouse... O computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão a distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje sobre a evolução. Daqui a três me­­ses, publicarei um livro em que comento esses temas.


O que você chama de curto, mé­­dio, longo e longuíssimo prazo?

Curto prazo são os próximos anos. Médio prazo, as próximas duas décadas. Longo prazo, o próximo século. Longuíssimo prazo, milhares de anos.


Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?

Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de se mover obedecendo ao controle da mente). Outra linha de pesquisa importante é Parkinson. Publica­mos um artigo na Science no ano passado. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com uma doença semelhante ao Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença.


Ainda precisaremos dos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?

Vamos publicar um trabalho em breve descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. Mas posso afirmar que a internet como conhecemos hoje vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o único ou o principal canal de comunicação.


Quais as implicações antropológi­cas e sociológicas no longo prazo?

Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será a mente que determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.


O que você acha da política científica brasileira?

Está ultrapassada. Principalmente a gestão científica. Foi por isso que escrevi o "Manifesto da Ciência Tro­­pical". O talento humano é sufocado por normas absurdas nas universidades. Devemos ter uma carreira para pesquisadores em tempo integral e oferecer suporte administrativo profissional aos cientistas. Mas aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvi­mento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesqui­sa do Estado de São Paulo (Fapesp). Uma tragédia.


Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada.

Sem dúvida. É uma atividade ex­­tremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Há bem pouco tempo, a ciência ainda era uma atividade da aristocracia brasileira.


Como você se vê na Academia?

Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Neste ano, na avaliação dos Institu­tos Nacionais de Ciência e Tecno­logia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Re­­cebemos R$ 1,5 milhão. As pessoas têm medo de abrir a boca, pois vo­­cê é engolido pelos pares.


Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no país?

Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda para conseguir dinheiro, porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque não preenche todos os pré-requisitos ? número de orientandos de mestrado, de doutorado. Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Até agora, ninguém teve coragem de enfrentar o establishment da ciência brasileira. Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica está de mãos atadas. Devemos libertar esse povo.


Você tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no país. Mas, na eleição, manifestou apoio público a Dilma. Por quê?

Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o estado de São Paulo: para a educação, a saúde e as universidades públicas. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que temos hoje na USP é terrível. A Fapesp é uma joia, um ícone nacional, reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas administrações foram boas. Temos de ser críticos. Essa última administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp.


Como você avalia o governo Lula?

Apoiei e apoio incondicionalmente o presidente Lula, porque vivemos hoje o melhor momento da história do país. A proposta global de inclusão do governo Lula, e es­­pero que seja a mesma com a Dil­ma, é aquela em que eu acredito. Contudo, detalhes devem ser corrigidos. Admiro o ex-ministro da Ciên­­cia e Tecnologia, Sérgio Re­­zen­­de. Tivemos grandes avanços com a criação dos INCTs e dos fundos setoriais. Mas o ministro não enfrentou a estrutura. Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no MCT ou para apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas, me­­lhores que eu, também não fo­­ram chamados. Mas fui chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o melhor que já tivemos.


O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?

Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira (um ministério tão importante) virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.

Pesquisador lança metas para a ciência brasileira

Apoiado em seu prestígio, o neurocientista Miguel Nicolelis lançou em novembro o "Manifesto da Ciência Tropical". O documento, disponível na página do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN, cujo site é www.natalneuro.org.br), reúne 15 metas para a criação de um Programa Brasilei­ro de Ciência Tropical.

Boa parte das propostas diz respeito à criação de um audacioso sistema de educação científica no país, que seria oferecido no contraturno dos ensinos fundamental e médio: o Programa Educação para Toda a Vida.

O manifesto também contempla a democratização do acesso à formação científica com a criação de institutos de tecnologia e polos de ciência em regiões com baixo desenvolvimento humano.

O ambiente aparece como uma das prioridades. Em concreto, o documento propõe a criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia, para limitar a agropecuária e o desmate predatório.

Em um tom nacionalista, o texto sugere também a retomada e a expansão do Programa Espacial Brasileiro. Para fazer com que as ideias da academia cheguem à indústria, Nicolelis sugere a criação do Banco do Cérebro, que fi­­nanciaria empreendedores científicos no país.

Fonte: Agência Estado