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Criação rima com precarização

Publicado em 20 março 2008

Por Liliana Petrilli

O objetivo deste trabalho é analisar as relações sociais observadas no mercado e nas relações de trabalho em arte, destacando música e dança. [1] Trata-se de um estudo comparativo Brasil - França, privilegiando as categorias analíticas divisão internacional do trabalho, mercado de trabalho, condições de trabalho e relações de gênero.

Pesquisas sobre o trabalho artístico realizado ao vivo - em música e dança - constituem um campo relativamente recente na França, mas que já conta com relevantes pesquisas e publicações (Menger, 2005 e 2006; Buscatto, 2005; Coulangeon, 2004; Ravet,2005; Lazzaratto; 2006; François, 2005, Wagner, 2006, Lehmann, 2002). No Brasil, trata-se ainda de campo a ser pesquisado, a ser conhecido, poucas análises foram elaboradas sobre o trabalho do artista; mesmo assim, já trazem contribuições relevantes para o campo da sociologia (Mincuk, 2005; Colli, 2007).

A propósito do trabalho do artista

Qual é a especificidade central do trabalho artístico, o que o distingue das outras formas de trabalho? A produção estética, resultado de seu trabalho. O trabalho do artista é freqüentemente analisado privilegiando sua performance ou obra, expressões resultantes de processos de trabalho que possibilitam a interpretação, a criação. No entanto, as relações de trabalho e profissionais, implícitas nestes processos, são pouco analisadas e contextualizadas. A obra é revelada, o trabalho que a elabora é frequentemente silenciado ou ainda pior, ofuscado por idealizações. (Segnini, 2006)

Múltiplas dimensões podem ser consideradas quando analisamos o trabalho do artista, pois significa ao mesmo tempo - expressão artística (criação ou interpretação), realização de um trabalho, exercício de uma profissão. É possível analisar arte - atividade que implica em forte engajamento do artista - como um trabalho e o artista como um trabalhador, reintegrando desta forma, a atividade artística na esfera do trabalho e dos constrangimentos singulares que a constituem no presente. (Rannou e Roharik, 2006). A arte, como salienta Becker já nos seus primeiros e pioneiros trabalhos sobre o trabalho dos artistas, é uma atividade reconhecida, transmitida, apreendida, organizada, celebrada. Como toda a atividade, obedece a regras, a constrangimentos, inserem-se numa divisão do trabalho, em organizações, profissões, relações de emprego, carreiras profissionais (Becker, 2006, p.27).

O trabalho artístico se inscreve também (mas não só) na lógica de mercado e esta vinculação expressa as configurações do próprio momento histórico. As tensões entre arte trabalho e profissão evidenciam que o trabalho que produz arte é submetido a controles criados na esfera da produção do valor, mesmo que os referidos controles sejam justificados em nome da "qualidade artística" e não do valor criado, de difícil mensuração - é verdade -, mas não deslocado da esfera ampliada de acumulação do capital.

A tensão entre arte, trabalho e profissão exprime complexidade na tentativa de compreendê-la, sobretudo o sentido das relações sociais na relação entre produção artística e mercado. Tentar "levantar o véu da produção", desvendá-las, nos leva a recuperar dimensões históricas, indagar como era no passado para melhor compreender o presente.

Este trabalho foi apresentado durante o XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado entre 29/05 e 01/06/2007, em Campinas.

[1] Segnini, Liliana e Souza, Aparecida Neri. Trabalho e Formação no Campo da Cultura: professores, músicos e bailarinos. São Paulo, Projeto de pesquisa FAPESP