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Criação de caprinos e ovinos ignora a crise

Publicado em 17 fevereiro 2009

A criação de ovinos e caprinos é um dos poucos setores do agronegócio que conseguirá passar ao largo da crise financeira global. Segundo Francisco Pastor, diretor da Feira Internacional de Caprinos e Ovinos (Feinco), há espaço para a expansão deste segmento. "Diante da crise, eu estou projetando um crescimento de 20% dos negócios da feira este ano. No nosso setor, quem disser que está em crise, está mentindo", afirma Pastor.

No entanto, segundo o diretor da Feinco, o que falta para o País deslanchar é a organização da cadeia produtiva. Hoje, Uruguai, Nova Zelândia e Austrália são os grandes líderes mundiais de exportação de caprinos e ovinos. No Brasil, apenas 20% desse tipo de carne é produzida em território nacional. Os 80% restantes vêm principalmente do Uruguai.

Pastor ressalta a falta de hábito do brasileiro de consumir cordeiro, mas, por outro lado, alerta de que agora não é o momento para incentivar a demanda interna, porque o País não tem condições, no momento, de atendê-la.

Este ano, a Feinco acontece de 10 a 14 de março, no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo. O evento, de entrada franca, contará com a exposição de mais de 3.500 animais das mais diversas raças e com 14 leilões. No ano passado, a Feinco movimentou, segundo informações de Pastor, entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões. Este ano, a expectativa do diretor da feira é de obter um incremento de 20% nos negócios.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Francisco Pastor ao programa "Panorama do Brasil". Participaram da entrevista, comandada por Roberto Müller, Ana Paula Quintela, do jornal DCI, e Milton Paes, da rádio Nova Brasil FM.

Roberto Müller: A Feinco é tradicional no Brasil. As perspectivas de crescimento do setor se mantêm mesmo com a crise financeira global?

Francisco Pastor: Independentemente da crise financeira, nosso mercado é demandante. Nós temos uma falta muito grande de carne de caprino e de ovino. Importamos 80% do que consumimos. Os outros 20%, produzimos aqui.

Roberto Müller: Os nossos custos internos são competitivos com os produtos importados?

Francisco Pastor: Hoje são competitivos. No entanto, temos a concorrência com o Uruguai, que manda o produto para o Brasil. O lado bom dessa competição é que portas se abriram para o setor uma vez que não tínhamos condições de abastecer outros países. Desde a primeira edição da feira, em 2004, trabalhamos para a organização da cadeia da caprino-ovinocultura, e reconhecemos que ainda falta muito. Mas é importante lembrar que, perto do que era, hoje nós já demos largos passos.

Milton Paes: De outubro para cá, com a crise e o dólar alto, como ficou a questão da importação?

Francisco Pastor: Na nossa atividade, está melhor. Vale ressaltar que a nossa preocupação não é acompanhar a importação, mas o desenvolvimento do mercado interno: o apoio aos criadores junto à Câmara Setorial do governo do Estado de São Paulo e à Câmara Federal.

Roberto Müller: A alteração cambial impactou as importações?

Francisco Pastor: Sim. E abriu a oportunidade para os nossos produtores.

Ana Paula Quintela: Qual é a primeira necessidade da cadeia, hoje, para que ela possa ser integrada e a demanda interna possa ser atendida pelos produtores do País?

Francisco Pastor: Na minha opinião, a maior necessidade é o abatedouro e o frigorífico estarem próximos dos polos de produção. Antigamente, abater um cordeiro ou um cabrito era difícil porque, para conseguir um abatedouro, você tinha de se deslocar muito. Hoje, muitos abatedouros vêm se adaptando. Abatedouros de suínos abatem caprinos e ovinos, mas para isso eles têm de fazer uma adaptação sanitária e cumprir algumas formalidades. Ainda falta muito para a situação ser a ideal. Mas lidamos com um mercado crescente, uma atividade rentável.

Milton Paes: Diante da crise, a caprino-ovinocultura é uma alternativa de negócio a empresários que atuam em diversos segmentos?

Francisco Pastor: Eu acho que é uma excelente alternativa de negócio para empresários que atuam em diversos segmentos. Inclusive para investidores. Muitos criadores médios, por exemplo, não têm capital disponível para fazer uma expansão que acompanhe essa lucratividade. É uma atividade rentável. Dentro dessa crise, nós temos um setor demandante. Nós temos solicitações de exportação.

Roberto Müller: Há uma demanda grande, já posta, suprida 80% por importação. O momento favorece a produção nacional. Falta o preparo e a divulgação do hábito de se consumir carne de ovinos e caprinos para ativar a demanda?

Francisco Pastor: O hábito, ou o incentivo ao consumo, é um pouco perigoso neste momento porque não temos como abastecer esse mercado. Se formos fazer uma campanha forte de incentivo, teremos de importar mais e haverá um custo maior. Em relação ao hábito, hoje, em qualquer churrascaria, é possível encontrar carré ou paleta de cordeiro: o consumo dessas carnes vem aumentando significativamente. Hoje é possível encontrar, em supermercados, hambúrguer de cordeiro de fabricação nacional e de excelente qualidade.

Roberto Müller: Qual é o panorama do setor para os caprinos?

Francisco Pastor: Temos um bom exemplo do segmento de caprinos. Sérgio Arno, proprietário de uma rede de restaurantes conhecida em São Paulo, formou, com um sócio, um plantel de 6 mil cabras, para que essas matrizes forneçam carne exclusivamente aos seus restaurantes. Outro exemplo é o Mario de Castro, dono da Fazenda Campo Verde. O projeto dele é agregar dentro de dois ou três anos 500 mil matrizes de integração. Temos hoje empresários que investem pesado neste setor porque o momento é de oportunidades.

Ana Paula Quintela: Quando o Brasil vai ter condições de atender à demanda e deixar de importar?

Francisco Pastor: Tudo dependerá dos investimentos feitos por empresários, como os que citei. Se os investimentos continuarem no ritmo em que estão, acredito que dentro de três ou quatro anos será possível atender 50% do mercado de consumo interno.

Milton Paes: A carne de cordeiro e de cabrito é cara para o consumo interno?

Francisco Pastor: Não. A carne de cordeiro e a carne de cabrito são extremamente saborosas. Elas são preparadas de uma maneira diferente. O cabrito tem menos gordura, é mais saudável. É um pouco mais cara do que a carne de boi, mas o sabor é muito superior.

Roberto Müller: Quando acontece a próxima Feinco?

Francisco Pastor: A próxima Feinco acontece de 10 a 14 de março, no Centro de Exposições Imigrantes. A entrada é franca. O evento exporá 3.500 animais das mais diversas raças, e nosso objetivo principal é que o evento gere negócios. Teremos também, simultaneamente à feira, um congresso cujo palestrante é Henry Lewis, que foi o organizador da cadeia produtiva da carne de cordeiro na Grã-Bretanha. Além disso, 14 leilões estão programados.

Roberto Müller: Na feira, a comercialização é maior de reprodutores ou de matrizes?

Francisco Pastor: Quem participa do evento leva reprodutores e matrizes de grande valor agregado. Mas temos também a venda de animais que irão gerar carne para ir para o prato: esses animais são levados à feira em grande quantidade, são baratos e o pagamento pode ser parcelado. O importante é que, do empresário ao produtor mais simples, todos possam adquirir um bom animal, e para isso contaremos com financiamento do Banco do Brasil e da Nossa Caixa.

Milton Paes: Quanto a Feinco movimentou ano passado? Quanto espera movimentar este ano?

Francisco Pastor: No ano passado, só nos leilões, foram movimentados mais de R$ 10 milhões; este volume corresponde aos 12 leilões realizados no evento em 2008. Calculo que de uma forma geral, se fizer uma estimativa, eu acredito que perto de R$ 40 milhões a R$ 50 milhões foram movimentados no pavilhão no ano passado. Este ano, esperamos um incremento de 20% nos negócios.

Milton Paes: A feira gera muitos empregos?

Francisco Pastor: A feira vira uma cidade. O evento gera utilização de transporte aéreo e terrestre. Além disso, gera emprego para caminhoneiros, para ajudantes e auxiliares em geral. Se nós colocarmos as contas na ponta do lápis, todos vão querer fazer feira.

Roberto Müller: Qual é a duração da Feinco?

Francisco Pastor: A montagem começa no dia 1º de março e o desmonte termina no dia 16 de março. Então temos 15 dias de evento com pessoas trabalhando e com oportunidades de negócios.

Milton Paes: Qual é a sua estimativa para a Feinco deste ano?

Francisco Pastor: Nós pretendemos atingir um crescimento maior. Nós calculamos uma alta de em torno de 20% - e estou fornecendo números pessimistas. O nosso crescimento ano a ano vinha na casa de 40%, 50%, mas, diante da crise, estou com o pé no chão. Diante da crise, eu estou projetando um crescimento de 20%. No nosso setor, quem falar que está em crise, está mentindo.

Ana Paula Quintela: Todos setores estão envolvidos na feira? Os criadores e também o segmento de rações e de inseminação?

Francisco Pastor: Todos estão envolvidos no evento: contamos com os animais para reprodução, couro, artesanato, jaquetas, produtos e derivados o mais variados possível.

Ana Paula Quintela: Já existe a utilização de inseminação na caprino-ovinocultura, como acontece atualmente com o setor bovino?

Francisco Pastor: Hoje, a inseminação e a fertilização in vitro estão sendo bastante praticadas. Esse segmento, dentro da caprino-ovinocultura, cresceu muito de um ano para cá.

Roberto Müller: No caso do boi, praticamente tudo é aproveitado. Com ovinos e caprinos acontece a mesma coisa?

Francisco Pastor: A mesma coisa. Partimos do mesmo princípio. Com a capitalização, tudo será aproveitado e tudo pode ser utilizado quando falamos de caprinos e ovinos.

Milton Paes: Em nível mundial, qual é o balanço do setor? Do ponto de vista da produção e da exportação, quais são os países que se destacam no cenário internacional?

Francisco Pastor: Quem se destaca na América Latina é o Uruguai, que é o grande exportador. No entanto, o rebanho uruguaio foi reduzido de 50% nos últimos anos, panorama que não configura uma perspectiva muito fácil. Nova Zelândia e Austrália são os maiores exportadores mundiais desse tipo de carne. E, hoje, a Irlanda vem se firmando porque vem se organizando há bastante tempo com produtos de extrema qualidade.

Milton Paes: Esses países também participam da Feinco? Eles mandam representantes?

Francisco Pastor: Às vezes eles entram em contato e vêm em caravanas. Outras vezes, eles vêm sozinhos. Quando nós descobrimos um grupo de estrangeiros na feira, nós procuramos acompanhá-los com a nossa equipe. No entanto, o mais comum são as missões. Este ano devem vir muitas missões da África. Outro fato a ser destacado é que existem alguns grupos de estrangeiros que vieram para o Brasil antes do evento, para fazer outros negócios, e que acabaram aguardando para poder fazer negócios na Feinco. Atualmente, os países árabes são os potenciais compradores de produtos brasileiros do setor. Estamos trabalhando para fazermos alianças.

Ana Paula Quintela: Diante de tantas oportunidades, qual é o nível de exportação brasileira no setor?

Francisco Pastor: Atualmente a exportação brasileira de caprinos e ovinos não é significativa. Não conseguimos ainda cumprir as metas em relação aos volumes de exportação. Estamos vivendo um momento em que a produtividade ainda está avançando no setor.

Roberto Müller: O setor passa por uma situação curiosa: há um momento favorável em decorrência da crise, da valorização do real, mas não se pode fomentar a demanda porque não há produção. Em geral, a expansão de vários setores da economia acontece quando há um fortalecimento da pesquisa. Há apoio à pesquisa genética, à pesquisa tecnológica? Há pesquisa no setor de ovinos e caprinos que possa permitir que se superem essas questões de demanda?

Francisco Pastor: O setor já conta com apoio para pesquisa. No congresso realizado em 2008. esse apoio se fortaleceu. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é um dos exemplos de apoio à pesquisa no setor. No entanto, e mesmo assim, faltam projetos de pesquisa.

DCI - Diário do Comércio & Indústria