Página na Wikipedia, livro, documentário e reportagens mostram que estamos consumindo cada vez mais conteúdos relacionados ao envelhecimento. Nossa maior curiosidade: qual o segredo de quem chega aos 100 anos?
hgDescobri outro dia que a Wikipédia tem uma página que lista, em ordem decrescente do mais velho para o mais novo, as personalidades vivas com mais de 100 anos, reconhecidas por razões distintas da idade.
Cientistas, ativistas, arquitetos, escritores e artistas de todo o mundo estão ali. A egiptóloga francesa Madeleine Della Monica, com 113 anos, está no topo. Depois dela, vem outra mulher, a ativista americana Dorothy Burnham.
O brasileiro Frederico Fischer, nascido em Ribeirão Preto em 6 de janeiro de 1917, é o sétimo nome. Na página em inglês sobre ele na enciclopédia digital fico sabendo que o descendente de alemães é reconhecido como atleta veterano: em 2012, conquistou o recorde mundial Masters M95 na corrida dos 100 metros.
Maria Helena Andrés (103 anos, artista), Pedro Geiger (101 anos, geógrafo), Jackson Nascimento (101 anos, jogador de futebol pelo Corinthians), Manuel Edmilson da Cruz (101 anos, bispo católico), Fernando de Mendonça (101 anos, fundador do Inpe) e Elizabeth Altino Teixeira (100 anos, ativista) completam a lista de brasileiros.
Um dos nomes mais recentes a ser incluído nessa lista é o de Dick Van Dyke, que completou 100 anos em 13 de dezembro passado — depois dele, mais onze nomes já foram adicionados. O ator, cantor, comediante e produtor americano, famoso pela participação no musical Mary Poppins, lançou nos Estados Unidos o livro 100 Rules for Living to 100: An Optimist's Guide to a Happy Life (em português, 100 Regras para Viver até os 100: um guia otimista para uma vida feliz). Em entrevista ao jornal New York Times, Dick compartilha algumas regras: manter-se ativo, dizer sim às coisas novas, ser brincalhão e aproveitar as oportunidades.
Já Mel Brooks, considerado uma das pessoas mais engraçadas da história de Hollywood e que só entrará na lista da Wikipédia em 28 de junho, é tema de um documentário lançado esta semana nos Estados Unidos pela HBO: Mel Brooks: The 99 Year Old Man!. O documentário em duas partes aborda sua trajetória pessoal e profissional, mas também a longevidade e a solidão de ser um dos últimos de sua geração. No capítulo das tristezas, relembra o casamento de mais de 40 anos com a atriz Anne Bancroft, falecida em 2005, e a perda de amigos próximos.
Pode ser impressão minha, mas os centenários estão gerando fascínio popular. O que eles comem? Fazem exercícios? Estão lúcidos? Qual o segredo para superar os 100?
Esse deslumbramento explica a repercussão na mídia do artigo científico Insights from Brazilian supercentenarians, publicado no comecinho do ano por cientistas brasileiros da USP, incluindo a geneticista Mayana Zatz.
Manchetes variaram de “O segredo dos supercentenários brasileiros, de acordo com novo estudo” (O Globo, 07/01) a “Supercentenários do Brasil fornecem pistas únicas sobre como viver mais; conheça algumas delas” (Estadão, 06/01) e “Many Brazilians live past 110: What are their secrets?” (Muitos brasileiros vivem mais de 110: qual é o segredo deles?, na Medical News Today, 13/01).
A pesquisa define que centenários são todos os que têm 100 anos ou mais, semi-supercentenários estão entre 105 e 109 anos, e supercentenários, 110 anos ou mais.
Passa quase despercebida a informação que consta no artigo de que três dos dez supercentenários masculinos com maior longevidade comprovada no mundo são brasileiros — incluindo o homem mais velho do mundo, segundo o Guinness World Records, nascido em 5 de outubro de 1912 (o cearense João Marinho Neto não consta da lista da Wikipedia mencionada acima por ser, digamos, uma pessoa comum). “Uma conquista notável, considerando que a longevidade masculina extrema é significativamente menos comum que a feminina.”
Voltando a Dick Van Dyke, na entrevista à jornalista Jancee Dunn do NYT, ele admite que alguns aspectos do envelhecimento são difíceis, como a perda gradual da visão e o uso de aparelho auditivo. “Quando você chega aos 100 anos, muitas coisas não funcionam muito bem.” Apesar disso, ressalta: “Às vezes, sinto-me como se tivesse 15 anos de novo.”
Entendo nosso fascínio pelos centenários — eu mesma quero seguir os passos de quem já trilhou o caminho que desejo ardentemente percorrer. Mas precisamos lembrar que envelhecer não é fácil, como diz o ator americano.
Se não cultivarmos relações hoje, se não gerenciarmos nossas finanças hoje, se não cuidarmos da nossa mente hoje e se não nos mantivermos ativos hoje, nada do que lemos sobre eles fará diferença. Os cientistas brasileiros provaram nossa resiliência genética, mas ela sozinha não nos levará à página da Wikipédia.