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Cresce a produção científica nas instituições privadas - Universidades públicas, no entanto, ainda mantêm hegemonia (1 notícias)

Publicado em 08 de julho de 2001

Há alguns anos produção científica no Brasil era sinônimo de universidade pública. Mas essa realidade está começando a mudar. Hoje, já é possível encontrar instituições privadas envolvidas em projetos de ponta -como o seqüenciamento e análise de genoma -, montando laboratórios com recursos das agências de pesquisa e formando doutores. No ano passado, as particulares ficaram com 4% dos cerca de US$ 550 milhões que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) aplicou em bolsas de estudo e projetos. A Capes, uma das agências federais de fomento à pesquisa, computou um aumento da participação das particulares no total de publicações em revistas científicas estrangeiras: em 1998, elas respondiam por 5,6% do total; passaram para 6,4% em 2000. Comparados com o números das universidades públicas, o volume de produção das particulares ainda é pequeno. Porém, não se trata de quantidade, e sim de uma mudança de mentalidade que está em curso a qual, na opinião de alguns, poderá ter efeitos positivos para a produção científica nacional. 'Do ponto de vista estatístico, a pesquisa nas particulares ainda é um traço, mas está ocorrendo um processo em curso que poderá ter um impacto interessante' aposta o vice-presidente eleito da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Carlos Vogt. O presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, faz uma análise parecida. Ele classifica como 'inegável' a tendência de crescimento da participação das particulares na produção científica nacional, embora veja limites no processo. 'O mais provável é que algumas instituições se destaquem em nichos específicos.' Mais do que exercício de futurologia, essa previsão já é realidade. As instituições que estão conseguindo algum destaque têm justamente optado por investir em linhas de pesquisa em têm tradição. A Universidade São Francisco (USF), que mantém diversas unidades no interior de São Paulo, começou pela saúde, em que é considerada forte na graduação. 'O importante é ter foco e investir nas áreas em que a instituição tem credibilidade', explica o pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da USF; Marcos Cezar Freitas. Hoje, além do mestrado em ciências farmacêuticas, mantém núcleos de pesquisa em engenharia e educação e possui dez projetos de jovens pesquisadores financiados pela Fapesp. EXPANSÃO DA PRODUÇÃO REQUER MAIS DO QUE INVESTIMENTOS O sucesso das universidades particulares em pesquisa não depende só da boa vontade e do investimento dessas instituições. E necessário que elas tenham fôlego para realizar uma série de trabalhos consistentes ao longo dos anos e formem mestres e doutores - a exemplo do que ocorre nas Universidades públicas, responsáveis pela maioria da produção científica brasileira. 'A produção ainda é muito individualizada, dependente de alguns pesquisadores', diz o diretor de programas Horizontais e Institucionais do CNPq, Celso Pinto de Melo. O vice-presidente eleito da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Carlos Vogt, menciona outro aspecto: para que a pesquisa realizada nas particulares ganhe peso maior no cenário nacional é preciso mudar a estrutura e o perfil do ensino superior privado. 'O ideal seria que as universidades tivessem uma estrutura de fundação, em que o lucro é reinvestido na própria instituição. 'Ele lembra que foi esse modelo que permitiu que as Universidades particulares norte-americanas ganhassem nos Estados Unidos. Apesar do otimismo e da satisfação com os resultados já alcançados, os dirigentes das instituições têm consciência das dificuldades para expandir a produção de ciência. E atribuem parte da responsabilidade às agências de financiamento. E difícil conseguir a aprovação de projetos. O fato de o pesquisador ser ligado a uma instituição particular acaba pesando', conta o diretor de Pós-Graduação da Universidade Cruzeiro do Sul, Luiz Henrique Amaral. GRANDE PROMESSA Maria Gabriela Marinho, formada pela Unicamp e USP, hoje ela coordena o Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da Educação da Universidade São Francisco. Ela também é otimista. 'As particulares são uma promessa de futuro. A universidade pública brasileira está perdendo muita gente boa, está com problemas de infra-estruturar a produção delas. Esse quadro pode prejudicar a qualidade de sua produção', analisa. Quando fazia doutorado, o biólogo molecular Alexandre Hilsdorf achava que só conseguiria emprego se fosse aprovado em um concurso de alguma universidade pública. Seu destino acabou sendo outro: foi contratado pela Universidade de Mogi da Cruzes e hoje faz parte dos núcleos de pesquisa de biotecnologia e de ciências ambientais. Ele não se arrepende da opção e aposta em um futuro promissor. 'Aos poucos, estamos criando um ambiente de pesquisa, sobretudo na graduação. Os alunos das particulares não estão muito acostumados com a idéia de fazer pesquisa, pois muitos trabalhar e estudam', comenta. Ou seja, o que poderia ser um empecilho transforma-se em um desafio e em um estimulo para trabalhar.