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DCI

Cresce a lista de pequenas com pesquisa

Publicado em 15 maio 2003

Por Fabiana Pio
As empresas de menor porte estão contribuindo cada vez mais para o desenvolvimento tecnológico do País. Só no Estado de São Paulo, o número de projetos de pesquisa aprovados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) saltou de 52, em 2001, para 65, no ano passado. Os investimentos públicos cresceram de R$ 6,9 milhões, em 2001, para R$ 9,6 milhões em 2002. Para impulsionar ainda a inovação, a Fapesp estruturou, há dois anos, o Núcleo de Patenteamento e Licenciamento de Tecnologia (Nuplitec), que financia o depósito de patentes no Brasil e no exterior das empresas de menor porte. E neste mês, a instituição recebeu o primeiro resultado em royalties: um cheque de R$ 4,1 mil da pequena Clorovale, que desenvolveu uma broca odontológica com ponta de diamante artificial. "Cerca de 350 dentistas espalhados no País já utilizam esse produto. Já faturamos R$ 117 mil com a broca odontológica, e estamos depositando a patente também nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão", segundo o físico Vladimir Airoldi, diretor da Clorovale. "Essa é uma tecnologia inédita no mundo, que pode ser usada para qualquer tratamento dentário, é muito mais preciso e indolor que a tecnologia convencional", acrescenta. A próxima patente a ser depositada será de um novo produto desenvolvido pela Siporex, que permitirá reduzir em até 50% o custo da matéria-prima para a fabricação da argamassa. A Siporex estabeleceu um consórcio junto à Recicla para produzir industrialmente a nova matéria-prima derivada de escória de alumínio, que substitui o tradicional pó de alumínio e outras substâncias químicas, chamadas espugímeros, para a fabricação da argamassa. "Estamos em negociação com diversas empresas, como Quartzolit, Votorantin e Faial. Acreditamos que o produto estará disponível no mercado nos próximos seis meses", diz Edval Gonçalves de Araújo, um dos sócios do consórcio. Além do apoio às empresas de menor porte, a Fapesp estabelece parcerias com grandes empresas como Embraer, Natura e Rodhia. O número desses projetos tem crescido anualmente. No ano passado, houve 12 projetos aprovados e em 2001, seis. ROYALTIES Os recursos brasileiros remitidos ao exterior referentes ao pagamento de royalties e licenças têm reduzido ao longo dos anos. Em 2000, foram pagos US$ 1,41 bilhão, em 2001 esse número caiu para US$ 1,24 bilhão e em 2002, US$ 1,22. No entanto, isso não significa maior desenvolvimento tecnológico. De acordo com Fernando Ribeiro, economista chefe da Sociedade Brasileira de Estudos das Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeete), essa redução reflete a queda na aquisição de novas tecnologias, devido à atual crise econômica. "Quanto maior o crescimento da economia, maior o pagamento de royalties, estimulado pela compra de novos produtos. É preciso uma política de fôlego para que o Brasil desenvolva-se tecnologicamente, e haja uma real queda no pagamento de royalties", diz o economista. SETORES PRIORITÁRIOS Segundo Ribeiro, os maiores responsáveis pelo pagamento de royalties são as indústrias: de software, química e eletroeletrônica. "Essa política de fôlego poderia ser impulsionada por investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)", diz o economista chefe da Sobeete. INICIATIVAS O Brasil está implantando uma política nacional para a nacionalização dos produtos e substituição das importações. Denominada Rede Brasil de Tecnologia, o programa é financiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e começou a reunir empresas do setor petroquímico. A próxima área será agronegócios. Segundo Marcelo Lopes, coordenador da Rede, o setor petroquímico foi responsável por um déficit na balança comercial de US$ 6 bilhões e o eletroeletrônico, US$ 3,2 bilhões. "A indústria petroquímica utiliza muitos produtos eletroeletrônicos, que serão incluídos na política de nacionalização", diz o coordenador da Rede. IBGE De acordo com recente pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), das 70 mil indústrias, 22,7 mil investem em inovação tecnológica: produtos e/ou processos inovadores. De acordo com Wosmalia Bivar, coordenadora da pesquisa, os setores que mais investem em inovação tecnológica são: petroquímico (0,95% do faturamento), fabricantes de máquinas, aparelhos e equipamentos (1,76%), fabricantes de máquinas para escritório (1,3%), fabricantes de equipamentos para transporte (2,76%). Já os que investem menos em tecnologia são os setores têxtil, de madeira, indústria extrativa e confecção de vestuário. "Tanto as empresas de maior porte quanto as de menor porte citam os elevados custos de inovação, riscos econômicos e escassez de fontes apropriadas de financiamento como os principais entraves para a inovação tecnológica", diz a coordenadora Wosmalia. TENDÊNCIAS De acordo com José Joaquim Perez, diretor científico da Fapesp, o Brasil deve priorizar as linhas de pesquisa onde já detém grande competência. Uma delas seria a biotecnologia, que o País detém vantagens competitivas em relação aos demais países. O diretor destaca a contribuição brasileira para o seqüenciamento do genoma humano, que envolveu equipes de todo o mundo. Entre os projetos que a Fapesp financia, Perez destaca também o BIOTA, que consiste numa rede virtual de 200 pesquisadores paulistas de diversas instituições para estudar a biodiversidade da Mata Atlântica. Há também o Genoma Clínico do Câncer, lançado em dezembro de 2000, que reúne 18 laboratórios a fim de utilizar informações geradas pelo projeto Genoma Humano do Câncer para o desenvolvimento de formas de diagnóstico e tratamento da doença.