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Cidade Biz

Crédito que traz conhecimento e impacto social

Publicado em 23 junho 2016

A trajetória de empresas como a Vivenda, especializada em reformas estruturais para a população de baixa renda, não seria a mesma sem o aporte de recursos de R$ 48 mil de investidores captados pela Artemisia, aceleradora de projetos de impacto social. Mas a injeção inicial de capital não foi o único incentivo. Junto com o dinheiro veio o conhecimento para a formatação e a gestão de um negócio, que logo após sair do papel já estava na mira de fundos de investimentos.

 

Para a maioria das iniciativas, porém, a história é outra.  “Entre o estágio de maturação da empresa e a disponibilização de financiamento há um vácuo na linha do tempo do empreendedorismo brasileiro”, avalia o sócio fundador da Vivenda Fernando Assad. O empreendedor que atua ao lado de outros três sócios – egressos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) – com kits para reformas que podem ser pagas em até 12 vezes, trilhou um caminho, muitas vezes abandonado por outros justamente por falta de informação.

 

Com a ideia de oferecer qualidade de vida ao reduzir condições insalubres no interior das residências populares, a empresa que fica no centro da comunidade do Jardim Ibirapuera, periferia da zona sul de São Paulo, formatou quatro kits para banheiro, ventilação, antiumidade e revestimento. Em um ano, cerca de 100 casas foram reformadas com índice de inadimplência dos moradores de 1,7%, bem abaixo da média de cerca de 5% do mercado, segundo o Banco Central.

 

É algo importante de se observar levando-se em conta que apesar da temática social, a Vivenda é uma empresa que depende dos lucros para sobreviver, como qualquer outra.  “Acima de tudo, a Artemisia nos orientou que modelo de financiamento seria mais adequado a nossa proposta de negócio”, diz Assad, para quem o foco é resolver integralmente a cadeia de processos numa reforma, que vai do financiamento e mão de obra até a compra de materiais e assistência técnica.

 

Se, de modo geral, o crédito para começar um negócio ainda é restrito, opções não faltam.  Replicar experiências bem-sucedidas como a Vivenda também é o papel da DesenvolveSP, agência de fomento do governo estadual, com seis anos de atuação e mais de três mil operações de crédito no valor de R$ 1,8 bilhão em desembolsos concedidos para expansão e modernização de pequenas e médias empresas e melhorias na infraestrutura de municípios. “Nosso papel é ir aonde as outras instituições financeiras não chegam”, diz o presidente da DesenvolveSP, Milton Luiz de Melo Santos.

 

Como alternativa ao sistema privado, a DesenvolveSP funciona com taxa de juros bem abaixo do mercado, de 1% a 5% ao ano, mais correção pelo IPC, além de 10 anos para pagamento.  Mas, ainda assim, independentemente da instituição eleita para se tomar crédito, é preciso escolher corretamente a linha mais adequada às necessidades, alerta Santos. “Não adianta usar crédito de investimento ou cheque especial para capital de giro e vice-versa”.

 

E nem sempre os projetos apresentados chegam com um planejamento e proposta de controle financeiro. Aumento da rentabilidade, geração de caixa e garantia da continuidade para os próximos três anos são a base para todas as decisões, venha lá de onde vier o dinheiro.  O consenso é que o investimento precisa ser tratado como insumo.

 

Para o empresário Fabiano Vieira Vilhena, da Oralls –  que obteve financiamento de R$ 500 mil de subvenção (recursos não reembolsáveis)  da  Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e, de quebra, levou o prêmio regional Finep de Inovação – a concessão ainda esbarra numa mesma questão, que não evolui. “O parecer é demasiadamente crítico. Falta flexibilidade na análise”, diz.

 

Isso porque, avalia, a falta de informação leva muitos bons negócios a serem descartados por falta de didática na apresentação. “Por isso, a troca de experiências, a inspiração vale muito mais nesse processo do que o capital puro e simples”.

 

A Oralls, que nasceu na incubadora do Parque Tecnológico de São José dos Campos, hoje atende a 1,5 milhão de crianças em 400 munícipios brasileiros, e agora está em negociação com países como Austrália, Portugal e Moçambique. O facilitador nesse caso veio da experiência de Vilhena como pesquisador, alinhado às demandas de mercado que precisam caminhar junto com as ideias.

 

Outro obstáculo na busca pelo dinheiro está na falta de oferta de garantias, segundo o gerente da Unidade de Acesso a Mercados e Serviços Financeiros do Sebrae-SP, Gustavo Marques. Para amenizar esse quadro a instituição mantém o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), um instrumento complementar de baliza para financiamentos de pequenos negócios. “Em tempos de crise a régua dos bancos sobe e a oferta de crédito é tal a qual a capacidade do empreendedor em botar no papel tudo que ele tem na cabeça”.

 

Marques recomenda precisão aos detalhes. “Não se pode chegar e dizer que é preciso mais ou menos isso ou aquilo. É preciso dizer a que veio,  a quantia calculada para se realizar tal procedimento e o retorno esperado”, descreve. Manter o nome limpo e um bom relacionamento com o gerente também faz parte das dicas dadas pelo especialista. "Adquirir crédito ainda é uma questão delicada para o pequeno negócio brasileiro e um dos principais entraves para o seu crescimento, pois ele precisa de capital de giro para compra de equipamentos, reformas, entre outros investimentos”.

 

Ciente desse entrave, a Finep lançou o Inovacred, cujo objetivo é  oferecer financiamento a empresas de receita operacional bruta anual ou anualizada de até R$ 90 milhões, para aplicação no desenvolvimento de novos produtos, processos e serviços, ou no aprimoramento dos já existentes, ou ainda em inovação em marketing ou inovação organizacional visando ampliar a competitividade das empresas no âmbito regional ou nacional.

 

Esse apoio é concedido de forma descentralizada, por meio de agentes financeiros, que atuarão em seus respectivos estados ou regiões, assumindo o risco das operações.Em cinco anos, o Inovacred espera financiar cerca de duas mil companhias. No total, aproximadamente R$ 1,2 bilhão será disponibilizado às empresas. A rede de credenciados do Inovacred já conta com 16 agentes em todo o Brasil, entre eles a Desenvolve SP.

 

No BNDES, a saída para driblar a falta de crédito aos pequenos negócios está no Cartão BNDES, que hoje responde por 80% do número de operações realizadas pelo banco. Ao todo, são 700 mil cartões emitidos por meio de instituições financeiras. Cabe a esses bancos parceiros, a análise para liberação do produto, que nada mais é que uma linha rotativa e pré-aprovada para empresas com receita até R$ 90 milhões. O limite é de até R$ 1 milhão por agente emissor, com taxa de juros de 0,99% ao mês e financiamento em até 48 parcelas. “O tíquete médio hoje está em R$ 15 mil”, diz o gerente do Cartão BNDES, Rodrigo Tomassini.

 

Ele explica que o uso destina-se exclusivamente à compra, pela internet, de itens necessários às atividades das PMEs. Os fornecedores são devidamente cadastrados e hoje oferecem cerca de 250 mil itens, que vão de máquinas e equipamentos até móveis e material de construção. No ano passado, foram os recursos utilizados somaram R$ 12 bilhões e a expectativa inicial para este ano é de R$ 13 bilhões. Já houve crescimento de 15% no bimestre em relação a igual período de 2013. “Como o crédito é aprovado há uma demanda maior em tempos de restrições econômicas porque é mais difícil obter recurso por meio de outras linhas”, conta Tomassini. Na crise de 2009, o volume emitido saltou de R$ 800 milhões um ano antes para R$ 2,4 bilhões. Movimentação parecida pode ocorrer agora.

 

Com informações da C&S.