Notícia

Jornal da Tarde

Cratera vira bairro na Zona Sul

Publicado em 06 julho 2008

Por Marici Capitelli

Cientistas pesquisam queda de meteorito na Capital. Local pode virar pólo turístico

Dez bombas atômicas jogadas ao mesmo tempo em um único lugar. A Capital já passou pelo impacto dessa experiência quando, provavelmente, um meteorito caiu na Zona Sul da Cidade. O resultado da queda desse corpo celeste elevou a temperatura em torno de 5 mil graus e abriu a cratera de Colônia, em Parelheiros.

O fenômeno raro na América do Sul aconteceu entre 5 e 35 milhões de anos atrás. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) trabalham agora para comprovar os dados cientificamente e chegar, inclusive, à idade correta desse patrimônio natural paulistano.

Durante anos, a cratera ficou entregue à própria sorte e acabou sofrendo uma ocupação desordenada e degradação ambiental - o contrário do que ocorreu em países como Estados Unidos e Alemanha. Lá também há crateras, que são pontos turísticos.

Os especialistas acreditam que a cratera paulistana, depois de ter sua origem comprovada também tem potencial para se transformar em ponto turístico sustentável e gerar desenvolvimento econômico. A Prefeitura também aguarda a confirmação científica para ampliar o trabalho de preservação ambiental que vem sendo feito na região.

A cratera de Colônia tem um diâmetro de 3,6 quilômetros. A profundidade chega a cerca de 400 metros. Quase 70% da área, segundo os estudiosos, está ocupada. São quase 40 mil pessoas vivendo dentro dela, numa ocupação que recebeu o nome de condomínio Vargem Grande.

O geólogo Victor Fernández Velasques, pesquisador da cratera há três anos e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, diz que a confirmação científica é fundamental.

“É um patrimônio natural importante que precisa ser preservado e que pode ser desenvolvido para o turismo ecológico, gerando renda local e ampliando a consciência ambiental das pessoas”, diz.

Victor diz ter “99% de certeza” de que realmente a cratera de Colônia é resultado da queda de um meteorito. “Mas precisamos ter 100%”, pondera. Em sua opinião, o estudo vai precisar a idade do fenômeno. “O que temos hoje é um espaço muito amplo de tempo (de 5 a 35 milhões de anos)”.

Desde o ano passado, as pesquisas na cratera estão sendo feitas com a verba de R$ 197 mil repassada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre as várias etapas do trabalho, o professor e os alunos já recolheram 180 amostras de material retirado do local.

Uma parte disso será enviada para análise em um laboratório canadense. O resultado do estudo vai ser apresentado de maneira extra-oficial em um congresso de Geologia em outubro, em Curitiba (PR).

O geólogo da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, Osvaldo Landgraf Júnior, define o lugar da cratera como “ímpar”. “De maneira alguma é uma formação corriqueira”, afirma. Embora também acredite que tenha ocorrido a queda de um meteorito, o geólogo afirma que a confirmação científica é fundamental.

“Com essa comprovação, a área vai ganhar visibilidade mundial”. Em sua opinião, isso vai afetar diretamente os moradores que ocupam a cratera. “A população também vai entender a importância desse patrimônio.”

Mas será preciso compensar os prejuízos. Além da ocupação desordenada, a região sofreu a devastação ambiental. A área chegou até a abrigar um presídio. Em 2003, foi tombada pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de SP). “O comprometimento ambiental é muito maior. O que a gente consegue ver é apenas o impacto visual”, avalia o professor.

Período

Meteorito teria 400 metros

Um corpo celeste atingiu a Zona Sul de São Paulo, onde hoje está o bairro Vargem Grande, em um período que pode ir de 5 a 35 milhões de anos atrás. De acordo com alguns estudos, o meteorito teria cerca de 400 metros de diâmetro

10 bombas atômicas. Esta foi a quantidade de energia do choque

Terra escura

Bairro possui solo morto, diz moradora

A cratera tem 3,6 km de diâmetro. Até hoje, a terra apresenta uma cor muito mais escura que a normal

400 metros é a profundidade média da cratera, onde hoje há casas

Ocupação

Bairro é desordenado

Cerca de 70% da área da cratera está loteada. O bairro Vargem Grande, em processo de regularização desde 2000, tem 86 ruas e infra-estrutura como linhas de ônibus, escolas, creches, base comunitária e uma emissora de rádio

40 mil pessoas vivem no bairro onde fica a cratera Colônia

Moradores temem novo meteoro

A rádio comunitária Cratera - sucesso absoluto de audiência entre os moradores do condomínio Vargem Grande - sempre aborda para seus ouvintes o bairro de características tão atípicas. O objetivo é conscientizar os moradores da importância da preservação ambiental e histórica.

Só que, preocupados com a sobrevivência diária e com medo de remoção, os moradores de Vargem Grande não se interessam muito pelo assunto. No imaginário popular, a preocupação é outra: será que outro meteorito pode voltar a cair no mesmo lugar?

Mãe de cinco filhos e morando na cratera há 15 anos, a dona de casa Adenita Silva Santos, de 34 anos, diz que quando ouve assuntos da cratera costuma parar para escutar. “Não entendo o motivo desse lugar ser diferente. Quero mesmo é saber se o negócio que caiu no passado pode cair de novo aqui no bairro”. Enquanto vive com essa dúvida, Adenita tem outro medo, esse mais concreto. “A Prefeitura fala que vai remover algumas famílias daqui. Eu tenho medo de perder a minha casa.”

Xerife - esse é o apelido de um dos moradores mais antigos da cratera. Ele é Antonio Fernando Barbosa, de 61 anos, que trabalha como voluntário na associação de moradores, vistoriando as matas para evitar ocupação e a caça.

“Falam que foi um meteorito que caiu do céu. Mas esse assunto interessa muito mais aos cientistas e às pessoas de fora do que aos próprios moradores.”

“Só sei que foi um negócio de milhões de anos. Nada mais.” A afirmação é de Edílson Costa de Jesus, de 44 anos, o Edinho, morador que é conhecido por apanhar as muitas cobras que aparecem no Vargem Grande.

Ele fez até uma caixa de madeira para transportá-las. E já levou cobra no ônibus para entregar no Instituto Butantã. “Não tem perigo de escapar”, jura. A mulherada da vizinhança logo brinca: elas dizem que preferem o meteorito que uma cobra solta no ônibus.

Embora existam três escolas dentro da cratera, os jovens se mostram desinformados sobre o assunto e a importância do bairro.

“Gosto muito desse tema, mas só tive informações quando estava na 4ª série. Depois, os professores não falaram mais”, diz Diego Santos Barbosa, de 13 anos, aluno da 7ª série. “Nunca aprendi sobre a cratera”, afirma Rayane Angeli da Silva Chagas, também de 13 anos.

Terra preta

O Vargem Grande nasceu há quase 20 anos resultado do movimento de moradia que se fortalecia na Cidade. Na época, os novos moradores não sabiam da peculiaridade da área e foram se instalando. Tanto é que a área ainda está em processo de regularização.

“O que nós sempre notamos é que a terra era muito mais preta do que em outras regiões, e também parece um solo morto”, conta Marta de Jesus Pereira, de 44 anos, vice-presidente da Associação Comunitária Habitacional de Vargem Grande (Achave).

Com uma comunidade organizada, o bairro foi ganhando estrutura. Hoje, possui escolas, creches e linha de ônibus. Mas grande parte das ruas ainda é de terra. Nos dias de chuva, vários pontos se transformam em lamaçal.

Opiniões

“Não entendo o motivo desse lugar ser diferente. Quero mesmo é saber se o negócio que caiu no passado pode cair de novo aqui no bairro” (Adenita Silva Santos, dona da casa que mora na região)

“Falam que foi um meteorito que caiu do céu. Mas esse assunto interessa muito mais aos cientistas e às pessoas de fora do que aos próprios moradores” (Antonio Fernando Barbosa, antigo morador do bairro)

Cidade alemã inspira subprefeito de Parelheiros

Olhando de cima, elas são semelhantes. Mas a preservação e ocupação urbana são completamente diferentes. A cratera de Ries, em Nördlingen, na Alemanha, foi formada há 15 milhões de anos e tem cerca de 24 quilômetros. É estudada desde 1790.

Assim como a da Colônia, as pessoas moram dentro dela, só que toda a área é preservada e tratada como patrimônio. Com 20 mil habitantes, a cidade está na rota turística da região da Baviera. Existe até o museu da cratera.

O subprefeito de Parelheiros, Walter Tesch, visitou a cratera alemã em novembro do ano passado. Voltou animado. “Além de um museu muito bem estruturado, eles fizeram pesquisas da impacto da cratera em vários aspectos”, contou.

Segundo ele, é preciso concluir o processo de regularização do bairro Vargem Grande. “Nós tempos que potencializar a cratera, ou seja, fazê-la um instrumento de desenvolvimento da economia local.”

A criação de um museu na cratera de Colônia está sendo estudada. Para isso, vêm sendo feitas ações na tentativa de desativar o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Parelheiros, que fica na região. Um albergue para visitantes e pesquisadores também é cogitado.