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Covid: por que é normal os anticorpos diminuírem um tempo após a vacinação

Publicado em 19 julho 2021

Por Gustavo Cabral - Colunista do VivaBem

Recebo muitas mensagens e tenho visto vários comentários e publicações nas redes sociais de pessoas, geralmente profissionais da saúde, dizendo que, mesmo vacinados, não têm anticorpos contra o coronavírus (ou que apresentam um nível muito baixo dessas células de defesa).

Num desses casos, viralizou o vídeo —que não vou compartilhar aqui para não ajudar na disseminação de conteúdo que é um desserviço à sociedade— em que um médico diz que a "vacina não presta", pois os resultados de um possível exame para detectar anticorpos contra o coronavírus mostram que o nível dessas células de defesa estava baixo em seu organismo.

Esse tipo de (des)informação não contribuiu em nada para o controle da pandemia, ainda mais vindo de um médico. É algo esdruxulo, que leva à população ao medo e prejudica a vacinação em massa. O vídeo, inclusive, parece uma estratégia de marketing para conquistar seguidores e/ou pacientes "em busca de exames de anticorpos", já que a filmagem é bem direcionada ao slogan do médico e da sua clínica.

Falar que uma vacina "não funciona" por causa do nível de anticorpos detectados em um exame de rotina é algo muito simplório, se tratando de um sistema tão complexo e excelente como o nosso sistema imunológico. Existem diversos fatores para fazer com que as vacinas funcionem no curto, médio e longo prazo.

Para avaliar a capacidade da vacina, não basta apenas analisar o nível de anticorpos, pois o sistema imune tem muitos outros componentes que nos protegem de doenças

Por exemplo, no vídeo desse tal médico, ele não diz quando foi que ele tomou a vacina. E o tempo é muito importante para essa questão —logo mais vou explicar. Ele também diz que tem "só" de 10% ou 20 % de anticorpos contra o coronavírus. Mas esse percentual é comparado a quê? O que seria 100%? Quando a pessoa está infectada com o vírus causador da covid?

É normal a produção de determinados anticorpos não estar "a 100%" o tempo todo. Ou você acha que nosso sistema imunológico seria tão burro de trabalhar a todo vapor o tempo inteiro, fabricando o máximo de anticorpos para todos os vírus, bactérias e outros micro-organismo a que ele já foi exposto um dia na vida e criou mecanismos de defesa? Isso geraria um gasto de energia excessivo e desnecessário.

Vamos usar um exemplo prático com uma situação do nosso dia a dia. Digamos que você foi assaltado em um determinado lugar e horário. No momento do ocorrido, seu nível de estresse certamente ficou muito alto. Mas, depois, o nível de estresse baixa e fica o trauma e a lição sobre o que aconteceu. Você aprende como reagir para evitar que o problema ocorra novamente —no caso de um assalto, nunca devemos reagir, mas você vai entender que precisa evitar passar ali naquele horário, pois é perigoso. Sabe como se chama isso? Memória.

Como nosso sistema imunológico é a mesma coisa Ele tem uma memória e é exatamente isso que uma vacina quer estimular: a memória imunológica. Se depois do assalto você ficasse para sempre com o nível de estresse elevado para se proteger de uma nova ocorrência, sua saúde física e mental não suportariam. Mas a memória do que ocorreu não gera esse alto estresse e ajuda você a se proteger.

Assim acontece com a resposta imunológica após um estímulo vacinal. A vacina "ensina" o sistema imune a gerar resposta forte para combater ao corpo estranho (nesse caso a vacina), por exemplo, produzindo anticorpos e ativando outros componentes do sistema imune que vão nos proteger.

No entanto, algum tempo depois, o sistema imune volta a se estabilizar (homeostase). Mas ele já "aprendeu" como combater aquele invasor. Em alguns casos, ainda é preciso dar um estímulo a mais para que essa lição fique na memória —é por isso que algumas vacinas necessitam de duas doses, um novo estímulo para que a informação de como combater o agressor não se perca.

Como falei, ao ser assaltado, você vai ter o cuidado de não passar naquele lugar no mesmo horário. E, se depois de um tempo você se esquecer, voltar a passar lá e sofrer uma nova tentativa de assalto (a segunda dose), vai guardar a ocorrência na memória e não passará mais ali naquele horário. Sua memória vai evitar um problema futuro. Além disso, você pode investir em outras formas de proteção, como acionar a polícia.

Pois é, com o nosso organismo funciona assim também. Além da memória imunológica de como produzir anticorpos para combater um vírus ou bactéria quando somos expostos a ele, nosso sistema não conta só com anticorpos e tem outros "policiais".

Dessa forma, volto a falar, depois de algum tempo, após a vacina estimular o sistema imune e a gente desenvolver memória imunológica, a tendência é que o nível de anticorpos baixe a um nível basal, em que alguns anticorpos ficariam circulando em nosso corpo, mas não em alta concentração. E teremos as células de memória para que, caso entremos em contato com o corpo estranho, nesse caso o coronavírus, a resposta imunológica (produção de anticorpos) seja tão rápida que não permita que o vírus se espalhe em nosso corpo e desenvolva a covid-19.

Como saber se a vacina funciona?

Se é natural que o número de anticorpos diminua, como saberemos se a vacina vai funcionar ou não com o tempo? Bom, é exatamente para isso que são feitos inúmeros estudos antes, durante e após a vacinação. Para saber por quanto tempo a vacina contra a covid-19 vai nos proteger, por exemplo, temos que esperar essas análises científicas serem concluídas.

A avaliação da memória imunológica não é uma técnica tão simples e fácil de padronizar e detectar. Justamente por isso, não é com qualquer teste de rotina, às vezes barato e feito em farmácia, que você saberá se uma vacina funcionou ou não (temos estudos que mostram que elas funcionam e são seguras!).

Detectar células de memória requer um cuidado laboratorial muito grande. Por isso, tenhamos cuidados em propagar informações que possam atrapalhar o controle da pandemia e gerar ainda mais terror na sociedade. Não podemos sair falando ou compartilhando coisas sem entender sobre o assunto, nem obter informações de charlatões que buscam ganhar algo ($$$) em cima disso tudo.

Repito, vacinas funcionam. Uma prova disse é que o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) aponta que 99% das mortes no país no mês de maio por causa da covid ocorreram em pessoas que não estavam totalmente vacinadas (com as duas doses, nos casos de imunizante que exigem isso).