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Covid: pesquisadores brasileiros investigam como doença ataca os rins

Publicado em 10 setembro 2021

Por Ivana Sant'Anna

Estudo revela que células infectadas se duplicam causando desequilíbrio nas funções renais. Casos graves precisam de diálise

Cientistas brasileiros estão tentando descobrir como a Covid-19 ataca os rins. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) publicaram um artigo na revista Frontiers in Physiology sobre o tema e afirmaram que o estudo deve alavancar as pesquisas que medem a atividade do vírus no sistema renal.

O levantamento, que tem como objetivo buscar um tratamento eficaz para os efeitos graves da doença nos órgãos, mostrou que o novo coronavírus permite que a pessoa volte a se infectar com o Sars-CoV-2 a partir da interação com a enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2, na sigla em inglês). Com a atividade, as células infectadas se duplicam, causando desequilíbrio nos sistemas que regulam a pressão arterial e em outros que atuam em diversos processos no organismo.

O desequilíbrio pode levar a uma diminuição do fluxo sanguíneo nos rins, prejudicando a filtragem do sangue e a taxa de filtração glomerular (TFG), alterando a capacidade dos órgãos de eliminar substâncias por meio da urina. Além disso, segundo os pesquisadores, o comprometimento da função biológica da ACE2 aumenta a contração dos vasos sanguíneos, sobrecarregando os rins.

A primeira autora do artigo, a pesquisadora Nayara Azinheira Nobrega Cruz, afirmou à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que um dos tratamentos utilizados para a disfunção renal provocada pela Covid ainda é a diálise, ou seja, a filtragem do sangue.

“Estudos e revisões sistemáticas confirmaram a incidência de 20% a 40% de lesão renal aguda em pacientes com Covid-19. Agora estão sendo publicados dados mostrando que, em alguns casos, a recuperação é mais lenta e em outros há sequelas, necessitando de diálise para esses pacientes”, disse a cientista.

Uma das orientadoras da pesquisa, Dulce Elena Casarini, declarou à Agência Fapesp que, se os casos de doenças renais causadas pela Covid-19 aumentam, a procura por transplantes também crescerá. “Se há um aumento agora pela procura de diálise, no futuro poderemos ter demanda maior por transplantes”, revelou.

Demanda por transplantes

O aumento dos casos de Covid também estão impulsionando a demanda de tratamento em outras especialidades. No caso dos pacientes renais, a fila de espera por transplantes só aumenta.

Segundo dados do Ministério da Saúde, entre os anos de 2017 e 2019, o número de transplantes de rim era de quase seis mil. O número de pacientes aumentou nos últimos anos: passando de 28.351 para 29.554.

De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, divulgado em março deste ano, a lista de espera para transplante renal cresceu 5,8%, enquanto o ingresso em lista caiu 32%.