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Covid e disfuncionalidade cerebral | Colunistas

Publicado em 24 fevereiro 2021

Por João Scarabel

A pandemia do coronavírus, pelo SARS-CoV-2, iniciada no ano de 2019 e prolongando até os dias atuais, já tirou mais de 2 milhões de vidas ao redor do mundo. O vírus se mostra ser mais que um simples agente infectante das vias aéreas superiores, causando repercussões inflamatórias sistêmicas e atingindo diversos órgãos, e, dentre eles, o cérebro, segundo pesquisas recentes.

Dessa maneira, é importante a compreensão da fisiopatologia de infecção desse agente no Sistema Nervoso Central e quais as possíveis repercussões desse acometimento cerebral para os pacientes em longo prazo, para uma melhor abordagem e seguimento dos mesmos.

Coronavírus e sistema nervoso central (SNC)

Já é sabido o potencial infeccioso do SNC pelo coronavírus. Desde o surto do SARS em 2002, pelo SARS-CoV, já havia sido encontrado o vírus em cérebro de pacientes infectados. Assim sendo, imaginou-se que o SARS-CoV 2, da mesma forma que o SARS-CoV, poderia ter o mesmo potencial infeccioso e ser responsável por sintomas gustativos e olfativos persistentes.

O estudo “Magnetic Resonance Imaging Alteration of the Brain in a Patient With Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) and Anosmia” (Letterio S. Politi et al) já mostrava a presença de hiperintensidade cortical no giro reto direito e no bulbo olfatório, demonstrando o acometimento do SNC em pacientes com a doença aguda. Então, 28 dias após essa primeira ressonância, os pacientes apresentaram normalização da hiperintensidade cortical, porém apresentavam uma menor densidade no bulbo olfatório e um afinamento do mesmo, podendo ser responsável pela anosmia pós-infecção – e além disso, inferiu-se que o vírus atinge o SNC a partir das vias olfatórias.

Infecção do SNC e funcionalidade neural

Como dito e comprovado, vírus acomete o SNC, e isso abre um grande espectro de possíveis consequências para sua funcionalidade. Os danos ficam restritos às alterações sensitivas como a anosmia? Esses danos podem causar uma piora cognitiva ou sintomas neurovegetativos? Novos estudos, ainda em desenvolvimento, apontam que sim, podem.

Muitos pacientes que tiveram a doença e se recuperaram relatam uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos, como redução da capacidade de memorização, dificuldade de concentração, sonolência diurna e também ansiedade (relatado por 41,9% de 642 pacientes com sintomas persistentes de pós-infecção, sendo a média de portadores de ansiedade no país igual a 10%), como mostra o estudo “SARS-CoV-2 infects brain astrocytes of COVID-19 patients and impairs neuronal viability”.

O estudo citado acima mostrou que o vírus infecta os astrócitos do cérebro, células responsáveis pela sustentação dos neurônios, pela regulação de substâncias potencialmente danosas aos neurônios, e fazendo uma depuração de neurotransmissores da fenda sináptica, dentre outras funcionalidades vitais para os neurônios. Essa análise foi feita por estudo com imuno-histoquímica, pelos professores Thiago Cunha e Alexandre Fabro, da FMRP-USP, com o cérebro de pacientes que vieram a óbito pela doença. Esse método utiliza anticorpos para marcar antígenos virais no tecido a ser estudado, causando mudança de coloração do anticorpo. Assim, se pergunta: lesões dos astrócitos infectados podem cursar com alterações importantes na funcionalidade do SNC?

Na tentativa de responder à questão levantada acima, foram realizadas ressonância magnética dos voluntários do estudo (81 pacientes com RT-PCR positivo para COVID e sem necessidade de hospitalização) e comparadas a dados de 145 pessoas não infectadas e hígidas. Os resultados, a priori, mostram que sim: lesões astrocitárias podem cursar com alterações importantes na funcionalidade neuronal.

Visando as possíveis alterações do funcionamento cerebral, o estudo mostrou uma diminuição da sincronização cerebral durante algumas atividades: um cérebro saudável é seletivo, e enquanto utiliza uma determinada área para uma dada função, ele “desliga” outras áreas, deixa elas em repouso. Dessa forma, ele é capaz de realizar suas tarefas com o menor gasto energético possível. Porém, nos pacientes com sintomas neuropsicológicos pós-infecção, mostrou-se que há um prejuízo dessa capacidade sincronizadora do cérebro, ou seja, várias áreas ficam ativadas em um mesmo momento, fazendo com que se aumente o aporte energético para realizar as tarefas pelo paciente, da mesma forma que reduz a capacidade de realizar e manter a atenção.

Fisiopatogenia

Agora, entendendo as alterações funcionais do cérebro, vem uma pergunta crucial: por quê? Como a lesão dos astrócitos podem causar tais alterações na funcionalidade neuronal? A reposta para essas perguntas ainda está sendo analisada, mas o mesmo estudo traz algumas pistas que podem auxiliar no entendimento.

Um outro braço do estudo “SARS-CoV-2 infects brain astrocytes of COVID-19 patients and impairs neuronal viability” mostrou que existe uma alteração na expressão de proteínas que são expressas nos astrócitos. O professor Paulo Saudiva (FMUSP) analisou as proteínas expressas nos astrócitos infectados e mostrou uma redução das mesmas em relação a astrócitos saudáveis. Ainda pôde inferir uma alteração no metabolismo energético dessas células – ocorre maior consumo de glicose nos astrócitos infectados, tentando manter um aporte energético para os neurônios em detrimento de sua própria sobrevivência, o que não ocorre de maneira totalmente eficaz: o cultivo de neurônios com astrócitos infectados levaram a uma maior mortalidade neuronal.

Então, conclui-se que a infecção dos astrócitos leva, ainda que indiretamente, à mortalidade neuronal aumentada. Com a redução das vias neuronais disponíveis, há a possiblidade do cérebro ativar outras vias simultaneamente, gerando uma hiperconectividade, a fim de restabelecer a comunicação nas áreas afetadas, levando à perda de sincronização das áreas cerebrais, como dito no tópico acima. Essa é uma hipótese levantada pela pesquisadora Clarissa Yassuda, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Como já era sabido, o SARS-CoV 2, assim como o SARS-CoV, infecta o sistema nervoso central, mais especificamente os astrócitos. Dessa forma, tal infecção leva a alterações pós-infecciosas de cunho neuropsicológico, como redução da concentração e memorização, ansiedade e sonolência, mesmo nos casos leves e oligossintomáticos da doença. Porém, ainda não se sabe ao certo se essas alterações são reversíveis e autolimitadas, com recuperação total dos pacientes acometidos ou se têm um caráter permanente, sendo necessária a continuidade dos estudos longitudinais para uma análise mais apurada desses casos.

Bibliografia:

Letterio S. Politi, MD,; Ettore Salsano, MD; Marco Grimaldi, MD – “Magnetic Resonance Imaging Alteration of the Brain in a Patient With Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) and Anosmia”, JAMAnetwork, 2020. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamaneurology/article-abstract/2766765

Lourenço, Ingrid; Nardelli, Mateus Jorge; Shiomatsu Gabriella; Ninomiya Vitor; Carvalho, Ricardo Tadeu de. Morte por COVID 19: como ela ocorre?

Crunfli, Fernanda et al. SARS-CoV-2 infects brain astrocytes of COVID-19 patients and impairs neuronal viability, 2021; Agência FAPESP. Disponível em: