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Covid chega a lares de idosos em São Paulo; funcionários relatam desespero

Publicado em 04 maio 2020

O novo coronavírus chegou às casas de repouso de São Paulo. Segundo dados do Ministério Público, obtidos exclusivamente pelo UOL, há 15 óbitos confirmados por covid-19 em lares de idosos no Estado, oito mortes suspeitas, ainda não confirmadas, e 75 idosos contaminados pelo vírus. Além disso, 29 pessoas estão com suspeita da doença e aguardam a confirmação do teste. Os dados, diz a instituição, são referentes a 55 unidades de São Paulo —as outras 1190 não apresentaram informações.

Só no Lar Betel, unidade em Piracicaba, no interior do Estado, oito pessoas morreram por covid-19. O Ministério Público instaurou um procedimento de fiscalização para apurar as medidas tomadas pela instituição para evitar uma catástrofe ainda maior. Na capital, a corrida contra o tempo não tem sido diferente: quem não se antecipou tem sofrido com o desespero de pacientes e familiares.

É o caso da enfermeira Luísa*, de 50 anos. Ela conta ao UOL que, na casa de repouso particular em que trabalha, na zona sul da capital, já são cinco os infectados entre os 50 moradores da unidade. A primeira paciente a ser diagnosticada com covid-19 foi, justamente, a mulher de 92 anos de quem Luísa cuida.

"Eu tenho contato direto com ela, fico sempre muito perto. Quando começaram os primeiros sintomas, eu que a acompanhei até o hospital e fiquei lá até o diagnóstico. Deu positivo. Ela ficou internada por dez dias, e eu, dez dias em casa, com uma das piores sensações que já tive. Uma mistura de medo e ansiedade. Não fui testada, então não sabia se tinha ou não", diz Luísa.

Assim que a paciente teve alta, Luísa recebeu a ordem de que voltasse para o trabalho —mesmo sem ter sido testada. Dos familiares da idosa, ouviu que não deveria informar ao espaço que a paciente havia sido diagnosticada com covid-19. Ignorou. "Na clínica, trato, diretamente, com outros idosos além dela. Lá, não tem EPI suficientes: só máscara de descarte rápido e capa de chuva, para que usemos no lugar do capote. Eu comprei, com meu dinheiro, a máscara n95, álcool em gel e luva. Não posso arriscar".

Segundo Luísa, o clima dentro da casa de repouso em que trabalha é de pressão, desespero e tristeza —tanto por parte dos funcionários como dos próprios pacientes. As visitas foram proibidas, por ora, então os poucos idosos que ainda encontravam os parentes não os veem mais. "Alguns já começaram a ficar deprimidos de tanta solidão. Mesmo os que não recebiam familiares eram visitados por voluntários, então tinham sempre companhia. Todos os dias, eles perguntam quando vão poder ver as pessoas de novo. E estranham nossa vestimenta, cobertos dos pés à cabeça".

O mesmo acontece na casa de repouso Asilo Cidade dos Velhinhos Santa Luiza de Marilac, mantida pela ONG Filhas da Caridade de São Vicente de São Paulo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Nele, há quatro pavilhões com 59 idosos. A irmã Agda explica que a casa perdeu alguns funcionários para os hospitais de campanha construídos na cidade —outros saíram porque a casa precisou reduzir o salário dos profissionais em 25%, além de a carga horária ter sido reduzida em 20%.

"A gente também sobrevive de doações, e elas caíram muito com o coronavírus. Apesar de a clínica ser particular, o valor pago pelos idosos é menor que um salário mínimo, portanto insuficiente para bancar os custos", diz.

Agda conta que condutores escolares da região que estão sem trabalho começaram a ajudar com a parte da cozinha e de limpeza. "Eles nos ajudam a cortar legumes, preparar refeições, fazer compras… Têm ajudado muito. Ainda assim, precisamos de EPI, máscara, álcool em gel", conta. Na instituição, as visitas também foram proibidas.

Segundo o estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) feito pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo), o número de idosos que residem nas instituições credenciadas pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS) é de, aproximadamente, 80.000. Ainda assim, o número total de idosos que vivem nesse tipo de moradia, incluindo públicas, filantrópicas e particulares, pode chegar a 300.000 pessoas.

Antecipar para prevenir

A rede DG Senior, em Santo André, no ABC Paulista, tem três casas de repouso em que moram 60 pessoas. Até o momento, nenhum paciente apresenta sintomas de covid-19, e os cuidados para que a estatística se mantenha assim foram redobrados. O segredo, conta a chefe de enfermagem Marcella dos Santos, foi antecipar o isolamento.

Marcella afirma que as visitas foram suspensas em 14 de março, antes mesmo de o governador de São Paulo, João Doria, decretar quarentena no Estado. "Antes da pandemia, as visitas aconteciam presencialmente todos os dias. Quando as notícias sobre o novo coronavírus começaram, suspendemos imediatamente. Para evitar que os idosos fiquem deprimidos, fizemos uma marca de distanciamento no chão: familiares e pacientes podem conversar pelo portão, mas a uma distância segura".

"Quando os familiares não podem vir, fazemos chamada de vídeo para que as visitas continuem acontecendo", conta. Os funcionários da rede não atuam em nenhuma outra unidade de saúde e, para evitar a contaminação nas casas, entram pela entrada de serviço e já trocam de roupa ali mesmo. É feita a higienização e a paramentação. "Todos estamos usando máscara, avental, luva e touca", diz.

De acordo com a enfermeira, a parte mais difícil do processo foi fazer os pacientes entenderem o que acontece aqui fora. "É curioso porque percebo que muitos não estão com medo da doença, mas preocupados com os familiares. Eles têm a sensação de estarem protegidos lá dentro, mas sentem a família vulnerável aqui fora. Quando ficam cabisbaixos e dizem que é de saudade, a gente faz chamada de vídeo, dobramos as atividades, então estamos conseguindo mantê-los sãos".

Instituições públicas

A Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo informa que, até o momento, nos 564 equipamentos na rede de assistência social aos idosos, que acolhem 18.203 e mantém 12.831 funcionários, não houve nenhum caso confirmado para covid-19.

"Todo funcionário com suspeita de diagnóstico é devidamente afastado sob medidas de isolamento em sua residência e a Secretaria acompanha seu quadro clínico, fornecendo todo o suporte necessário para sua recuperação", afirma, em nota.

"Nos casos suspeitos entre os acolhidos, o paciente é isolado no próprio equipamento, em local adaptado para tal fim e a Vigilância Epidemiológica local é contatada. Os funcionários em contato com o paciente devem usar mecanismos de proteção padrão, como máscaras e luvas descartáveis. Se confirmado o diagnóstico, além de continuar seguindo os procedimentos indicados, o idoso será mantido em isolamento na enfermaria durante todo o período de tratamento e, em caso de agravamento, transferido para atendimento hospitalar."