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Covid-19: filantropia e o investimento em pesquisa

Publicado em 06 maio 2020

Por Marcos Kisil | Jornal da USP

A pandemia de covid-19 apresenta grandes desafios políticos, científicos, sociais, econômicos e de saúde pública. A limitação dos efeitos da pandemia mostra duas facetas: uma relativa aos cuidados necessários que se espera dos serviços de saúde, e outra relativa a como minorar os efeitos econômicos, principalmente nas camadas mais vulneráveis da sociedade. Assim, o objetivo deste artigo é entender o papel da filantropia em apoiar o desenvolvimento científico por meio de pesquisa acadêmica para enfrentar essa pandemia.

O que aprendemos com a filantropia de risco

Os riscos sociais e pessoais trazidos pela pandemia podem nos ajudar a rever como a filantropia se encontrava mais preparada, e mais ágil, para colaborar com a sociedade brasileira. Publicamente temos informação de que mais de 4 bilhões de reais já foram doados, e a este valor pode ser somado os valores feitos e não computados de inúmeras iniciativas para mitigar a questão econômica de famílias por meio de distribuição de cestas de alimentos, distribuição de marmitas, de produtos higiênicos e outros. Isso demonstra o forte senso de solidariedade da sociedade brasileira. E nessa filantropia também encontramos o que denominamos de filantropia de risco.

Essa filantropia tem se desenvolvido particularmente nos últimos 30 anos, quando elementos de caráter cultural, econômico ou mesmo antropológicos passaram a entender os problemas sociais por meio de óticas disciplinares novas para o setor, na quais conhecimentos e métodos permitem um melhor entendimento da situação-problema que deve ser objeto de alternativas de solução. E uma das razões do êxito dessa abordagem foi entender que os problemas – e propostas de soluções sociais – são complexos, podendo resultar de diferentes fatores que de maneira sinérgica produzem um determinado resultado ou impacto sobre uma população. Dessa maneira, é comum encontrar propostas de soluções não testadas anteriormente, seja pela novidade, seja pela complexidade. Essas possíveis soluções apresentam riscos que devem ser entendidos, estudados e incorporados pelos doadores.

E esses filantropos dispostos a correr riscos têm certas características que explicam seu comportamento.

Primeiro, são profissionais que geralmente fizeram a sua riqueza valorizando o empreendedorismo, e todos os riscos que lhe são inerentes. E aqui despontam os filantropos do Vale do Silício e suas apostas no universo da informática. Segundo, ao fazerem análise do problema no qual querem se envolver, e buscar possíveis soluções, aprenderam a identificar, analisar e conhecer esses riscos antes de qualquer ação. Terceiro, aprenderam a exercitar o apetite de risco, ou, em outras palavras, quais riscos estão dispostos a aceitar e que necessitam ser estudados para que se tenha meios de minorar ou eliminar seus impactos. Quarto, aprenderam a cercar-se de profissionais também para suas atividades filantrópicas. Quinto, querem estar próximos da implantação de sua filantropia, já que acreditam que esta atitude pode resultar em novas aprendizagens para a causa ou organizações apoiadas, mas também para o desenvolvimento de sua própria filantropia.

O DNA: do capitalista de risco para o filantropo de risco

Compreender o DNA da filantropia de risco pressupõe o entendimento da sua relação com o capital de risco. O capital de risco proporciona a fonte subjacente da riqueza e da socialização profissional da maioria dos filantropos de risco.

Os capitalistas de risco têm por atividade identificar startups promissoras e investir nelas. Assumem normalmente uma perspectiva sistêmica: combinar várias novas empresas numa só carteira para reduzir o risco do investimento individual. Isso implica distribuir seus recursos de capital para várias organizações, que também têm outros doadores. Os capitalistas de risco apoiam um processo de crescimento claramente definido, com o objetivo de desinvestirem dentro de um determinado período de tempo. Assim, as organizações agraciadas com suas doações sabem que têm um compromisso de entregar o que prometeram com os recursos recebidos, no tempo devido e com o impacto que se anteviu.

Esses doadores tentam traduzir suas experiências de capitalistas de risco em sua filantropia de risco. Assim, é possível identificar duas características do capital de risco que são traduzidas para a filantropia de risco:

Um sentido apurado de oportunidade. Eles contribuem com capital enquanto os “investidos” contribuem com o saber fazer e com a estrutura para realizar o que se pretende com a doação. Na qualidade de gestores de recursos, os filantropos de risco têm um sentido apurado de oportunidade, como uma das suas competências-chave. Oportunidade aqui entendida em como identificar um problema que aflige a sociedade e que tem chance de ser resolvido por uma solução técnica, e que tenha o potencial de impactar favoravelmente a qualidade de vida dos beneficiários. Para tanto acredita que investir num projeto-piloto possa alavancar novos recursos para levar os seus resultados a escala, ou seja, por meio de sua disseminação e provocação, levar a uma nova política pública para atingir e beneficiar toda a sociedade. Um claro entendimento sobre a ciclicidade do investimento. O filantropo de risco entende a doação como uma operação cíclica, tendo começo, meio e fim. Para tanto desenvolve um processo de trabalho que inclui as seguintes etapas: pesquisar o problema que será o foco de sua atuação; identificar possíveis parceiros, sejam eles doadores ou organizações já ativas na busca de soluções; engajar-se por meio do relacionamento interpessoal e interinstitucional para conhecer experiências, motivações, interesses comuns; avaliar as chances de êxito e os riscos do empreendimento, bem como planos de evitá-los ou minorá-los; monitorar e avaliar os processos, produtos e impactos; e finalizar sua participação apoiando a organização receptora a ter sucesso e assim se credenciar a novos projetos que, por sua vez, passarão por um novo ciclo.

A relação entre o filantropo de risco e a pandemia da covid-19

Revisando o apoio dado pelos filantropos nesta epidemia de covid-19 encontramos que os recursos estão sendo direcionados para a compra de equipamentos médicos, especialmente respiradores, e montagem de novas unidades de tratamento intensivo e hospitais de campanha; compra de equipamentos de proteção individual (EPI); compra de cestas básicas para as populações mais vulneráveis; e campanhas educacionais para incentivar o distanciamento social.

Porém, se buscarmos conhecer o que estão fazendo os filantropos de risco, especialmente fora do Brasil encontramos propósitos de doação bastante diferentes. Aqui vão alguns exemplos:

O Open Phil, fundado por Dustin Moskovitz, cofundador do Facebook, é uma das poucas organizações filantrópicas que se concentrou em financiar pesquisas científicas para novas vacinas e soluções terapêuticas destinadas a possíveis pandemias. Gates, juntamente com o Wellcome Trust e a Mastercard do Reino Unido, fizeram uma doação de US$ 125 milhões com a criação do Covid-19 Therapeutics Accelerator, um esforço colaborativo de acelerar a avaliação de medicamentos novos e reaproveitados para tratamento da covid-19.

Esses exemplos mostram que os filantropos de risco atuam em áreas importantes para a pandemia: vacinas e possíveis medicamentos. Esse tipo de doador não é comum no Brasil. Daí a importância do surgimento de provocações à participação desses possíveis doadores. Este é o caso da Universidade de São Paulo com o lançamento do Programa USP Vida.

O programa lançou uma campanha de doação para apoiar pesquisas sobre vacinas, medicamentos, desenvolvimento de testes, higienização, equipamentos e logística. Assim, a pergunta é: quem seriam esses doadores?

Mais recentemente surgiram duas entidades privadas de filantropos que têm como um dos focos o apoio à pesquisa. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), fundado pelo economista Armínio Fraga, com a missão de contribuir para o aprimoramento das políticas públicas do setor de saúde, com especial atenção ao uso da pesquisa econômica.

O segundo caso é o Instituto Serrapilheira, fundado por João Moreira Salles, com o objetivo de financiar pesquisas em produção de conhecimento em ciências naturais (ciências da vida, geociências, física, química), ciência da computação e matemática.

Sabemos que o Brasil não tem nenhuma tradição em doar para pesquisa, e especialmente em saúde. A pesquisa é vista como uma função fundamental da universidade, que recebe os recursos de organizações estatais como CNPq e Fapesp. Essa escassez de doadores para a pesquisa muitas vezes reflete a visão ideológica de que o financiamento da universidade pública deve vir obrigatoriamente do Estado. Essa inexistência de uma cultura de doação se contrapõe à sua importância, especialmente nos Estados Unidos e Inglaterra, onde doações totalizam bilhões de dólares, como em Harvard, Yale, Oxford.

Assim, o que deveria fazer a USP?

Sabemos que pesquisa é uma área de risco para qualquer investidor, especialmente para um filantropo. Por essa razão, um caminho estratégico é procurar filantropos de risco. Assim, é importante saber como encontrá-lo, persuadi-lo e fazer dele um coparticipe dos riscos.

A captação deve ser feita de maneira sistemática, e se inicia com a criação de um banco de possíveis doadores. A seguir deve se estabelecer uma estratégia de aproximação e negociação. Para tanto é necessário documentar o problema a ser pesquisado, a relevância e aplicação do resultado a ser gerado, seus mecanismos de avaliação para saber sobre os impactos sobre os beneficiários. E, principalmente, a capacidade instalada para a unidade realizar a pesquisa.

Lembrar que esse filantropo está à procura de oportunidades para aplicar seus recursos, buscar resultados de impacto e que deseja ser tomado como um parceiro do empreendimento que está financiando.

Um bom início é conhecer os empreendedores que fazem parte do “clube dos unicórnios”, denominação que se dá a um startup que atinge valor de mercado de 1 bilhão de dólares. No Brasil temos casos como Loggi, Arco Educação, iFood, Nubank, Gynpass, Movile.

Outro possível grupo são as empresas prestadoras de serviços de saúde como United Health (dona da Amil), Grupo D´Or, Notre Dame, Unimed, DASA e as empresas de seguro-saúde onde despontam o Itaú e o Bradesco. Elas já estão doando para serviços de saúde melhorarem a sua capacidade de resposta frente à pandemia. Estariam propensos a entender a necessidade de pesquisa.

Finalmente, este esforço resultante da pandemia deveria ser tomado como parte de um movimento para uma cultura de doação à universidade pública. Isso requer um plano de comunicação e valoração da doação à pesquisa.

Marcos Kisil, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP