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Covid-19: Estudo revela influência de idade e sexo no perfil clínico dos pacientes

Publicado em 20 agosto 2020

Por Yonara Santos

Um estudo revelou a influência da idade e sexo em perfis clínicos das pessoas que contraíram o novo coronavírus. De acordo com o Estadão, foram analisados cerca de 179 mil exames laboratoriais, sendo 33,2 mil deles de pessoas com diagnóstico confirmado. A pesquisa foi apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e divulgada na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

Segundo os autores, os achados podem servir de referência para os profissionais de saúde que estão atuando no combate contra a pandemia. “O vírus SARS-CoV-2 pode desencadear um amplo espectro de manifestações clínicas, variando de doença assintomática ou leve a doença grave e morte. Os parâmetros laboratoriais também variam muito de acordo com a idade e o sexo do paciente e, muitas vezes, os médicos têm dificuldade para interpretar os resultados dos exames e identificar uma alteração significativa. Esperamos que este trabalho possa ajudar nesse processo de avaliação”, diz o professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), Helder Nakaya.

“Manifestações extrapulmonares estão associadas a alterações nos níveis circulantes de diversos parâmetros bioquímicos, como bilirrubina, ureia, creatinina, mioglobina e fatores de coagulação. E ainda pouco se sabe sobre a influência do sexo e da idade do paciente no padrão desses parâmetros”, explica o médico Bruno Andrade, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Bahia) e coautor do artigo.

Nas análises, a infecção pelo novo coronavírus foi associada a alteração de diversos parâmetros laboratoriais em indivíduos entre 13 e 60 anos, sendo mais frequente em homens do que em mulheres. Já em pessoas com mais de 60 anos, as alterações laboratoriais se manifestaram de maneira igual entre os dois gêneros. Indicadores usados para avaliar a presença de inflamação sistêmica mostraram um padrão de alteração na presença da Covid-19, especialmente em homens acima dos 60 anos. Os resultados sugerem que o alto índice de complicações e mortalidade documentado nesse grupo em outros estudos pode ter associação direta com a inflamação sistêmica desregulada.

Alteração em testes de função hepática foi observada em vários grupos etários, exceto em mulheres jovens. Para os autores, os dados indicam que a disfunção hepática é comum na Covid-19. “Essa observação é importante, pois o fígado é um órgão central e coordena a produção de uma série de proteínas e outras moléculas que regulam processos como inflamação e coagulação. Alterações hepáticas podem ser um fator determinante para o descontrole de inflamação sistêmica associada a desfechos clínicos mais desfavoráveis”, explica o médico.

Ao avaliar a contagem dos diversos tipos de leucócitos no sangue, os pesquisadores observaram que concentrações baixas de basófilos e de eosinófilos (células importantes para a imunidade antiviral) foram mais frequentes nos idosos que contraíram o vírus, independente do gênero. Os homens com diagnóstico confirmado da doença apresentaram as maiores concentrações de neutrófilos – que tendiam a aumentar ainda mais com a idade. De acordo com Andrade, valores altos na contagem de neutrófilos são um indicativo de inflamação sistêmica aguda.

Já nos pacientes internados em UTI, os pesquisadores notaram alterações importantes em exames que avaliam o sistema de coagulação sanguínea, contagem mais elevada de neutrófilos e maiores concentrações de marcadores de inflamação sistêmica e de dano celular e tecidual. “Esses resultados sugerem uma clara associação entre a gravidade da doença e a ativação descontrolada de processos inflamatórios que possivelmente desencadeiam coagulação. O gatilho inflamatório da atividade de coagulação é uma hipótese relevante, pois implica que o controle terapêutico pode ser otimizado por meio de terapia anti-inflamatória. Porém, ainda são necessários estudos futuros desenhados para testar diretamente essa ideia”, afirma o pesquisador.

O grupo coordenado pelo professor analisou mais de 200 parâmetros laboratoriais dos pacientes da amostra. Entre eles, contagem completa de células sanguíneas e dosagem de eletrólitos, gases no sangue arterial, enzimas hepáticas, hormônios e biomarcadores de inflamação. Esses exames fazem parte da rotina de investigação clínica de pacientes com suspeita da Covid-19 ou outros tipos de doenças infecciosas. Foram usados dados de pacientes que fizeram teste para a Covid-19 nos laboratórios do Grupo Fleury do país, no Hospital Albert Einstein ou Sírio-Libanês, localizados em São Paulo.

O pesquisador conta que o primeiro passo foi separar os grupos de pacientes considerando principalmente a idade, o sexo e o resultado do teste. Em seguida foram filtradas as informações em comum nos centros médicos, eliminando redundâncias e harmonizando dados discordantes como nomenclaturas diferentes para o mesmo exame. Após o processamento das informações em um banco de dados, foi feita uma série de análises para traçar o perfil laboratorial da Covid-19 nos grupos de pacientes e compará-lo com os indivíduos que fizeram os mesmos exames mas não tiveram diagnóstico confirmado.

As informações sobre o decorrer dos casos da maioria dos pacientes não estavam disponíveis. Assim, não era possível saber se o paciente precisou ser internado, se morreu ou teve apenas sintomas leves e se recuperou. Mas parte dos dados cedidos pelo Hospital Sírio-Libanês foi identificada como pacientes internados em UTI. A sinalização possibilitou a investigação do perfil laboratorial das pessoas que precisaram de cuidados intensivos como ventilação mecânica. Também foi possível a comparação com os pacientes não internados.

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