Notícia

Jornal do Brasil

Covas cumpre a lei e ciência em SP avança

Publicado em 30 julho 2000

O simples cumprimento da lei pelo governador Covas, repassando 1% da receita do estado à Fundação de Amparo à Pesquisa, fez o Brasil despontar no cenário mundial da biogenética, e seus estudos sobre genoma se destacam na revista Nature e no The New York Times. Em 1999, a fundação teve verba de R$ 542,5 milhões, uma das maiores do país. (Página 17) FAPESP NA LIDERANÇA DA PESQUISA NELSON SILVEIRA SÃO PAULO - O Brasil é o país da biogenética. Parece uma pilhéria, mas não é. Combinando vontade política do governo estadual e uma capacidade científica, construída principalmente ao longo das duas últimas décadas, a Fundação de Amparo à Pesquisa do listado de São Paulo (Fapesp) está colocando o país na linha de frente do desenvolvimento científico e tecnológico mundial. Financiando projetos de ponta que investem tanto na pesquisa fundamental quanto na aplicada, a instituição e a rede de cientistas ligados a ela conseguiram a façanha de colocar o Brasil nas manchetes da imprensa internacional. O seqüenciamento do genoma de uma bactéria, Xylella fastidiosa, realizado no âmbito de um dos principais programas da fundação, o Genoma, virou capa da conceituada revista Nature e ganhou destaque nas páginas de The New York Times a Tlw Economist. Este semanário inglês de economia anunciou, em sua edição da semana passada, que o Brasil agora "é o país do samba, do futebol e do genoma". "Criou-se no Brasil uma capacidade de fazer ciência e tecnologia que nem mesmo os brasileiros sabiam. Não temos de ser bons só em samba ou futebol, como disse a Economist. Nós podemos ser bons em atividades intelectuais desafiantes também", diz o professor Carlos Henrique de Brito Cruz, com a autoridade de quem comanda a Fapesp há cinco anos e é um dos responsáveis pelo sucesso da entidade. Arrecadação - Criada pela Constituição Paulista de 1947, a Fapesp só foi oficializada por lei e iniciou suas atividades 15 anos depois. Concebida com o objetivo de apoiar a geração de conhecimento no estado, a fundação, no início, atuava como um empreendimento quase familiar, sustentada pela verba de 0,5% da arrecadação do estado. Graças ao empenho da comunidade científica paulista e do patrimônio que foi constituindo ao longo dos anos, a entidade cresceu e se solidificou. A transformação em um empreendimento profissional e o crescimento quantitativo da Fapesp só aconteceu, no entanto, na última década, graças ao aumento da dotação de 0,5% para 1% da receita do estado, garantida pela Constituição Estadual de 1989. Com mais dinheiro, a entidade conseguiu fazer crescer expressivamente seu patrimônio e o investimento em pesquisas. De 1990 a 1995, o dispêndio da instituição aumentou mais de quatro vezes. Na segunda metade da década, com a renegociação da dívida do estado e a recuperação da receita, em velocidade superior ao crescimento econômico, a Fapesp tornou-se a instituição de fomento á pesquisa mais importante do país. No ano passado, foram aplicados R$ 542,5 milhões, valor quase dez vezes superior ao do primeiro anu da gestão Mário Covas, 1994, que foi do R$ 67,6 milhões. O detalho que mais da metade dos investimentos do ano passado foram realizados com recursos próprios. Mas as mudanças não se limitaram ao aspecto quantitativo. A Fapesp ampliou também seu foco, deixando de enfatizar apenas os projetos individuais para estimular programas de relevância social e econômica e fomentar o desenvolvimento tecnológico. "Passamos a olhar complementarmente, a estimular a aplicação do conhecimento em conformidade com os tempos atuais", ainda o professor Brito Cruz. Daí surgiram programas como o apoio à pesquisa voltada para a melhoria do ensino público, a parceria universidade-empresa e o apoio aos jovens pesquisadores. "Trouxemos cérebros para São Paulo. Mais de 500 jovens já foram beneficiados. O objetivo é descentralizar a pesquisa científica, com novos atores estabelecendo laboratórios", explica o professor Brito Cruz. Esse movimento foi acentuado em 1997, com a criação de um programa de apoio às pequenas empresas inovadoras, que até hoje já beneficiou 120 empresas, e com o Projeto Genoma, que reúne 62 laboratórios em todo o estado em torno do seqüenciamento genético de bactérias responsáveis por pragas agrícolas. Pilares - Os pilares do sucesso da Fapesp, sustenta seu presidente, são três. A fundação criou condições para a realização das pesquisas, seleciona muito bem o que vai apoiar, através de um elaborado sistema de avaliação dos projetos, e reuniu uma comunidade científica com capacitação internacional. "O mérito principal é das três universidades públicas paulistas. USP, Unicamp e Unesp, e do desenvolvimento de programas de apoio do governo federal. Nos anos 70 não seria possível fazer o Genoma. Hoje, o país forma 5 mil doutores por ano", ressalta Brito Cruz. Na ponta da maior transformação científica e tecnológica já vivida pelo país, a instituição não se descuida, no entanto, da ciência fundamental. "Qualquer que seja a área que entrar na moda daqui a dois anos, a gente só vai ter a chance de participar de verdade se tivermos boa ciência fundamental naquela área", conclui. COVAS LEMBRA QUE SÓ FEZ SUA OBRIGAÇÃO SÃO PAULO - O governador Mário Covas (PSDB) recusa-se a capitalizar o sucesso da Fapesp, cujo crescimento nos últimos anos foi acelerado pela recuperação financeira do estado, que renegociou sua dívida cora a União e incrementou a arrecadação de impostos. O novo cenário, além de ampliar a verba repassada para a fundação, permitiu a transferência do dinheiro em dia, algo que o estado tinha dificuldades em fazer antes. "Não tem nada de extraordinário. É recurso vinculado, não fiz mais que minha obrigação. A Fapesp que tem uma gerência muito boa", desconversa Covas. Para o governador, a combinação entre a capacidade administrativa da entidade e a excelência dos pesquisadores são os responsáveis pelo retorno obtido nas pesquisas, "acima da expectativa". O secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo, o deputado federal José Aníbal (PSDB), braço direito de Covas, não esconde que a vontade política do governo estadual de investir no desenvolvimento científico foi importante no crescimento. Mas ressalta que isso não mudou a qualidade e o rigor do trabalho da entidade. Aníbal e o governador, que gosta de dizer que é sócio da Fapesp, afirmam que o diálogo permanente com a instituição e sua autonomia, além dos recursos vinculados à arrecadação, são as alavancas do modelo vitorioso da fundação. "A entidade é autônoma na gestão de seus recursos. Não é vinculada à política pública do momento e os recursos são bem geridos. Os cientistas ficam orgulhosos de estar prestando serviços ao governo", afirma Covas. Indagado sobre o exemplo que São Paulo poderia dar a outros estados, o governador tem a resposta na ponta da língua: "São Paulo é precursor. O governo deu à fundação o status que seus cientistas têm. Para construir instituições similares nos outros estados é preciso mexer com a coisa do financiamento. A estruturação de fundos de recursos pode ajudar a criar coisas semelhantes. É preciso também incentivar parcerias". "XYLELLA" VIRA A GAROTA-PROPAGANDA DNA da bactéria foi decifrado em apenas dois anos Danielle Nogueira O seqüenciamento da Xylella fastidiosa foi concluído em janeiro de 2000. Em pouco mais de dois anos, o microorganismo deixou de ser apenas a bactéria que ataca laranjais e provoca a praga do amarelinho para ser o primeiro fitopatógeno a ter seu genoma (conjunto de genes de um ser vivo) seqüenciado. O feito representou mais que a ordenação das 2,7 milhões de bases que constituem o DNA da bactéria. Trouxe novas perspectivas para a agricultura brasileira e transformou a Xylella na garota propaganda da Fapesp. Já foi identificada a função de metade dos genes do microorganismo. Isso permitiu aos pesquisadores concluir que a bactéria não fabrica carboidratos. Para poder se alimentar, ela se aloja nos tubos da planta que transportam a seiva. Baseados nesta informação, os cientistas podem alterá-la geneticamente, de forma que não cause mais prejuízos às plantas. Pesquisas sobre a saúde humana também se beneficiarão da descoberta. Os cientistas identificaram os genes que codificam as proteínas responsáveis pela adesão celular. Até então, genes com esta função só haviam sido identificados em bactérias que infectam humanos e animais. Isso sugere que os mecanismos de infecção humana e vegetal são semelhantes. O sucesso da pesquisa levou a Fapesp a se aventurar em outras áreas da genômica (arte de seqüencial genes). Em 1999, lançou mais três projetos: o Genoma Humano do Câncer, o Genoma da cana-de-açúcar e o Genoma da Xanlhomoihis axonopodis pv citri, bactéria causadora do cancro cítrico. Desde então, o genoma do câncer, projeto realizado em parceria com o Instituto Ludwig, se tornou a nova menina dos olhos da fundação. As promessas são de identificar os genes expressos em tumores. Por enquanto, os pesquisadores estão voltados para os de maior incidência no Brasil: mama, colo de útero, estômago e cabeça e pescoço. Os 150 cientistas que integram o projeto já seqüenciaram 500 mil pedaços do DNA. A meta é geral 1 milhão de seqüências até 2001. É o segundo maior banco de genes humanos do mundo. Nova meta é o projeto aeroespacial SÃO PAULO - A preocupação em apoiar projetos com relevância socioeconômica foi fundamental para a criação do programa de incentivo ao desenvolvimento aeroespacial, projeto com dotação de R$ 60 milhões a serem investidos em seis anos, que ajudou a garantir a instalação da nova fábrica da Embraer em São Paulo. A unidade será instalada em Gavião Peixoto, pequeno município dominado por laranjais na região de Araraquara, no Nordeste paulista. São Paulo venceu a disputa com Minas Gerais, Paraná e Bahia. O programa da Fapesp. que vai financiar projetos de pesquisa da empresa, fundamentais para o desenvolvimento da nova família de aviões regionais e de jatos militares da Embraer, e o terreno de 600 alqueires foram os trunfos de Covas. Com a chegada da Embraer, a região, que tem três universidades fortes (Unesp de Araraquara, USP e Ufscar de São Carlos), vai mudar seu perfil econômico. No lugar das plantações de laranja e cana-de-açúcar, o quarto maior fabricante de aviões do mundo vai instalar um complexo aeroespacial que inclui a fábrica, um centro de treinamento para pilotagem e manutenção de aeronaves e uma pista de testes de 5 km, a única da América Latina. "Reconhecemos a importância de manter a empresa no estado", afirma o presidente da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. Outro exemplo de parceria com empresas privadas é o que a Fapesp acaba de fechar com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. O sucesso do Projeto Genoma, que completou no mês passado o seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho responsável pela devastações dos laranjais paulistas, foi decisivo. O governo americano vai financiar uma equipe de cientistas brasileiros no seqüenciamento de uma estirpe da mesma bactéria responsável pela doença de Pierce nos vinhedos da Califórnia, onde são produzidos alguns dos melhores e mais caros vinhos.