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Diário Oficial do Estado de São Paulo

Cosmética para homens dá prêmio a pesquisador de Ribeirão Preto

Publicado em 28 abril 2018

Homens jovens, de 18 a 28 anos, que usam filtro solar pelo menos três vezes por semana, apresentam a pele do rosto com epiderme menos espessa e de melhor qualidade. Essa é uma das conclusões de Victor Hugo Pacagnelli Infante em sua pesquisa de doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da Universidade de São Paulo (USP).

O assunto é tão relevante que renderá ao pesquisador o Prêmio Albert Kligman durante o congresso mundial da Sociedade Internacional de Biofísica e Imagem da Pele (da sigla em inglês ISBS). O evento será realizado de 1º a 4 de maio, em San Diego, nos Estados Unidos. O prêmio seleciona a cada dois anos três jovens pesquisadores, de até 35 anos, com pesquisas inovadoras na área de dermatologia, cosmetologia e diagnóstico por imagem.

“O objetivo do trabalho é observar a diferença de pele entre os jovens de 18 a 28 anos, em relação ao uso de cosméticos ou não, influência da publicidade e do comportamento de consumo”, comenta Infante. Seu trabalho recebeu orientação da professora Patrícia Maia Campos, da FCFRP, que há anos pesquisa a relação dos cosméticos e o envelhecimento feminino.

Machismo – O pesquisador relata que uma das dificuldades foi o recrutamento dos adolescentes do sexo masculino devido à barreira do machismo: “Levamos seis meses para recrutar 60 jovens; quando uma pesquisa envolve o público feminino recebemos de 200 a 400 mulheres em um mês”.

Entre esses 60 indivíduos, 40 não aplicavam filtro solar rotineiramente e 20 tinham o hábito, pelo menos três vezes por semana. Para analisar de forma mais detalhada os benefícios do fotoprotetor solar, Infante usou um equipamento chamado microscopia confocal de reflectância a laser e um ultrasson de alta frequência.

A microscopia verifica, em tempo real, as características da pele do rosto de alguns participantes que usaram e de outros que não passaram o fotoprotetor solar. Trata-se de avaliação trabalhosa, que exige 500 imagens da pele do rosto de cada voluntário. “Identificamos que o uso do filtro entre os jovens resultou na melhora das características estruturais da derme. O colágeno, por exemplo, está mais firme, uma proteção para o envelhecimento. Portanto, quem não usa esse cosmético pode estar provocando o fotoenvelhecimento precoce da pele”, alerta o pesquisador.

Voluntários – Uma das comparações do estudo apresenta resultados surpreendentes. Segundo Infante, a pele de um garoto de 18 anos que não aplica filtro solar é pior que a do rosto de um rapaz de 26 anos que passa o produto três vezes por semana.

O estudo teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). E baseou-se no uso de filtro de proteção solar (FPS) 30 (mínimo), independentemente de marca. Foram selecionados apenas jovens não fumantes, pois o tabagismo favorece o envelhecimento precoce. “Escolhemos o rosto para a análise, pois é a área do corpo mais exposta à radiação e na qual, mais comumente, as pessoas costumam aplicar o filtro solar”, justifica o pesquisador.

Apesar do momento de crise econômica no Brasil, Infante diz estar satisfeito com a conclusão do estudo e a oportunidade de divulgação científica dentro e fora do País. O pesquisador também enviou o trabalho ao congresso da Federação Internacional da Sociedade de Química Cosmética (da sigla em inglês IFSCC), que será realizado em setembro, na Alemanha.

Estudos continuam – Infante também apresentará o projeto no 31º Congresso Brasileiro de Cosmetologia da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC), de 22 a 24 de maio. Neste evento, o trabalho será demonstrado em forma de pitch (apresentação rápida de negócio) para investidores interessados em oferecer apoio financeiro a novos projetos. Na próxima etapa de seu doutorado, o pesquisador pretende avaliar o fotoenvelhecimento das mãos e antebraços de jovens.

A professora Patrícia Maia Campos informa que a Sociedade Brasileira de Dermatologia está preocupada com o aumento do número de casos de câncer de pele no Brasil: “O trabalho científico comprova que o sol provoca alterações e risco de câncer de pele. Os jovens de 18 a 28 anos participantes da pesquisa, que não usam fotoprotetor, já apresentam sinais de alteração da pele, como manchas, poros abertos e aumento da oleosidade”.

Uma boa notícia é que, nessa faixa etária, a situação pode ser revertida com o uso diário do cosmético no rosto. A especialista informa que três meses depois de adquirir o novo hábito, os pesquisadores perceberam sinais de recuperação da cútis. “Quanto mais jovem começar a usar o fotoprotetor diariamente, mais chance de reverter os danos à pele e da radiação solar”, resume.

Ineditismo – Na opinião de Patrícia, o reconhecimento com o Prêmio Albert Kligman é motivador para o aluno de pós-graduação, pois a instituição promotora paga a inscrição do concurso, viagem, estadia e oferece US$ 500 para gastos pessoais nos Estados Unidos. Segundo ela, esse congresso é referência mundial em análise de imagem da pele.

“Estou muito feliz por se tratar de um trabalho brasileiro sendo valorizado pela ISBS numa fase difícil de se conseguir recursos para pesquisa no País”, ressalta a professora. Ela destaca que essa é a primeira vez que um aluno da FCFRP da USP desenvolve pesquisa 100% nacional na área de cosmética, premiada nesse concurso. Em edições anteriores, o grupo de pesquisa da professora Patrícia recebeu prêmios internacionais, porém em estudos realizados em parceria com instituições de outros países, como Japão e França.

Viviane Gomes

Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial

Jornal da USP