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Cortes no CNPq e na Capes teriam contribuído para crise na Fapesp

Publicado em 15 novembro 2002

Segundo pesquisadores da Fapesp ouvidos pela Folha de SP, a atual crise da Fapesp tem duas razões: a retirada progressiva do investimento das agências federais em fomento, como CNPq e Capes, e o número cada vez maior de pesquisadores no estado. O numero de bolsas de mês trado concedidas peio CNPq, no Estado de SP, por exemple, caiu de 3.991, em 95, para 1.883, em 2000. O da Fapesp subiu de 828 para 2.929. Os investimentos em bolsas, que respondiam por 11% do gasto da fundação, em 95, passaram a 32%, em 2000, e a 52%, em 2001. A segunda causa apontada foi a ampliação do sistema cientifico paulista, a partir da década de 90, que fez com que a Fapesp investisse, além de sua receita básica - 1% da do estado-,R$ 200 milhões de seu patrimônio. Essa ampliação teve comomarco os chamados programas especiais a Fapesp, como o genoma, que pôs o Brasil no seleto clube dos países com capacidade de seqüenciar DNA de organismos inteiros - como a Xylella fastidiosa. Alguns desses projetos têm sofrido críticas. Os cinco pesquisadores ouvidos pela Folha de SP os apontam como co-responsáveis pela situação financeira atual. "O genoma é necessário, mas se não exagerarmos", disse Crodowaldo Pavan, geneticista da USP. (Dados da Folha de SP. 29/10) EXPLICAÇÕES RALAS E SUPERFICIAIS Reinaldo Guimarães A Fapesp não está resistindo à pesada desvalorização cambial. A primeira razão para os problemas financeiros da agência paulista seria a retirada progressiva do investimento das agências federais (Capes e CNPq) em SP. A segunda teria sido o crescimento do sistema científico paulista durante a década de 90. Os informantes da matéria reclamam também que em 95 as bolsas valiam 11% do orçamento da agência e valeram 52% em 2001. Nada do dito falta com a verdade. Mas penso que são explicações ralas e superficiais. Inclusive, porque como o contingonciamento geral das bolsas de PG pelo CNPq e pela Capes sob FHC incluiu uma importante desconcentração geográfica, então, de acordo com a matéria da FSP, a crise da Fapesp seria uma crise integralmente virtuosa. Decorrente da descentralização geográfica da pesquisa Brasileira e do crescimento da capacidade instalada de pesquisa. Seus dirigentes deveriam estar orgulhosos dela e não reclamando da vida. Mas o que há, além disso? O fato é que a Fapesp, após enriquecer uma brutalidade com a inflação ate o Plano Real (uma gestão competente do patrimônio que Carvalho Pinto lhe concedeu em 1962), pôde sustentar confortavelmente uma carteira de projetos bastante dolarizada durante todo o período do Real 'moeda forte" (95-99). Resistiu impávida à primeira desvalorização cambial, em 99, mas não esta resistindo a esta outra, atual, muito mais pesada. Parece-me que por a culpa no CNPq e na Capes nada resolve, além de reforçar o juízo (injusto, naturalmente) de que os dirigentes da Fapesp só estão reclamando da diminuição das bolsas federais quando a agência foi atingida. Os "sem-Fapesp" pelo Brasil afora estão enxergando e reclamando disse há anos. Apontar como razão da crise o crescimento da pesquisa em SP beira o non-sense, inclusive porque a maior parte desse crescimento foi alcançado graças ao trabalho da Fapesp. A pesquisa, apesar de tudo, vem crescendo em outros estados também e a melhor maneira de enfrentar as crises de crescimento é alcançar recursos novos, maiores e mais estáveis, melhorar os mecanismos de gestão e fazer as escolhas corretas. Para todos os que têm mérito para utilizá-los, e não apenas para os que só agora começam a sentir o pese da herança de FHC. Encerro com uma preocupação. Em 1962, em acréscimo ao valor correspondente a 0,5% da receita de impostos do Estado de SP, o governador Carvalho Pinto reconheceu a divida do Estado com a Fapesp entre 1956 e 1960, que valia cerca do dobre daquele 0,5%. O objetive da dotação era o de constituir um patrimônio rentável. Penso, portanto, ter sido um equivoco do repórter afirmar que a Fapesp tem comprometidos R$ 200 milhões dos R$ 500 milhões do seu patrimônio atual, em função dos problemas que vive hoje.