Notícia

Correio Riograndense

Corrupção descontrolada é ameaça à democracia

Publicado em 11 julho 2007

A corrupção no Brasil, ao longo de séculos, consumiu gigantescas fortunas de dinheiro público. Escândalos que se tomaram públicos recentemente dão uma dimensão do prejuízo que a população vem sofrendo na medida em que os recursos que seriam destinados para educação, saúde, segurança, habitação... acabam nos bolsos de grupos políticos e econômicos.

O significado dessas perdas ganha dimensão mais trágica ainda na medida em que o país está cercado por deficiências, a começar pela fome de boa parte da população. Associe-se a isso a indignação de parcela dos cidadãos, alimentada pelo sentimento de impotência diante de manobras ardilosas, pela abrangência da corrupção e, em especial, pela sensação de absoluta impunidade.

Esse quadro geral, já gravíssimo, está gestando outro, ainda mais preocupante. Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) coordenada pelo cientista político José Al varo Moisés, da Universidade de São Paulo, revela que o percentual de brasileiros que apóia o sistema democrático cresceu de 51% em 1989 pára 68% em 2006. Ao mesmo tempo, porém, constata que para 31,5% dos 2.004 entrevistados, o país pode funcionar sem partidos; e para 28,7%, Brasil não precisa de Congresso Nacional. Inquietante ainda é a posição de 51,8% dos pesquisados, para os quais o governo pode passar ao largo do ordenamento jurídico, do Congresso e de outras instituições para resolver problemas considerados graves.

O trabalho deixa claro o desalento provocado por políticos que atropelam valores éticos e morais. E há razões de sobra para que a maioria dos brasileiros se sinta assim. Afinal, não existe sequer um sinal de que a seqüência de escândalos que surpreende a cada semana com novo caso possa ser interrompida.

Apesar de tudo isso, é preciso sempre lembrar que por pior que seja uma democracia, ela será sempre melhor que uma ditadura, O Brasil saiu há duas décadas de um regime de exceção que durou 2 1 anos e ainda vive reflexos negativos desse período, Também é necessário lembrar que um regime discricionário retira do cidadão a mais potente arma que ele dispõe para lutar contra a corrupção, o corporativismo, a conivência e outros males enraizados na política: o voto, Exercê-lo com consciência e fiscalização pode não eliminá-lo totalmente, mas certamente reduzirá o exército de maus políticos.