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Cana Oeste

Corrida pela obtenção do etanol via hidrólise da biomassa da cana-de-açúcar

Publicado em 16 outubro 2007

Há uma verdadeira corrida em todo o mundo para a descoberta da tecnologia mais eficiente e de melhor custo x benefício para a obtenção do etanol pela hidrólise do bagaço e da palhada da cana-de-açúcar. A enorme demanda de etanol que se vislumbra em todo o mundo no curto e médio prazos está movendo cérebros, tecnologia e muito investimento no sentido de aproveitar as milhões de toneladas de biomassa de cana-de-açúcar que sobram depois de cada safra. A obtenção de álcool pela hidrólise é antiga, quando se considera a celulose de madeira como matéria-prima. Hoje, a corrida se faz entre algumas tecnologias que ainda estão sendo aperfeiçoadas da hidrólise da celulose ou hemicelulose da biomassa da cana.


Mais álcool por tonelada

Parte substancial desse bagaço já é empregada em alimentação animal (é até exportada com essa finalidade) após sofrer tratamento específico. Outra parte importante é queimada em caldeiras para obter eletricidade e mover as usinas e destilarias. E parte ponderável é queimada para geração de eletricidade para a venda a terceiros, nos protocolos de cogeração. Um fato importante a se registrar é que pelo menos uma das tecnologias de hidrólise em desenvolvimento ainda permite produzir energia elétrica pela queima da fração bagaço que sobra após o processo de produção do etanol.

Se hoje, grosso modo, uma tonelada de cana-de-açúcar produz entre 70 e 90 litros de álcool no processamento tradicional, o emprego da hidrólise sobre o bagaço resultante poderá aumentar em dois terços, ou até dobrar esse rendimento. Para as usinas e destilarias, o processo da hidrólise significa ganhar, sem maiores despesas, a produção de álcool quase que semelhante, ou até igual à da área original com cana-de-açúcar cultivada pela adubações e manutenção da cultura, sem corte e processamento da cana-de-açúcar. Quase outra usina, sem investir em terras, indústria e infraestrutura.


Como está

Hoje as perspectivas de desenvolvimento da tecnologia são palpáveis, embora os processos ainda não estejam consolidados e disponíveis para aplicação em escala. No Rio de Janeiro, o projeto da Petrobrás com a UFRJ, liderado pelo professor Nei Pereira Jr. Para transformar celulose (hemicelulose) em açúcar conseguiu produzir 198 litros de etanol para cada tonelada de bagaço de cana-de-açúcar. Outros grupos de pesquisa também estão desenvolvendo projetos de hidrólise para obtenção de etanol. O professor Rogério César de Cerqueira Leite, por exemplo, especialista em bioenergia do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (NIPE), da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, coordena o Projeto Bioetanol e desenvolve a chamada hidrólise enzimática. Esse projeto é apoiado por entidades ligadas ao Ministério de Ciência e Tecnologia e tambémm estuda outros fatores ligados ao aumento de produção de etanol e seus impactos econômicos e sociais, além da viabilidade industrial do processo. Também estão ligados ao projeto uma rede de universidades e institutos de pesquisa, como UNB, UFRJ, Unicamp, USP, UFPE, Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) e a Universidade de Lund, da Suécia. Na área empresarial, Didini e Oxiteno também desenvolvem estudos ligados à hidrólise para obtenção de álcool ou derivados para alcoolquímica, de forma independente ou em conjunto com entidades de pesquisa, universidades e Petrobrás.


Revelação

Outro pesquisador do NIPE, o engenheiro químico Carlos Eduardo Vaz Rossel coordena um projeto de hidrólise para obtenção de etanol na Dedini, com apoio da FAPESP, e que vem apresentando resultados animadores na planta-piloto. O processo DHR-Dedini Hidrólise Rápida seria competitivo com o petróleo a 42 dólares o barril de 200 litros. Para registro, no início de julho, o barril do petróleo estava cotado a 72 dólares no mercado internacional, ou seja, quase 50% a mais que o custo do etanol do processo DHR, que é de 27 centavos de dólar por litro. Diretores da Dedini informaram que o processo DHR permitira que as usinas dobrem a produção de etanol sem plantar nenhuma muda de cana a mais.

O prazo para que as diversas tecnologias que estão sendo avaliadas se tornem viáveis para a aplicação comercial varia entre três e dez anos, dependendo da instituição.

Nos Estados Unidos, igualmente, a corrida em busca da melhor tecnologia de hidrólise é intensa, direcionada para a palhada do milho e de outros vegetais celulósicos. Os investimentos são altos. Mas há relatos de projetos onde a hidrólise tem apresentado excelentes perspectivas para a produção de etanol a partir de biomassa. A corrida continua.

Fonte: Elo Informativo — Primeiro semestre 2007